O Rei do Rio

Para muitos pode ser considerado esporte, para outros, divertimento, mas há aqueles que veem a pescaria como uma arte. São os que enaltecem a paixão de passar horas olhando as águas (sejam essas doces ou salgadas), contemplando o nada, com o foco da atenção apenas na ponta da vara, esperando que a linha puxe, sentindo a fisgada do peixe que por acaso passava por ali e que resolveu, ingenuamente, fazer um lanchinho. Para essas pessoas, pescar é a maneira de transcender o intelecto, de fazer com que o silêncio seja melhor professor que as palavras (já que o aprendizado é o de si mesmo), de conseguir a comunhão com o cosmo, de travar uma conversa com Deus.

E era assim que ele passava as horas de folga do maçante trabalho como funcionário público. O rio escolhido era sempre o mesmo, o que variava era o local em que apoitava a canoa, dependendo do tipo de peixe que esperava pescar. Sozinho, no barco pequeno onde se abrigavam linhas e iscas, além de uma cesta não muito grande para transportar os pescados, ele começava a sua espera. Sabia que para cada peixe a reação precisa ser distinta. Se for um barbado, por exemplo, o pescador deve ser paciente e esperá-lo mamar primeiramente a isca até que finalmente a abocanhe e fique preso no anzol. De nada adianta ser apressado nas primeiras puxadas, o resultado, sem dúvida, será ficar sem o peixe e sem a isca. Já a frenética corvina é alvo mais fácil: fisgou, pegou! Era mesmo um mundo complexo esse do rio, da mesma maneira como são as mentes humanas.

Mas naquele dia, em que tranquilamente esperava um toque na linha como tantos outros que já tinha sentido, surpreendeu-se com a força com que a vara foi puxada; força tanta que quase fez com que ele caísse dentro d´água. Nesse momento soube que ali embaixo, um rei, provavelmente perdido do cardume, o desafiava. Sem deixar bambear a linha, segurou forte o caniço, tombando o corpo para trás como forma de apoio naquela luta que se estabelecia. Foi, então, maravilhado que viu o dourado majestoso mostrar em saltos espetaculares a sua cor de ouro com reflexos vermelhos. Devia ter um pouco mais de um metro, e cerca de vinte quilos. Expunha sem timidez sua bravura, a batalha pela vida, indicando ao pescador o privilégio de presenciar tamanho espetáculo. Encantado diante daquela realeza, viu o dourado cuspir a isca e voltar para dentro do rio, sumindo como um artista que nega os autógrafos.

E ele, pessoa comum até então, soube que ganhara um presente da natureza, e mais que ter o peixe como troféu, guardaria essa imagem para sempre na parte mais alta desta imensa prateleira chamada memória.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

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