Travessuras do MantintaPerera

Não tinha nada que tirasse mais a minha avó do sério que alguém duvidando da existência do Saci Pererê. “Ignorantes”, ela bradava, com a certeza de quem convivia com as traquinagens do moleque negro de uma perna só. Mesmo assim, resolvi questionar a verdade do assunto aprendido como lenda naquele semestre da escola.

-Que crendice que nada! Não tem uma semana que o crispim não passe pela minha cozinha, derrubando a cinza do fogão.

-Mas vó, você viu ele? questionei do alto do conhecimento de quem passou para a quarta-série do primário.

– Como “vi”, menina? E você acha que ele se deixa ver? Ele é rápido. Passa girando ligeiro, espalhando tudo o que encontra pelo chão. Levanta uma poeira danada e num piscar de olhos já alcança o quintal.

Ainda insisti:

– Mas vó, como sabe então que é ele?

– Ô paciência que eu tenho que ter. Como sei que é ele? Que pergunta mais besta! Se não é ele, é quem, então? Cada uma que a gente tem que ouvir, Padre do céu! Se eu vi o Saci… Ara!

E sem delongas, saia a minha avó da conversa que julgava perda de tempo. Para ela que vivia na fazenda, as figuras vistas na cidade como folclóricas eram companheiros do dia-a-dia. Nessa época já enviuvara, os filhos já estavam casados e sozinha enfrentava com coragem o intruso que a visitava com suas travessuras. A história me encantava. No mesmo fogão à lenha onde, durante minhas férias, ela fazia tanta comida boa e diferente da que eu comia na casa dos meus pais, o também chamado de matintaperera, matitaperê, martim-pererê se esbaldava em folias.

Resolvi fazer vigília. Certamente, eu, com meus olhos mais jovens, poderia enxergar o que minha avó apenas sentia. Durante toda a semana, levantei de madrugada e com uma vela acesa esperei paciente o enxerido vir atacar. Depois de quatro dias de silêncio, cochilava sentada no chão com a cabeça apoiada na parede quando a porta se abriu furiosa e um vento frio apagou a pequena chama. Corri para o interruptor da lâmpada, mas já era tarde. Apenas um redemoinho se afastava deixando o chão cheio de cinzas. Assustada, chamei a minha avó que inocentemente dormia sem se dar conta que o safado mais uma vez tinha entrado na casa.  Ainda sonolenta, resmungou:

-É assim mesmo. Agora ele vai gorar os ovos no galinheiro e judiar do cavalo.

– Judiar do cavalo?

– Ele galopa a madrugada toda com o bicho sem dar paz ao coitado. O melhor mesmo é você esquecer esse moleque e ir dormir. Vai, que o perneta não cansa de amolar.

Como dormir?! A adrenalina tomava conta do meu corpo. Tentei ver pela janela o pobre animal que à noite ficava preso no galpão. Não despreguei os olhos do local até os primeiros sinais de dia aparecerem. Disparei, então, para fora e, ainda com o coração em sobressalto, vi o cavalo todo molhado de suor e com a crina emaranhada.

Fiquei ali parada não sei bem por quanto tempo. Estarrecida, voltei para casa. Minha cor pálida, como a de quem viu fantasma, chamou a atenção da minha avó que passava no coador de pano o café torrado por ela. Vendo-me apavorada com o que não me era natural, ternamente deixou os afazeres de lado e me chamou para o seu colo. Um beijo demorado no meu rosto fez com que todo o medo sumisse. E embolada nos seus braços percebi que não tinha o que temer. Afinal, aquele era o seu mundo e nele ela reinava como rainha. Soberana, não deixaria nada de mal nos acontecer.   

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

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