Hermeto Pascoal e a música universal do sertão

No último dia 28 de junho o majestoso Theatro Pedro II de Ribeirão Preto foi presenteado com um concerto de Hermeto Pascoal e Grupo. Aos 81 anos (67 anos de carreira), o velho mago dos sons apresentou-se com a vitalidade, criatividade, talento, generosidade e simpatia de sempre.

Hermeto Pascoal é sem dúvida um desses intrigantes e maravilhosos fenômenos da natureza. Nascido no sertão de Alagoas na pequena cidade Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, Hermeto, por ser albino e não poder tomar sol, se livrou de ter que trabalhar na roça como os garotos pobres daquele lugar. Ia para roça num carro de boi com seu pai, mas ficava debaixo das sombras das árvores protegendo sua pele branquinha e ouvindo o canto dos pássaros e os sons da natureza.

Álbum Lagoa da Canoa Município de Arapiraca (1983):

Criava seus instrumentos a partir de canos de mamona que se transformavam em pífanos, dos materiais de um tio ferreiro que viravam instrumentos de percussão e dos seus cantos usando as águas da lagoa (Hermeto usava a voz para “tocar” a água). Aos oito anos experimentou o acordeon e não parou mais, tocando em forrós e festas de casamento com seu irmão mais velho, se revezando com ele no acordeon e pandeiro. Nunca foi à uma escola de música, sempre foi autodidata.

Muito mais do que o mago maluco dos sons, que toca chaleira, que usava porcos para fazer sons no palco, e que tem a filosofia “tudo é música” como seu fundamento, Hermeto Pascoal é um compositor genial, arranjador criativo e multi-instrumentista virtuoso, reconhecido mundialmente por seu talento e genialidade, um artista que levou a música brasileira para o mundo, que rompeu barreiras e fronteiras e criou uma música universal, mantendo sempre presentes e como um padrão na sua obra a forte influência  da música e da cultura nordestina da sua origem.

No concerto do dia 28 em Ribeirão, que fez parte da turnê promovida pelo SESC em comemoração aos seus 80 anos (81 na data do show), como se fosse um menino, o velho Hermeto, pulou, cantou, dançou, tocou teclado, flauta – baixo, chaleira, berrante e fez o Theatro Pedro II cantar junto em vários momentos, acompanhado de uma banda de músicos incríveis formada pelo veterano e antigo parceiro Itiberê Zuarg no baixo (44 anos tocando com Hermeto), Jota P no saxofone e flauta (o mais novo membro da banda),  seu filho e parceiro de longa data nos palcos, Fábio Pascoal na percussão (29 anos tocando com Hermeto),  André Marques (filho do guitarrista Natan Marques que entre outros nomes, acompanhou Elis Regina) no piano, e do jovem  Ajurinã Zuarg na bateria.

Como se diz no meio musical, eles “quebraram tudo”! Foi um show cheio de energia, com composições inventivas, baiões, maracatus, frevos e outras tantas brasilidades numa sofisticada, complexa, mas também às vezes, bem simples linguagem musical, com lindos e inspirados solos de todos os membros da banda e com uma forte empatia e participação do público. Foi lindo! Como bem disse um amigo: “o mundo não seria o mesmo sem Hermeto Pascoal”. Concordo!

Álbum Festa dos Deuses (1992):

Em tempos tão sombrios com a mídia dando tão pouco espaço para variações de gêneros e tendências musicais, ver o Theatro Pedro II lotado com um público tão atento e interativo, inclusive com a presença de muitos jovens, numa noite de quarta-feira, para um concerto de música instrumental, é uma luz de esperança sobre o ser humano e uma prova do poder  da arte e da criatividade humana em  buscar novas perspectivas, novas sensações e por que não dizer, buscar o desconhecido.

Sesc Santana (18/12/2016) – Show Completo:

Luciano Duarte

Luciano Duarte é músico, graduado em Música Popular pela Unicamp. Morou e atuou na Europa por três anos. É professor de música e atualmente trabalha como guitarrista de orquestras em navios de cruzeiros tocando com músicos do mundo todo, tendo passado por quase 30 países até o momento.

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