As teias do medo

O medo só existe porque é inexplicável, e se é inexplicável não tem como ser definido. Sem definição, encontra base na subjetividade, naquilo que não é palpável, que não é visto. E o que não pode ser visto, nem tocado, provoca medo. Talvez por esse motivo, o amor encontre tantos obstáculos, todos eles invisíveis, deixando as vítimas machucadas, principalmente as que ainda não aprenderam a enxergar na escuridão.

Foi o que aconteceu com eles. Conheceram-se num desses acasos da vida, quando, numa corrida pelo parque em que seguiam em sentidos contrários na pista, os seus olhares se encontraram, e naquele momento souberam que seria impossível para eles viver sem o outro. Suados pelo exercício aeróbico, eles revelaram os próprios cheiros e flutuaram nesta química estabelecida. E sem que ela percebesse, pôs-se a correr ao lado dele, desistindo do caminho que antes seguia sozinha. Correram juntos e a cada passo deixado para trás acreditavam estar confeccionando um passado, visualizando o futuro. Descobriram uma poesia ritmada, e nos versos do amor se tornou possível achar a felicidade, nem sempre disposta a ser encontrada na prosa da realidade.

Empolgada, confiante na relação cheia de cumplicidade, ela revelou o desejo que ele conhecesse a direção por onde antes ela corria. Queria mostrar-lhe o que já vira, o que aprendera, as histórias e pessoas que lhe eram importantes. E neste instante, sem que houvesse um motivo de fato, uma sensação de sufoco o fez parar a corrida. Ofegante, como se lhe faltasse o ar, enxugou o suor, olhou longamente para ela, e percebeu-se incapaz do desafio. O medo lhe tomara a alma na mesma proporção que o amor tempos atrás. E sem palavras partiu cabisbaixo, deixando aquela que lhe era querida sem explicação que valesse.

E ela, entre pensamentos, dúvidas e rancor, retomou o seu caminho, primeiro com as pernas pesadas (um peso que lhe parecia ser maior que aquele possível de carregar), com um choro que lhe apertava o peito, com a dor que lhe corroía a esperança. Mas depois o vento lhe acarinhou as faces e o calor do sol lhe esquentou o espírito. Os músculos retomaram a força e ela conseguir acelerar o ritmo. E na corrida da superação do medo em estar sozinha, descobriu que o seu caminho era mais bonito que aquele que se deixara levar, pelo simples motivo de que era o caminho que escolhera. Sem medo.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

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