A batucada do tempo

Cheiros e sons do passado devem ter um lugar especial neste que é um grande armário chamado memória. A gaveta dos cheiros provavelmente é climatizada para que nenhum perca a referência, enquanto os sons ficam em caixas individuais, cada uma devidamente preparada com isolamento acústico. Cada qual no seu canto a espera de serem chamados ao presente para exercer a fantástica função de nos remeter a épocas vividas, a momentos que nos foram tão importantes. No meu caso é impossível sentir cheiro, por exemplo, de banana cozida com açúcar e canela e não voltar aos meus cinco, seis anos de idade.

Minha avó fazia o doce para mim e minha irmã junto com o café da tarde, que tinha à mesa pães e geléias feitas por ela mesma. Adorava aquele visual com cores diferentes, o branco predominando no amarelo queimado e os dois a cobrir por inteira a fruta mole, quente, que soltava uma água adocicada. Eu e minha irmã disputávamos quem comia mais depressa, quem gostava mais da sobremesa, quem tinha ganhado o pedaço maior.

Certo dia, resolvemos enganar minha avó. Comemos toda a banana, lambemos o prato com a inocência e delícia de se ser criança e reclamos alto que ela não tinha feito o doce, e sim apenas colocado a louça vazia, sem nenhuma comida. Deu certo! Ela voltou para o fogão e novamente fez a banana. O cheiro percorreu a casa toda, e foi como se tivesse tomado forma e conseguisse nos levantar nos braços com o molejo igual aquele que se nina um bebê.

Quando a banana chegou à mesa estava melhor que da primeira vez. Tinha algo a mais. Dá água na boca só de lembrar. Hoje percebo o que era. O carinho e prazer da minha avó de se deixar enganar, de nos deixar sentir que éramos tão espertas. Sem dúvida, esse foi o tempero que fez com que o doce ficasse mais cheiroso, mais gostoso, e aprisionado para sempre na minha lembrança.

Também foi na casa da minha avó, a primeira vez que ouvi a matraca do vendedor de biju. Depois de experimentar a casquinha que dissolvia na boca, era impossível eu não correr para pedir dinheiro logo que ouvia aquele barulho ritmado. Inclusive, vários sons tinham uma linguagem própria que dispensavam a palavra. Minha mãe saia à calçada assim que escutava as notas agudas do amolador de facas. Primeiro um toque longo seguido de outro curto. Tinha também o engraxate que batucava na caixa, e atraía, dessa forma, a freguesia. Acredito que se todos esses sons se juntassem, formariam uma bateria nota dez de escola de samba. Neste carnaval, os cheiros entrariam sambando com a leveza que lhes é própria e certamente ganhariam a avenida principal com a elegância de quem se sabe fazer presente quando é recordado, de quem faz deste vai e vem, um rebolado encantador.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

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