Disforia de gênero

Você já teve aquela sensação de estar vivendo uma mentira? Como se nada na sua vida realmente fizesse sentido, te desse prazer ou satisfação? Esta é, basicamente, a realidade de uma pessoa que não se reconhece no seu corpo biológico.

Todos sabemos qual é o sexo biológico, somos mulheres ou homens, levando em consideração o tipo físico e genitais, e a partir daí, busca-se a identidade de gêneros (vide artigo anterior). Quando não há a identificação com o sexo biológico, não se tem prazer e ser fisicamente como é, dizemos que esta pessoa é um transexual, ou seja, aquelas cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo de nascença.

Imagine que você se sente preso ao seu trabalho, a sua família, ou até em um relacionamento e está descontente com isto, é mais ou menos a mesma coisa com os transexual. Tudo em sua vida parece uma mentira, e é como se ele estivessem presos em um corpo e papeis que não reconhecem como deles.

Relembrando:  a mulher transexual nasceu com o sexo masculino, mas identifica-se com gênero feminino e homem transexual nasceu com o sexo feminino, mas identifica-se do gênero masculino.

É preciso respeitar a autodeterminação de cada pessoa, não se pode dizer se é ou não apenas pela presença da genitália, cada um é único e singular, e se tratando de questões de gênero, porque isto seria diferente? Se você tem um pênis, mas se identifica com o corpo e o papel social “da mulher”, você é transexual, se você olha pro seu corpo e seu papel social e se idêntica com ele, você é cisgênero, e ponto final, mas não é simples assim, não é? Pelo menos não para os trans.

O sofrimento causado pela discrepância da imagem corporal e de papéis sociais e a identidade de gênero é designado por disforia de gênero, podendo causar sofrimento exacerbado marcado pela dificuldade de funcionamento familiar, social, ocupacional e sexual, refletindo em problemas de autoestima, autoimagem, aceitação própria, ansiedade e depressão.

Ao perceber o sofrimento e buscar ajuda, os transexuais podem recorrer a várias intervenções clínicas, buscando resolver o mal-estar causado pela discrepância do sexo biológico x identidade de gênero. Cada ação e cuidado é pensando individualmente/singularmente para cada sujeito, podendo ou não incluir expressões de gênero e mudanças corporais envolvendo cuidados clínicos: tratamentos médicos e intervenções psicoterapêuticas.

O profissional da saúde mental é a chave do processo de mudança. Psicólogos, psiquiatras e sexólogos trabalham juntos procurando ajudar as pessoas a encontrarem estratégias para alcançarem o bem estar relacionado a identidade de gênero. Busca-se ganho na qualidade de vida e desenvolvimento pessoal, com alternativas de enfrentamento no contexto de uma sociedade discriminatória.

Para os tratamentos médicos, uso de terapias hormonais e processos cirúrgico, é necessário a aprovação do profissional de saúde mental, ao qual indica se a pessoa é elegível para o início do processo de transformação, buscando assegurar um tratamento mais adequado as diversas situações e buscando reduzir o sofrimento causado pela disforia de gênero.

O processo de mudança de sexo, ao ser iniciado pode demorar cerca de 2 a 4 anos para estar completo (quando pensa-se em SUS, esse tempo chega a quadriplicar), podendo envolver ou não a transgenitalização (a mudança do órgão sexual em si). Neste tempo envolvem consultas frequente de acompanhamento psicológico, assim como o acompanhamento médico hormonal e realização de cirurgias tais como mastectomias, monoplastias ou histerectomias.

Ao realizar a cirurgia de redesignação sexual, conta-se com uma equipe multidisciplinar com 11 profissionais de diferentes áreas (psicologia, sexologia, endocrinologia, ginecologia, cirurgia plástica, cirurgia reconstrutiva e urologia), sendo psicólogos e sexólogos fundamentais no processo de avaliações e mudanças que indicaram os tratamentos a serem realizados e em qual momento, bem como responsáveis em gerar estabilidade emocional necessário durante todo o processos e formas de enfrentamentos para as mais diversas questões que possam ocorrer.

Somente em 2008 o Governo oficializou as cirurgias de redesignação sexual, implantando o chamado ‘Processo Transexualizador’ por meio do Sistema Único de Saúde. Atualmente, cinco hospitais estão habilitados: O Hospital das Clinicas da Universidade Federal de Goiás; Hospital de Clínicas de Porto Alegre; Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Fundação Faculdade de Medicina da USP; e Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o que justifica o tempo elevadíssimo quando pensamos em transgenitalização.

É importante salientar que o processo cirúrgico envolve uma modificação corporal completa e que não pode ser revertida, desta forma se você gostar ou não de como ficou seu corpo, não dá pra ser defeito, por isso a importância de um acompanhamento sério e comprometido.

A percepção de diferença do sexo biológico para a identidade de gênero começa a ser notada da infância para a adolescência, levando muitos trans a deixaram de estudar pelo preconceito sofrido nas escolas, elevando situações de risco.

Além de todo este percurso para a mudança corporal e social, há outro, o de mudança de nome. Se você não reconhece o sexo biológico que nasceu, você não se reconhece em seu nome de nascença, certo? Desta forma quando você assume-se trans, você quer ser tratado como sua identidade de gênero, é só escolher um nome e certo (nome social), não? Mas nada é simples, lembra?

No Brasil, para conseguir mudar o nome e o sexo no RG é preciso  entrar com uma ação judicial e apresentar um laudo de um psicólogo e outro de um psiquiatra que atestem que a pessoa “sofre de transexualismo” e vive a identidade de gênero que diverge de seu sexo biológico há anos, além disso é preciso de cartas de amigos confirmando que eles conhecem a pessoa com seu nome social (o nome que o transexual usa) e fotos do requerente, comprovando sua aparência física e este processo todo pode demorar até um ano.

Idas ao médico, procura por trabalho ou a própria aceitação no mesmo, contas em banco e até mesmo uma ida a balada, tornam-se um transtorno. Você não é o João do RG, e sim a Maria, pois sente-se como ela, mas não importa a forma com que você se enxerga ou se sente, se está lá que você é o João, te trataremos como “ele”.

Mesmo que a transsexualidade não se relacione com a orientação sexual, muitas pessoas confundem, causando ainda mais preconceitos e levando o Brasil ao pais que mais mata trans no mundo, sendo que no continente representa 51% dos números de assassinatos.

Lutamos para a retirada do transexualíssimo no CID, considerando que assim como a homossexualidade, isto não é uma doença. Você não está gay, você é gay, você não fica trans, você nasce transexual diante a diferença de gênero com seu sexo biológico. Bem como lutamos também para a conscientização e minimização do preconceito. Você não precisa apoiar se não conseguir, mas você deve o mínimo de respeito para com o outro, aceitando ou não o que o outro é.

Yasmin Paciulo Capato

Yasmin Paciulo Capato é Psicóloga (CRP: 06 / 136448) clínica e atende as especialidade de Psicoterapia, Orientação Vocacional e Psicodiagnóstico na Clínica Vitalli.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: