As memórias da Ditadura Militar e a mídia brasileira

Nessa semana o nosso “Bate-papo” é com o escritor Gabriel Papa que lança nessa semana o seu primeiro livro: “O paradoxo da realidade social – Mídia, Memória e Ditadura no Brasil”

Falar em Ditadura Militar é relembrar de um fato que até hoje se encontra latente na sociedade brasileira. Isso devido as diversas heranças que foram deixadas por esse período e que assombram ainda hoje. “Afinal, uma injustiça do passado que é atenuada ou justificada no presente torna-se uma injustiça no presente e, portanto, uma ameaça real de que injustiças sejam cometidas novamente, considerando-se que uma injustiça contra um indivíduo é uma ameaça contra todos”.

Foi pensando em ajudar na construção da memória do País e também deixar bem longe novamente um movimento como a Ditadura, que o cravinhense Gabriel Papa Ribeiro Esteves, graduado em Ciências Sociais, começou a se dedicar em sua pesquisa de mestrado no ano de 2009, o que culminou na realização do livro “O paradoxo da realidade social – Mídia, Memória e Ditadura no Brasil”, que será lançado oficialmente nessa semana no Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), que acontece de 26 a 29 de Julho, em Brasília.

“Tento ajudar na construção da memória do meu país, para que com minha obra, pesquisas e trabalhos, possa lutar contra a Ditadura, o que ela foi e representa. Dessa forma quero manter ela distante da minha realidade, da sociedade e das próximas gerações”, diz Gabriel Papa Ribeiro Esteves.

Esta obra busca compreender a relação entre mídia, memória e política nos períodos pré-eleitoral e eleitoral das eleições presidenciais de 2010, para captar como se dá a representação memorial do passado na sociedade brasileira acerca do regime militar (1964-1985), período que deixou marcas profundas em nossa história.

“Escolhemos analisar a cobertura feita pelo jornal paulista Folha de São Paulo, pelo fato de ser um dos principais meios de comunicação do país a cobrir as eleições nacionais, e por ter apoiado no passado o próprio regime ditatorial que abateu a nação após o golpe de 1964. Analisamos o conteúdo, em todos os fragmentos presentes no jornal, por um período de oito meses, elucidando como o jornal retrata os candidatos, construindo suas imagens a partir de seus respectivos passados opositores ao regime”, explica o escritor Gabriel Papa.

Gabriel Papa Ribeiro Esteves
Gabriel Papa, autor do livro

Intertv Web – De onde surgiu a ideia para escrever o livro “O paradoxo da realidade social – Mídia, Memória e Ditadura no Brasil”?

Gabriel Papa Ribeiro Esteves – A ideia de escrever o livro na verdade surgiu da minha pesquisa de Mestrado em Ciências Sociais, através do grupo de pesquisa de Política e Cultura, do qual eu fazia parte na Unesp de Araraquara. Mas já vinha refletindo sobre o tema desde a minha Graduação.

Intertv Web – Do que se trata seu livro?

Gabriel Papa – O livro se trata de uma investigação acerca do papel que a Folha de São Paulo desempenhou na cobertura das eleições de 2010, no que tange a representação da memória do passado da Ditadura Militar no Brasil, ao cobrir as candidaturas de Dilma Rousseff e José Serra, os quais tinham um passado ligado a oposição à Ditadura Militar, cuja a Folha de São Paulo apoiou. Então na verdade o livro se trata de uma investigação e análise em torno da relação entre mídia, memória e Ditadura Militar no Brasil, tomando como recorte o período das eleições.

Intertv Web – Quanto tempo de pesquisa foi necessário para finalizar o livro?

Gabriel Papa – Teve início em 2009, momento da definição do tema, mas foi até 2015 que foi quando defendi minha dissertação de Mestrado. Um tempo de seis anos. Um longo tempo! E só será lançado agora em 2017.

Intertv Web – Você relata que “um povo sem memória é um povo sem futuro”. Isso é uma afirmação para mexer com o Poder Público, já que muitas vezes a Cultura e o patrimônio histórico é deixado de lado?

Gabriel Papa – Sobre o relato “um povo sem memória é um povo sem futuro”, isso está no Prefácio do livro, que é escrito pelo professor Marcelo Henrique Martins, que é sociólogo. Ele cita uma frase que está no estádio monumental do Chile, que viveu uma ditadura muito parecida com a nossa, mas mais sangrenta.

Quando digo que um povo sem memória é um povo sem futuro, além de provocar o Poder Público, que deliberadamente deixa de lado a Cultura e Patrimônio Histórico, porque existe muita coisa que se quer que seja esquecida, e quem conhece o passado, muitas vezes impede que muitas coisas sejam feitas da mesma forma no futuro.

O conhecimento ele é crítico e faz as pessoas se tornarem questionadoras, mas além disso dizer que um povo sem memória é um povo sem futuro, é dizer que precisamos entender muito mais aquilo que não querem que nós nos lembremos do passado, do que aquilo que nos mostram. O que está na história é sempre a história do vencedor, por isso precisamos investigar um pouco a história dos vencidos, porque os vencedores apagam rastros de injustiça que eles deixam na sua conquista do poder e na permanência nele.

Intertv Web – Qual a relação da Mídia com a Memória e a Ditadura?

Gabriel Papa – A mídia ela constrói uma representação da memória da Ditadura, em que se justifica o ato como algo que veio para impedir que o pior acontecesse, mas não se debate o que seria esse ‘algo pior’. Ao se criar uma justificativa para uma injustiça no passado, a gente abre no presente uma ameaça a todo mundo, porque você permite que qualquer ato, como por exemplo, os ocorridos no passado, possam se refazer no presente se forem necessários. Entretanto a questão do necessário é algo aberto e que podemos discutir por muitos anos, por que o que seria necessário?

O necessário é sempre uma ideia das classes dominantes, ou seja, a mídia ela constrói uma representação da memória da Ditadura que a justifique e a legitime, permitindo de certa forma, que ela se torne possível no presente, quando os interesses da classe dominante estão ameaçados, porque a classe dominante perante a mídia faz com que seus interesses sejam o de toda a sociedade.

Intertv Web – Como foi realizado o conceito para a capa do livro?

Gabriel Papa – O conceito da capa do livro foi desenvolvido por um amigo pessoal, Danilo Zamorano. Ele conhecia o meu trabalho é graduado em Letras na Unesp e também Publicidade e Propaganda, na Uniara. Mandei o livro para ele, então leu, apesar que ele já conhecia a obra, porque a gente já vinha conversando muito sobre essa minha pesquisa. Por isso na capa ele tentou mostrar o militar, com olhar de vigilância, expressão bruta e sem sentimentos, além de um chapéu feito de jornal, para tentar essa conexão da memória da Ditadura, e os relatos que se tem através da imprensa e mídia em geral.

Intertv Web – Quem quiser adquiri seu livro como pode fazer?

Gabriel Papa – O meu livro pode ser adquirido nas livrarias Saraiva, Cultura e Travessa. Além do site da editora Appris, e também na Amazon. Lembrando que ele tem versão impressa e em e-book.

O paradoxo da realidade social – Mídia, Memória e Ditadura no Brasil

eBook | Impresso

Intertv Web – Suas considerações finais.

Gabriel Papa – Esse livro vem para mostrar um pouco daquilo que é produzido nas Ciências Humanas e Sociais no Brasil. Teremos o lançamento oficial no Congresso da SBS (Sociedade Brasileira de Sociologia) de 2017, uma obra de relevância na área de Sociologia nesse ano. Também farei um lançamento em Ribeirão Preto (SP), no dia 24 de agosto, às 19h, na Livraria da Travessa, no RibeirãoShopping.

Digo que é um livro que tenta colocar em conexão a academia (universidade) com a sociedade, e mostrar que nós das Ciências Humanas e Sociais não temos somente opinião dos fatos, ou dizemos o que pensamos. Dizemos, teorizamos, pesquisamos, levantamos os fatos e mostramos que o que estamos defendendo tem fundamento e é importante para ser refletido. Então tento ajudar na construção da memória do meu país, para que com minha obra, pesquisas e trabalhos, possa lutar contra a Ditadura, o que ela foi e representa. Dessa forma quero manter ela distante da minha realidade, da sociedade e das próximas gerações.

Continuo a minha pesquisa no Doutorado, em que criei um outro grupo de estudos sobre “Sociedade, Poder e Organização de Mercados”, também na Unesp. E agora não pesquiso somente a Folha de São Paulo, mas sim a imprensa em geral, aquela “imprensa marrom” (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo).

Kennedy Oliveira

É formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelas Faculdades COC (atualmente Estácio). É pós-graduado em Comunicação: linguagens midiáticas, pelo Centro Universitário Barão de Mauá.

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