A onça pintada – Parte II

– Não tenha medo, sou domesticada, disse a onça, perfeitamente equilibrada sobre as duas patas traseiras, sorrindo com os enormes dentes, uma bocarra pronta para perfurar qualquer carne com os caninos afiados.

Uma panela fervia, o liquido transbordava escorrendo até o piso e tocava suas patas, mas ela não se importava, não sentia. Então, ela riu e estendeu a pata suspensa ate quase tocar meu rosto.

Acordei suando, o relógio gritando, mas fiquei na cama tentando entender alguma coisa que fizesse sentido. Lembrei de Angelina, ela sim, era real. E, apesar do susto, acabei rindo ao lembrar que ela roubara o anel de uma defunta. Que bobagem! O cérebro, esse estranho, está sempre brincando.

No dia seguinte, como costumava fazer aos sábados, ela me ligou convidando para almoçar e talvez ver um filme. Sábado era o único dia que nós duas tínhamos livre para conversar, atualizar os assuntos.

Estava distraída durante o almoço, e Angelina tentava saber o porquê. Ela também me pareceu diferente, os olhos mais sombrios, como se houvesse outra pessoa dentro dela. Quando comecei a contar o sonho-pesadelo, ela levantou o copo de água e eu emudeci.

– Você estava num elevador que não descia nem subia…e depois? perguntou.

Seus olhos seguiram meu olhar estarrecido para sua mão. O anel. Ela usava um anel exatamente igual ao do meu sonho, aquele que ela roubara de uma defunta.

– Lindo, não é?

– Lindo, respondi.

– O que foi? parece ter visto um fantasma e não um anel.

– É novo?

– É uma joia antiga, de família. Ganhei faz pouco tempo de uma tia, a Anete, lembra dela? Aquela que veio com minha mãe para minha festa de formatura.

– Ela não morreu?

– Não!! Quem morreu foi tia Blanche, irmã de meu pai.

– Assim, tão valioso…

– É.

– Quer ver como fica em você?

Passou-me o anel… e tive certeza, a mesma esmeralda cercada de pedrinhas. Devolvi sem coragem de colocar no dedo, pois me veio à mente a imagem de uma defunta sendo roubada.

– Então, continue a me contar o sonho que te transtornou tanto.

– Exagero meu, vivo tendo pesadelos… não consegui descer e logo acordei assustada.

Não conseguia tirar os olhos do anel e Angelina me pareceu incomodada. Um muro se erguera entre nós, como se as duas tivessem pressa de ir embora e fiquei pensando quem seria mesmo Angelina, que outras pessoas habitariam seu corpo. E eu mesma?  Estava angustiada, chegando às raias da paranoia. Logo Angelina sugeriu pedir a conta e nos despedimos. Fiquei alguns instantes parada na porta do restaurante, e vi quando ela entrou no carro, e para minha surpresa havia uma pessoa esperando por ela dentro do veículo, o que para mim, justificou sua pressa. Eu não o conhecia, mas pelos instantes em que vi seu perfil quando se virou para ela, me pareceu um pouco familiar, embora estranho, muito estranho.

Meia hora depois, já estava pronta para tirar ou tentar tirar uma soneca, quando Angelina me ligou. Sua voz soou abafada, como se tivesse um objeto na garganta ou com a boca cheia, comendo. Parecia estar sendo estrangulada, e o que me pediu foi estranho. Perguntou se eu poderia guardar comigo por alguns dias uma caixa pequena. Ela chegou com a caixa, disse estar com pressa, agradeceu e pediu que guardasse por alguns dias, pois iria viajar.

– Para onde, assim de repente?

Matilde Leone

Matilde Leone é jornalista e escritora, autora de A Caixinha do Nada, seleção de contos e crônicas; Sombras da Repressão - O Outono de Maurina Borges, pela Editora Vozes; participação em Os Desbravadores (personalidades que fizeram a história do interior paulista) - biografia de Flávio Uchoa pela Editora Palavra Mágica; Erótica - Coletânea de Contos escritos por mulheres, da Editora Brasiliense, 20 Ficções de Amor, da Editora Coruja; Theatro Pedro II, da VIDE Editoral. Trabalha como revisora e editora de textos, além de criação de projetos editoriais para jornais e revistas.

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