Quando chega o amor

Escritores de variadas regiões, variadas épocas, variados estilos vieram me fazer companhia quando eu pensava sobre o amor. O primeiro a me visitar foi o inglês Charles Dickens que inicia um de seus contos falando de um peregrino que empreendeu uma jornada mágica. No princípio, esta lhe pareceu muito longa, mas ao chegar a meio caminho, percebeu que era curta por demais. Assim enxergo a vida!

Quando crianças, nossa visão se perde na aparente trilha imensa que devemos seguir. Os privilegiados têm como amparo nesta caminhada o amor dos pais, e logo depois o de amigos que alegres os seguram quando inevitáveis percalços aparecerem. Quem o destino sorteou em ter estas pessoas ao lado, feliz alcança a maturidade pronto para encontrar alguém, não apenas que lhe dê guarida, mas que lhe segure a mão e juntos sigam o restante do caminho, mantendo a magia estabelecida na estréia da jornada para que esta no momento que se encurta tenha valido a pena.

O francês Flaubert também veio dar sua contribuição me alertando que o amor não chega com estrondo e fulgurações.  Não é um furacão dos céus que cai sobre a vida, transtorna-a, arranca as vontades como as folhas e arrasta para o abismo o coração inteiro. 

O verdadeiro amor é como a chuva que faz lagos na varanda da casa quando as calhas estão entupidas e, sem que se perceba, esta água faz uma fenda no muro e, ainda sem que se perceba, destrói a proteção que temos e passa a viver no nosso mundo. Acho mesmo que é assim: o amor vai-nos tomando, e outros sentimentos tão importantes como ele vêm juntos se convidados: a lealdade, o companheirismo, a ternura, a tolerância em se saber que são dois daqui para frente.

Até porque não existe, por maior que seja o amor, jeito de transformar duas pessoas em uma só. Continuam sendo dois indivíduos que sabem o quanto é necessário não só falar, não só escutar a própria voz, mas a importância em ouvir, em estar atento aos desejos, às vontades, e até às caturrices do outro. E é um jogo divertido este quando se joga bem.

É como descreve o brasileiro Rubem Alves quando coloca que a diferença entre um bom e um mau relacionamento é como os jogos de tênis e de frescobol. Ambos precisam de raquetes, bola e dois jogadores. Só que no tênis, o objetivo é fazer com que o parceiro erre para que se ganhe. Já no frescobol, o parceiro corre para pegar uma bola mal lançada pelo outro, faz de tudo para que esta volte na direção certa ao parceiro, porque a ideia é que o jogo não pare.

É como Alves diz: “bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…”

Afinal, se me permitem mais uma citação, agora da mineira Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

Um comentário em “Quando chega o amor

  • 31 de março de 2017 em 11:20
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    Só sob graça alguém recebe as musas pra escrever um texto assim… alegrias, criança!

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