O melhor dos presentes

Presente a gente não rejeita. Presente é a conquista pelo que foi feito, pelo que foi sentido. Sendo assim, presente é obra do passado. As ações e os pensamentos idos desembocam em mar que nos banha hoje. Águas calmas ou agitadas são a reação de atitudes já tomadas.

Às vezes, ao nos depararmos com ondas revoltosas, parece mesmo que não há saída diante do perigo iminente. Elas nos vascolejam, nos afundam e, já sem saber onde estão cabeça e pés, só nos resta tomar a conduta de entrega ou de briga.

O medo impera, o amor se afasta. No entanto, tentamos ser fortes e a luta acaba por ser a opção. Por um período, o afogamento e a falta de direção ganham o primeiro round do adversário imobilizado pelo temor. Os pulmões se enchem de água, a cabeça desnorteia, e é no coração sereno que ganhamos um guerreiro como aliado, que faz a tranquilidade reverter-se em guia para o caminho de volta. É assim que o presente renasce e nos deixa prontos a sentir novamente os raios da vida.

Um calorzinho chega tímido, esperando ser recebido com carinho, livre para esquentar primeiro os fios do cabelo até nos abraçar com luz intensa. Aconchegado, repele as dúvidas e as ansiedades. Retornamos à areia e o infinito ameaçador fica distante com suas nuvens carregadas. A sensação de fortaleza invade nosso espírito e abençoamos os calos deixados para que nos defendam de uma outra tormenta.

Será vencida a próxima procela? Com quão valentia iremos enfrentá-la?  Já que sabemos dos riscos, como conseguir proteção? Cada tempestade tem características diversas, mas praticar durante a bonança é bom aprendizado. Mudar o verbo ter pelo querer parece uma maneira de manter o namoro com este verão interno. É a troca de imposições por desejos. “Quero trabalhar, quero cuidar de um ente querido doente, quero levantar da cama, quero ser feliz”. Frases pensadas, faladas em voz alta entram como mantra, um estado mágico em nossas almas, tornando-se curativos para cada buraco provocado por mágoa, por dor, por saudade de quem já se foi. O espírito se renova e, cheio de amor, contagia quem está ao redor.

Pessoas do bem se aproximam, forma-se uma grande roda e, em coreografia sem ensaio, cada passo torna-se único, solidário. O mar, cheio de mistérios, continua a ser cenário, porém só em beleza e não mais como confronto. Juntos com nossos iguais somos mais fortes e nesta ciranda o tropeço de um será amenizado pelas mãos que o seguram.

Assim, vamos formando calmaria, com a certeza de um amanhã também claro, de um futuro de presentes dados por nós para nós.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

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