Esperando o gerente

É tudo tão asséptico! Isso não pode ser um banco. As mesas separadas por biombos baixos lembram células de um sistema perfeito e, não sei bem porque, cena de Admirável Mundo Novo. As gerentes bonitas, bem vestidas, educadas, sorridentes, pés apertados nos sapatos de salto alto, gentis diante do desespero do pobre coitado à sua frente, mergulhado nos juros exorbitantes.

A decoração é clean, sem exageros, quase minimalista, parece até que o Feng Shui passou por aqui.

Espero. Enquanto isso, ouço algumas conversas, não dá para evitar. Alguém deverá ouvir a minha, quando chegar minha vez. Os gerentes oferecem tudo: seguros residenciais, consórcios, títulos de capitalização… caninos afiados, cotas a cumprir.

Juntando todos eles, e mais a entidade que comanda todo o esquema, visualizo uma boca gigantesca mordendo, mordendo com os dentes sujos de sangue, insaciáveis. Mas, o ar condicionado na medida certa ameniza tudo. Sentada aqui, tenho a sensação de que esse ambiente acolhedor vai me proteger de todos os males, que, ao ser atendida, todos os problemas serão resolvidos. Já me sinto quase rica. Penso até em comprar um kit completo de maquiagem Lâncome ou, quem sabe, Shiseido; trocar o guarda roupa, lingerie nova, sapatos da moda e adquirir aquela pulseira de prata indiana que vi numa vitrine.

Mas, pelo semblante do homem que se despede do gerente, a faca, de tão bem amolada entrou quase sem dor. Sabe que a ferida foi profunda e sai cambaleante com a mão no peito para estancar o sangue. Ninguém socorre.

A mulher quase perua, segura de si (aparentemente) entra na “baia” e senta-se diante do inquisidor. Pelo seu ar decisivo, não me parece que esteja tratando de dívidas e propondo acordos (nunca favoráveis para o monstro). De onde estou vejo agora apenas a ponta aguda de um de seus sapatos salto agulha. Demora, falam baixo, demora e quando ela sai parece que seu corpo perdeu a firmeza. Vejo uma lágrima escapando de seus óculos escuros. Ihh, parece que não tem perdão.

Será que desisto? Espero mais um pouco. Pelos vidros bem lavados, vejo a vida lá fora caminhando a passos lentos, outros apressados, velhos de bengalas, carros ultrapassando ônibus, mulheres puxando crianças pela mão…

De repente, um homem jovem entra agitado. Está nervoso. Transpira. Segura um envelope grande. Haveria uma arma lá dentro? Mas o detector de metais não barrou… Seria assaltante? Se for, o que podemos fazer? Nada. Ver no que dá. Já estamos sendo assaltados mesmo! Que diferença faz?

Matilde Leone

Matilde Leone é jornalista e escritora, autora de A Caixinha do Nada, seleção de contos e crônicas; Sombras da Repressão - O Outono de Maurina Borges, pela Editora Vozes; participação em Os Desbravadores (personalidades que fizeram a história do interior paulista) - biografia de Flávio Uchoa pela Editora Palavra Mágica; Erótica - Coletânea de Contos escritos por mulheres, da Editora Brasiliense, 20 Ficções de Amor, da Editora Coruja; Theatro Pedro II, da VIDE Editoral. Trabalha como revisora e editora de textos, além de criação de projetos editoriais para jornais e revistas.

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