Desbloqueio de trauma em sessão de hipnose na novela das 9

Venho ouvindo bastante coisas sobre a novela das 21h da Rede Globo, “O Outro Lado do Paraíso”, particularmente não assisto novelas, e nem ao menos conheço muito sobre a trama, porém nesta última semana, devido a burburinhos na internet e conversas, busquei mais informações sobre o que estaria acontecendo e porquê de tantos falatórios a respeito da trama global.

Na trama, Laura (Bella Piero) foi vítima do padrasto, Vinícius (Flávio Tolezani) na infância. O trauma a deixou com aversão ao ato sexual e vários outros prejuízos a vida da personagem, envolvendo terror ao ser abraçada e tocada, dores e pavor no ato sexual, levando até ao pedido de separação recém-casada.

Após vários problemas e tentativas, uma personagem sugere, adequadamente, que Laura procure ajuda psicológica para descobrir a causa do problema, e eis que surge Adriana (Júlia Dalavia), “advogada coach”, responsável por ajudar a moça através de uma intervenção de “desbloqueio de seu trauma” .

Em uma sessão de hipnose, Laura faz uma regressão para conhecer a origem do trauma e descobrirá que foi abusada sexualmente na infância pelo padrasto quando tinha apenas seis anos. O trauma havia sido bloqueado de sua mente ao longo dos anos. Dando conta do ocorrido, realiza denuncia e o acusado é preso, e após sua morte é induzida a perdoa-lo através de nova sessão de hipnose.

Além de tudo, o que mais me causou incomodo foi o fato de a Rede Globo “defendendo-se” que tudo são obras de ficção, que não tem compromisso algum com a realidade, buscando mostrar o processo pelo qual passa uma pessoa que precisa de ajuda, recorrendo a diferentes e variadas formas de apoio e terapias, das mais às menos ortodoxas. Ainda colocam que, ao meu ver buscando minimizar o erro já cometido, divulgar o “Ligue 100”, número de denúncias de violação de direitos humanos, no final de alguns capítulos.

Novelas, séries e programas televisivos alcançam grande quantidade de pessoas, de todos os níveis sociais e conhecimentos, e disseminam informações que muitas vezes, a grande maioria, entende como sendo uma verdade absoluta. Seja por falta de informação, por preguiça de pesquisar, ou por realmente acreditarem no que lhes é mostrado.

Em saúde mental, novelas já ajudaram muito na informação, conhecimento e formas como um transtorno pode ser, e que a pessoa não é o diagnóstico, e sim que ela o possui. Muitas vezes o olhar da sociedade já foi aberto pelo posicionamento adequado das tramas, levando informação adequada, conhecimento e o outro lado, mostrando que a questão não é explorar o tema, mas sim, demonstrá-lo de forma irresponsável.

Abordando um tema tão frágil e delicado como a pedofilia, colocam um profissional não capacitado (vide artigo anterior – Psicologia x Coaching) para “resolver” um problema como se a um passo de mágica, induzindo ainda a personagem a não elaborar o acontecido e apenas perdoar, algo que ela ainda não conseguiu ao menos se dar conta que realmente aconteceu e que terá que lidar com isto.

Nós psicólogos estudamos cincos anos, realizamos vários cursos, especializações, congressos e tantas outros conhecimentos, além de manter literatura atualizada dos mais diversos temas, para podermos tratar de questões como estas, com exercício técnico e ético. Com a psicoterapia é que tratamos casos de abusos, porém não inventamos ainda algo milagroso ou que apague lembranças e memórias dolorosas.

É compreensivo, e real, que vítimas de quaisquer abusos, queiram e busquem saídas rápidas para seus sofrimentos, resoluções imediatas, mas infelizmente não é assim que as coisas são. Para que haja elaboração, e desta forma um “seguir em frente”, é necessário um trabalho que demanda tempo, disponibilidade, compreensão e humanização.

Vítimas de qualquer tipo de abuso vão permanecer toda a vida com o que aconteceu, as marcas emocionais e psicológicas nunca são apagadas. Infelizmente não há milagre que as faça sair, ou remédio que as cure, não podemos prometer o que não sabemos se será possível realizar, e tratando-se de marcas tão intensas e profundas, é necessário ainda mais comprometimento e minuciosidade no trabalho.

A psicoterapia é a forma de buscar a superação, ou até mesmo a ressignificação, dessas marcas que deixaram feridas, tornando mais amenas as lembranças dessas dores, e o aprendizado de conviver com elas. Tudo demanda tempo e cuidado, vivências emocionais dolorosas são persistentes, e por isso traumatizantes. Dói sim, dói muito mexer em alguns lugares, mas com o manejo adequado, com domínio teórico e técnico, empenho, tempo e dedicação é possível sim seguir em frente, traçando novas possibilidades e vivendo.

Se você está sofrendo, ou conhece alguém que sofre com casos de abusos, de quaisquer tipos, não fique calado, fale! Procure um psicólogo para lhe ajudar, ela sim é apto para orienta-lo e juntos buscaram formas de enfrentamento do abuso sofrido, visando qualidade de vida.

O serviço do Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes é coordenado e executado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Por meio do 100, o usuário pode denunciar violências contra crianças e adolescentes, colher informações acerca do paradeiro de crianças e adolescentes desaparecidos, tráfico de pessoas – independentemente da idade da vítima – e obter informações sobre os Conselhos Tutelares. O serviço funciona diariamente de 8h às 22h, inclusive nos finais de semana e feriados. As denúncias recebidas são analisadas e encaminhadas aos órgãos de defesa e responsabilização, conforme a competência, num prazo de 24h. A identidade do denunciante é mantida em absoluto sigilo.”

 

Autor

Yasmin Paciulo Capato

Yasmin Paciulo Capato é Psicóloga (CRP: 06 / 136448) clínica e atende as especialidade de Psicoterapia, Orientação Vocacional e Psicodiagnóstico na Clínica Vitalli.

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