Diversidade sexual e de gênero

Há um mês, a exposição Cultural do Santander, o Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira causou muita polêmica sobre o que colocaram como “fazendo apologia à pedofilia e à zoofilia, além de desrespeitar símbolos de culto religioso”. Antes de refletir sobre o tema, vamos entender o intuito da exposição.

A mostra de artes reunia 270 trabalhos de 85 artistas que abordavam a temática LGBT, questões de gênero e de diversidade sexual com obras de período histórico de meados do século XX até os dias de hoje, ou seja, as obras visavam abordar a “diversidade de expressão de gênero” e questionar “o caráter patriarcal e heteronormativo das coleções de arte”. Além disso o material de divulgação da mostra incluía 2 mil catálogos de 400 páginas com reproduções das obras e explicações sobre elas.

Antes de sua abertura, o curador do Queermuseu, Gaudêncio Fidelis, disse o seguinte em relação a exposição:

“O Queermuseu é o museu ficcional e metafórico no qual a expressão de gênero e a diferença são exercidas em sua plena liberdade. Nele, os parâmetros restritivos do cânone artístico não são mais dominantes, e o aparato museológico mostra-se desestabilizado. Obras convivem fora de uma hierarquia estrita, e a cronologia foi abolida para propiciar saltos conceituais no tempo, possibilitando que obras do passado convivam com as do presente …  abre espaço para vislumbrar um horizonte de formas que podem ser pensadas como existindo fora da norma, tangenciando o corpo e o olho, ressaltando seu caráter selvagem, canibal, em uma experiência na qual a inclusão é exercida para além dos parâmetros restritivos que estabelecem o cânone artístico.”

Desta forma a amostra tinha o intuito de trazer a reflexão sobre os desafios que devemos enfrentar em relação a questões de gênero, diversidade, violência entre outros assuntos tabus. O que automaticamente traria desconforto sobre questões mal resolvida por algumas pessoas a respeito do que estava sendo retratado nas obras sendo, mais um vez coloco aqui, o intuito era trazer a reflexão e discussão sobre questões de gênero, diversidade, violência e outros tabus.

As obras deveriam ter sido lidas/interpretadas em seus devidos contextos, épocas e intuito do artista. Não é fácil compreender uma obra de arte, é necessário um conhecimento amplo sobre a temática, uma compreensão sobre a época em que foi realizada considerando o artista, os acontecimentos e expressões da época bem como compreender seu nome e legenda sobre a obra em si. Você não precisa concordar com o que a obra expressa, seja qual tipo que for (livros, quadros, esculturas, entre outros), mas sim compreender sobre o que está representa e a reflexão que lhe traz.

Precisamos entender o que temática LGBT, questões de gênero e de diversidade sexual representam, para desta forma, possamos compreender um pouco sobre as obras e a exposição, além de buscar conhecermos a nós mesmos, afinal essa diversidade é de cada um e nos permeiam todos os dias.

Em primeiro lugar, há o sexo biológico, que refere-se ao órgão genital que se nasce e aos cromossomos e hormônios presentes no organismo, sendo predominantemente feminino, masculino ou intersexual, que é a combinação dos dois (hermafrodita).

Depois há a orientação sexual, quando começa-se a se descobrir sexualmente e há o desejo e atração por pessoas do sexo aposto ou do mesmo sexo. Tem-se os heterossexuais que sentem atração e mantem relacionamentos com pessoas do sexo oposto, os homossexuais que sentem atração e mantem relacionamentos com pessoas do mesmo sexo, os bissexual que sentem atração e mantem relacionamentos com pessoa do mesmo sexo ou do sexo oposto e os pansexuais que sentem atração e mantem relacionamentos com pessoas dos mais diferentes tipos de sexualidade. Dentro do grupo homossexual, no senso comum, difere-se lésbicas que são mulheres que sentem atração e mantem relacionamentos com outras mulheres e gays que são homens que sentem atração e mantem relacionamentos com outros homens.

Em seguida busca-se a identidade de gênero, que diz respeito de como a pessoa se sente, se vê e o que pensa sobre si mesmo e a forma como se apresenta ao social podendo ou não corresponder ao sexo biológico e não tem relação alguma com a orientação sexual escolhida:

Os cisgêneros são os que não tem conflito com a identidade de gênero e continuam seguindo a imagem biológica de si, os transexuais são pessoas que não reconhecem o corpo biológico que tem e buscam mudanças físicas, envolvendo ou não cirurgia para mudança de sexo: a mulher transexual nasceu com o sexo masculino, mas identifica-se com gênero feminino e homem transexual nasceu com o sexo feminino, mas identifica-se do gênero masculino. Já os travestis não identificam com seu sexo biológico e também não necessariamente se vê como outro gênero, tendo a identidade masculina e a feminina em um mesmo corpo.

E a expressão de gênero, que é o conjuntos de vestuários, acessórios, cuidados, modificações corporais, maquiagens e estilos que exterioriza, não precisando necessariamente relacionar-se a identidade de gênero, pode-se ter determinada identidade de gênero, mas expressar-se de outra forma.

Claro que na prática as coisas não ficam divididas desta forma, elas vão acontecendo de acordo com a vivencia e o descobrimento interno de cada ser humano. Você não se torna melhor ou pior pelo seu sexo biológico, sua orientação sexual não é a certa ou a errada, sua identidade de gênero tem que considerar apenas você e sua percepção sobre si, e sua expressão de gênero tem que estar relacionada a forma com que ser se mostrar para o mundo.

Um não leva ao outro, são questões diferentes que podem ou não ter concordância com o sexo, orientação, identidade e expressão. Tendo em vista que não é tão simples e limitante como muitos pensam, porque a exposição de arte seria?!

É compreensível o descontentamento de pessoas sobre a temática trazida pela exposição, também é compreensível discutir-se sobre o assunto (sendo o objetivo) e trabalhar questões e tabus que ainda, infelizmente, se fazem tão fortes e presentes, o que não é compreensível é a expressão artística ser censura, intolerada e negligenciada.

Houve sim um deslize por meio dos organizadores sobre a falta de medidas informativas ou de proteção à infância e à adolescência no que se refere a eventuais representações de nudez, violência ou sexo nas obras expostas e também medidas visando a garantia da segurança das obras e dos visitantes, mesmo tendo catálogos informativos sobre o conteúda da exposição e das obras, mas não ao ponto de ter que ser censurada e ter represarias tão fortes em todos meios de comunicação.

Todos temos o direito de gostar ou não se algo, de acreditar que algo é pra si ou não, bem como, diante o próprio conhecimento, se é apropriado a vida pessoal de cada um, lembre-se do artigo anterior sobre Sexo e Sexualidade, esses são os sentidos de cada um, o que nos torno únicos e singulares, porém uma vez que, ao invés de trazer discussões para o crescimento, se proíbe ou tira-se conclusões precipitadas sobre o que não se conhece como um todo, você tira a liberdade de expressão do outro.

É necessário parar de falar sobre pedofilia da forma com que estamos expondo nos últimos meses, é necessário parar de falar sobre cura para algo que não é doença, é necessário refletirmos que as escolhas sexuais dos outros dizem respeito apenas a eles e é necessário respeita-las. Você tem todo o direito de se posicionar, de se expressar e principalmente refletir, mas a sociedade tem que parar de impor a forma com que se deve ou não interpretar e agir sobre algo.

Reflita, quebre seus tabus internos, permita-se e ai poderá discutir e compreender da forma que lhe for possível sobre os mais diversos temas, sem prepotência ou arrogância, respeitando cada indivíduo e cada escolha.

Yasmin Paciulo Capato

Yasmin Paciulo Capato é Psicóloga (CRP: 06 / 136448) clínica e atende as especialidade de Psicoterapia, Orientação Vocacional e Psicodiagnóstico na Clínica Vitalli.

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