Match Point

Um vigia com mania de perseguição. Uma creche chamada Gente Inocente, com crianças de 4 a 6 anos de idade. Uma professora disposta a proteger as crianças. Mães, pais e avós despreocupados porque a escola nos parece o lugar mais seguro quando a criança está fora de casa. É lá que ela vai aprender, brincar, se socializar e passar momentos felizes.

Não foi o que aconteceu em 5 de outubro. Nesse dia, Damião, o vigia, que estava em tratamento havia três anos, surtou. Levou um galão de álcool disposto a incendiar a escola e a si mesmo.  As crianças brincavam, os pais trabalhavam, a professora ensinava a fazer cartazes e lembranças para o dia das crianças. A segurança seria ele, mas veio à tona o pior de sua doença, o match point. A bolinha quicou e caiu do lado errado do cérebro. E o rastilho de pólvora ficou sem controle. Helley, a professora, tentou impedir Damião. Lutou com ele e seu corpo virou chamas. Dez mortos, oito crianças, Helley e Damião, que partiu para o Hades, o limbo, o sheol, levando seu próprio sofrimento. Mais de trinta crianças feridas. Famílias em choque, inclusive a de Helley que havia perdido um filho com quatro anos de idade, e deixou dois outros filhos e o marido. Damião vivia só, diz a notícia. Mas deve ter deixado alguém também com dor no coração.

Uma boa perícia e um laudo médico de verdade poderiam impedi-lo de se aproximar de um lugar como aquele, mas como acontece no país, who cares? O sistema de avaliação de trabalhadores afastados por motivo de saúde, quase sempre os avalia como aptos a trabalhar doentes, mesmo em casos de insanidade. É o Brasil. Assim como o sistema penitenciário capacita homens espancadores e estupradores a voltar a conviver com suas próximas vítimas. Crimes previstos, mas não evitados. Bombas ambulantes espalhadas na multidão. Ah, na creche Gente Inocente, lá em Janaúba, não havia extintor de incêndio, nem alvará do Corpo de Bombeiros. Pra quê, né?

A cada dia, o medo vai invadindo nossos espaços e nos faz reféns daquilo que poderá acontecer. Onde mora o Estado que nunca se responsabiliza e nada vê? Como pode preencher o vazio na alma desses pais e mães, a quem nenhuma resposta pode consolar. Foi uma tragédia, é sempre a resposta. Assim como foi uma tragédia o suicídio do reitor da Universidade de Santa Catarina?

Sim, mas uma tragédia anunciada. Todos nós sabemos o que pode acontecer quando convivemos com esquizofrênicos, psicopatas e criminosos. A lâmina está sempre afiada e não podemos prever o momento em que ela descerá sobre nós ou sobre eles mesmos. Resta rezar? Rezar para quem? Para os mortos e feridos, para os degradados filhos de Eva, pela pátria amada, mãe gentil que faz o filho sofrer? Não resta nada. Só a dor.

Matilde Leone

Matilde Leone é jornalista e escritora, autora de A Caixinha do Nada, seleção de contos e crônicas; Sombras da Repressão - O Outono de Maurina Borges, pela Editora Vozes; participação em Os Desbravadores (personalidades que fizeram a história do interior paulista) - biografia de Flávio Uchoa pela Editora Palavra Mágica; Erótica - Coletânea de Contos escritos por mulheres, da Editora Brasiliense, 20 Ficções de Amor, da Editora Coruja; Theatro Pedro II, da VIDE Editoral. Trabalha como revisora e editora de textos, além de criação de projetos editoriais para jornais e revistas.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: