A Sementinha

Ainda não conheci nenhuma mãe ou pai que não ficasse sem ação quando o filho pequeno chega com a clássica pergunta: de onde vêm os bebês?

Afinal, como explicar àquela criaturinha tão pequena o complexo aparelho reprodutor, o que é o sexo, como mamãe e papai expressam o amor através de seus corpos, com a agravante que estamos inseridos em uma sociedade cheia de tabus sobre o assunto os quais muitas vezes fazem com que nós, adultos, tenhamos dúvidas sobre a simplicidade que é o ato sexual.

Se até hoje aceitamos o conceito agostiniano de que o corpo é fonte de pecado, de que é vergonhoso ter prazer com as carícias, como esclarecer ao pequeno como ele foi gerado? Daí vêm as antigas estorinhas que não sabemos bem a origem, mas que sempre são uma salvação nesse caso.

A da cegonha sempre me pareceu a mais estranha. Uma ave cansada do trabalho árduo de voar pra lá e pra cá, vai em algum lugar misterioso que está cheio de bebês famintos e carentes, pega um aleatoriamente e o despacha ou por uma chaminé, ou deixa-o na beira da porta de entrada da casa dos futuros pais. Nunca me pareceu uma boa idéia contar isso a uma criança. É algo tão impessoal, e ao mesmo tempo pensar nas outras que foram deixadas apenas com fraldinha ao léu naquele depósito sempre me deu arrepios.

Há também quem diga que foi um presente de Deus. Imagine uma caixa embrulhada com papel de anjinhos e amarrada com um laçarote vermelho que quando é aberta, surpresa!, tem um bebê com um aviso no pé: não aceitamos devolução! Pura mercadoria!

Com o passar dos tempos, uma nova teoria surgiu e essa veio cheia de conceitos científicos: a sementinha do papai foi colocada dentro da barriga da mamãe e depois de nove meses, voilà! nasce o bebê.

– Mas como essa sementinha foi parar lá?

– Ah, o papai, com cuidado, a colocou! Pronto, chega de tanta conversa.

E lá vai a criança para o seu mundo pensar a respeito da sementinha.

Quando nasceu o segundo filho da minha prima, o primeiro tinha apenas três anos. Ele até achou bonita a barriga da mãe ficar grande, ver o pai ser carinhoso com ela, acompanhar a preparação do quartinho com bichos de pelúcia e roupinhas tão pequenas. Mas assim que a irmã nasceu, ficou claro que ele ficara arrependido de ter sido solidário durante a gestação daquele ser que não parava de chorar, que não dormia à noite, que fazia a mãe ficar com olheiras e cansada. Que bobagem ter colocado uma sementinha para “essa coisa” existir!

O bebê era chato, tirara-lhe a atenção da mãe, não falava, não brincava, e ele nem ao menos podia colocá-lo na garupa do seu triciclo. Era um inútil. Ele tinha agora uma missão importante: não deixar nunca mais o pai colocar sementinha na barriga da mãe.

Em meio a essas profundas reflexões, o pai um dia chega em casa contente da vida para fazer um jardim. Já comprara tudo: esterco, pá e – ai! – sementes!!!!!! Traidor! Como podia pensar em deixar a mãe novamente barriguda, e, o pior, com aquela quantidade toda seriam vários bebês chorando, querendo o peito da mãe que, coitada, ficaria doente e até mesmo poderia morrer por cuidar de tantas crianças.

Ele pensou, pensou e arquitetou um plano muito bom para um  guri de sua idade. No dia seguinte, antes que a mãe o levasse para a escolinha, escondeu todas as sementes compradas pelo pai na mochila. Já no maternal com os amiguinhos, distribuiu as sementes para todos os coleguinhas menos para o Bruno, seu melhor amigo.

– Por que você não vai me dá?

– Porque eu gosto de você. Já pensou em ter um irmãozinho tão chato como o meu que não para de chorar? Deixa pra eles, e já contei pra todo mundo que é só por a sementinha na barriga da mãe que vai aparecer uma coisa muito legal!

Pronto, estava resolvido o problema! Duro foi explicar para o pai à noite a boa intenção que teve quando se desfez daquelas sementinhas chatas.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

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