Passageira incansável

Lembro-me que com 18 anos de idade, ainda no primeiro ano de Comunicação Social na Universidade de São Paulo, fiz matrícula em um curso privado de cinema. Pegava dois ônibus para chegar à avenida Angélica todas às segundas-feiras e, no apartamento do professor, um argentino cinéfilo, discutíamos movimentos da sétima arte, falávamos de tendências e tínhamos a missão de assistir a um filme determinado pelo mestre para debater na próxima aula. Como era um grupo pequeno, com apenas sete pessoas, combinávamos de ir todos à sessão e depois, ao redor de uma mesa em pizzaria no bairro do Bexiga, falávamos sobre a estética, a interpretação dos atores, o roteiro, a direção, enfim, uma conversa sobre cinema.

A visão deles era sempre grandiosa para mim. Afinal, eu e um amigo éramos os caçulas do grupo e aquelas pessoas tinham um conhecimento muito maior que o meu que ainda engatinhava pelas obras de Godard, Wim Wenders, Fassbinder. A idade variava entre os 30 e 40 anos, todos apaixonados pela arte e, não raro, emendávamos a primeira sessão com a de outro filme em cineclubes que exibiam longas diferentes daqueles do circuito comercial. Foi com essa turma tão especial que comecei a frequentar o Festival de Cinema de São Paulo, na época no Masp, e chegamos, em um só dia, assistir a seis filmes seguidos, muitos utilizando fones com tradução simultânea pois não tinham legendas. Engraçado que, na época, meu irmão recém-chegado da Itália me avisou que eu não precisaria de fone para um dos filmes da Mostra e que eu compreenderia tudo apesar de não falar italiano. Lembrando que não existia internet e as informações escassas, entrei na sala de exibição com uma pulga atrás da orelha. Ele estava certo! Durante quase duas horas me delicie com “O Baile”, de Ettore Scolla, um filme profundo que conta um pouco da história da França dentro de um salão de dança, sem um único diálogo.

Descobri que o cinema também pode ser forma de carinho para com os que amamos e levei muitos amigos para ver o mesmo filme que tinha me encantado e a cada vez encontrava significados novos na história que me ampliavam o conhecimento do mundo e da complexidade da alma humana. Foi assim com “Era uma vez na América”, de Sérgio Leone; “Carmem”, de Carlos Saura; “Tomates verdes fritos”, de Jon Avnet; “O Expresso da meia noite”, de Alan Parker, entre outros que até hoje mexem com meu coração.

Fui compreendendo que, mais que lazer, aquelas películas me ajudavam em um autoconhecimento importante, com as quais eu refletia sobre a condição do homem na sociedade, no amor, na política. Um filme com Marcello Mastroianni me levou às lagrimas e soluços a ponto dos colegas começarem a me acotovelar para que chorasse mais baixo.

É o fantástico “Os Companheiros”, de Mário Moniccelli, em que operários são explorados com jornadas de até 16 horas, sem benefícios, quase escravos. Como a magia do cinema é imensa, este mesmo diretor me provocou as melhores gargalhadas com o clássico “O Incrível Exército de Brancaleone”, em que cavaleiros esfarrapados percorrem uma Europa ainda medieval atrás de um pedaço de terra que possa ser chamado de seu.

E assim, nesta viagem com fotografias deslumbrantes, músicas e roteiros de me tirarem o ar, continuo como passageira incansável, atenta, curiosa com o tanto ainda a ser descoberto.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente é docente no Centro Universitário Barão de Mauá.

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