Pra ser vira-lata tem que ter raça

Nelson Rodrigues, falando da baixa autoestima dos brasileiros, criou um termo que logo ficou popular: “o complexo de vira-latas”, definido muito bem pelo coitadismo e o mimimi tão comum na nossa sociedade.

Veja como o Michaelis define o vira-lata: vi.ra-la.ta / sm (virar+lata) Cão ordinário, sem dono, solto nas ruas, que se alimenta dos restos de comida que encontra nas latas de lixo. Pl: vira-latas.

Também chamados de SRD (sem raça definida), os vira-latas têm um monte de coisas negativas. Vou citar três delas:

Eles não têm padrão definido. Nem o tamanho, nem a cor, nem o focinho. Você vê um filhote bonitinho, mas depois que cresce ele fica todo diferente. É tanta raça misturada que eles podem herdar o pior de cada uma delas.

Eles não têm preço definido. Vira-latas são de graça e, como o que vem fácil vai fácil, muita gente descarta os coitadinhos depois que eles crescem. Por isso, tem tanto cachorro abandonado na rua. Você não vê nenhum Mastim Tibetano (a raça mais cara do mundo) rasgando sacos de lixo por aí, vê?

Eles não têm dono definido. Como dito, muitos deles vivem na rua, à disposição de quem queira adotá-los. Ou, então, se aconchegam ao lado de um mendigo qualquer, debaixo de uma ponte qualquer.

Se você é do tipo que vende o almoço para comprar a janta, que não tem QI (Quem Indique), que precisa aprender sobre o seu negócio na marra; se a sua verdadeira formação acadêmica acontece fora da faculdade e as suas provas são o dia a dia do seu empreendimento, seja bem-vindo ao clube: você é um “vira-lata” que nem eu.

Mas preste atenção: ser vira-lata também tem um monte de vantagens. Aqui vão três delas:

Eles não têm padrão definido. Vira-latas são livres, vão aonde querem. Costumam ter mais habilidade do que os de pedigree. Eles têm tanta raça misturada que normalmente herdam o melhor de cada uma delas.

Eles não têm preço definido. O Mastim Tibetano vive preso às regras do seu dono, que quer fazer valer os milhões gastos, e isso pode fazer dele um cão mimado e cheio de vaidades. Já os vira-latas não têm frescura: não exigem tratamento cinco estrelas nem ração específica. Na verdade, eles costumam comer o que os seus donos comem – filé quando tem filé, osso quando tem osso.

Eles não têm dono definido. Quem descarta um SRD faz um péssimo negócio. O perrengue que um vira-lata passa faz dele um guerreiro, mais resistente do que os cães de raça. E no dia em que ele encontra um dono digno, ele fica e se torna um aliado, fiel na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, defendendo-o como se fosse sua própria cria, fazendo jus ao título de melhor amigo do homem, sendo capaz até de enfrentar outros cães maiores. Um verdadeiro herói.

Para terminar, um toque para os vira-latas de plantão:

Não perca tempo com o “complexo de vira-latas”. Afinal, vira-latas não têm nada de complexo. É a simplicidade da sobrevivência: quando encontra uma porta aberta, ele aproveita a oportunidade, não fica lamentando por não ter sido convidado. Ele simplesmente entra. Corre o risco. Se for expulso a vassouradas, não fica de mimimi: parte para outra até encontrar um bom lugar para ficar.

Eu chamo isso de “a estratégia do vira-lata”, e a uso desde o início da minha carreira.

#ViraLataStyle

(Colaboração Sandro Serzedello)

Autor

Luis Fernando Câmara

É presidente da Vox2You – a Arte de falar bem, e empreendedor desde a adolescência.

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