Passe bem, Dona Doutora!

Livros técnicos e documentos se acumulavam na escrivaninha. Tinha que escrever a tese de doutorado de qualquer maneira. O tempo, sem pena, continuava a empurrar os ponteiros do relógio aproximando a data final de entrega. Na estante, os romances, os clássicos da literatura, como crianças carentes, pediam-lhe a atenção. Eles que sempre foram seus grandes companheiros agora se empoeiravam nas prateleiras. Ela os via com saudade do toque e da leitura prazerosa. Mas não podia se dar ao luxo de se perder nas histórias dos Karamazovs, Maias, e nem sequer nos contos de Clarice. Os antigos e bons amigos deveriam ter paciência para serem manuseados novamente. Na tela do computador, um texto formado por dados, tabelas, citações formava um desenho dadaísta sem o menor sentido. Ela teclava em ritmo rápido, deixando no ar uma melodia frenética que, de quando em quando, dava lugar a um longo silêncio, como se o maestro distraído não lembrasse o restante das notas. Só que não era paz que existia naquele instante. O teclado quieto voltava a ser castigado assim que ela conseguia captar de um autor a resolução da dúvida.

Foi assim por meses. Nada de passeios, telefonar para amigas, assistir a um filme ou qualquer outra diversão que fosse. Apenas as aulas na faculdade mudavam a rotina de estudo. Em casa, o empenho era total na pesquisa. O filho resolveu dar um tempo na crise de adolescência; lembrava-se bem da mãe na época do mestrado e sabia que, naquele período, nenhum colapso rebelde seria percebido; o marido nem se atrevia nas cobranças por atenção e se sentia satisfeito em ser o responsável por ela não cair em inanição. Os dois andavam leve pelos corredores para não fazer barulho; nem a TV ligavam mais, senão muito, muito baixo. Ela, no escritório, atordoava-se nas reflexões. No banho, maquinava mentalmente o próximo capítulo e não foram poucas as vezes em que saiu molhando o chão para registrar uma ideia que lhe parecia genial. O sono já não era momento de descanso, pois servia de leito para os sonhos (ou pesadelos?) sobre o dia da defesa. Acordava empapada num suor frio, levantava-se sem sequer tomar um café preto e logo todos os cômodos eram invadidos pelo som que vinha das pontas de seus dedos. O estresse era geral. As páginas se multiplicavam no arquivo “tese”:100, 150, 200. O fim se aproximava.

Seus olhos, ardendo com a tela de fundo branco e muitas letras, nem acreditaram quando o derradeiro ponto final foi dado na longa conclusão. Estava pronto! Um grito de alegria envolveu o ambiente. Ligou para o marido, para o filho, sairiam à noite para um jantar em família. Felicidade total, comemoraram com champagne. O resultado do trabalho lhe valeu nota “A” com louvor, sucesso absoluto! Enfim, o título de doutora lhe garantiria no ano seguinte um acréscimo no salário de professora universitária e o respeito dos colegas e alunos. Tinham valido a pena o desassossego e a dedicação.

Já com corte novo de cabelo, sorriso largo no rosto, arrumava os últimos preparativos para a festa de Natal quando um telefonema lhe interrompeu a organização:

– Professora, aqui é do departamento pessoal da universidade. Estamos entrando em contato para lhe dar os parabéns pelo título e dizer que não temos mais interesse no seu trabalho. A faculdade está dispensando todos os doutores. Para o lugar da senhora contratamos um recém-graduado por um quarto do seu salário. Passar bem e bom Natal!

Largou o telefone sem forças nem para andar. Entrou na cozinha e um sentimento nada cristão lhe envolveu a mente. Olhou para o chester tirado há pouco do forno e o destrinchou violentamente sem nenhuma habilidade acadêmica.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

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