O padre do Patati Patatá

E hoje temos a décima sétima história da Coluna “Preces de Esperança”. Vale a pena conferir!

O ano era 2012. Padre Josirlei estava no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, junto da equipe de profissionais da saúde, no 7º andar, que, na época, era dedicado às crianças. Ali, eles partilhavam suas experiências, suas dificuldades, seus enfrentamentos diários e suas vivências positivas e negativas. Foi quando trouxeram a história de Isaac. Aos 6 anos, o garoto estava hospitalizado desde que nasceu. Os profissionais falavam sobre ele emocionados.

O Capelão ainda não o conhecia. Sabia, pelos relatos, que ele era muito alegre e comunicativo, e uma peculiaridade que lhe chamou à atenção, nesse primeiro momento, foi o fato de o pequeno paciente ter junto de si, no leito, um boneco. Era o Patatá, que faz dupla com o outro palhaço famoso, o Patati.

As enfermeiras contaram que, todas as vezes que iam até o menino para tirar sangue para a rotina de exames, ele oferecia o braço, não escondendo, na expressão facial, o desconforto que sentia. Todavia, sorrindo, pedia que tirassem sangue também de seu boneco Patatá. Empáticas, não o contrariavam, deixando-o contente.

Envolvido com a história, com o gesto e a inocência de Isaac, Padre Josirlei quis conhecê-lo. Dias depois, chegando no quarto 5, no 7º andar, encontrou o garoto, que estava em pé no berço. Seu físico evidenciava sua enfermidade, mas simpatia e alegria eram-lhe próprias.

Em poucos minutos, entrou a enfermeira para colher seu sangue. Isaac nem se incomodava mais. Brincou com ela, não hesitou. Prontamente se deitou, sem reclamar e estendeu o braço, fazendo carinha de dor. Assim que a profissional terminou, ele olhou para o próprio braço e, olhando pra ela, sorriu-lhe lindamente, deixando Padre Josirlei profundamente emocionado. Parecia um riso de gratidão.

– Agora é o Patatá! – orientou Isaac.

E ofereceu o braço do boneco.

O bracinho do Patatá já estava todo furado. Era uma forma de Issac partilhar um pouco da dor de cada picadinha em seu braço. Era como se aquilo mobilizasse nele uma força interna que contribuía para seu tratamento. Um conforto…

Refletindo sobre a cena, Padre Josirlei pensava naquela criança que, aos 6 anos, não tinha amigos, não socializava com as outras crianças, nunca havia brincado na rua, nunca tinha ido a um shopping ou a um aniversário. Isaac tinha como sua casa o hospital, sem nunca ter tido condições de ter uma vida normal. E seu estado de saúde era muito grave…

Saindo dali, enternecido, conversou com a equipe, junto com o setor de psicologia, e perguntou a eles:

– Qual a dimensão espiritual dessa criança?

Isaac quase não tinha referências do mundo exterior. Seria importante, então, saber o que faria e o que teria sentido para ele.

Foto: Arquivo Pessoal

E o padre continuou:

– Esse menino tem algo ao seu lado que lhe dá prazer, mas que ele nunca viu. E se ele visse? – indagou o Capelão.

E concluiu:

– E se Patati Patatá viesse pessoalmente ao hospital para conhecer Isaac? Seria possível? Como ele reagiria?

Todos concordaram que seria possível acontecer essa ação de humanização e que seria um grande presente para o menino.

Assim, Padre Josirlei não mensurou esforços para conseguir trazer os bonecos de verdade para que Isaac os conhecesse. Fez o contato e foi atendido pela assessoria responsável pelos bonecos artistas, que se colocou à disposição.

A visita foi, portanto, agendada, sem divulgação em imprensa, conforme solicitação da equipe da dupla, já que estariam atendendo a um pedido para um trabalho que já faziam de forma voluntária, puramente por amor.

E eles, Patati e Patatá, chegaram a Ribeirão Preto, no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Já caracterizados, apresentaram-se esbanjando simpatia, distribuindo sorrisos e maravilhando a todos, a começar pelo porteiro que, quando os viu, sorria despreocupadamente, deixando brilhar a criança que habitava dentro em si.

Cores e alegria percorreram e transformaram os corredores daquele hospital até a dupla chegar ao 7º andar. Equipes de enfermagem e médicos despojaram-se da expressão tensa e, impressionantemente, pulavam de felicidade ao verem os bonecos, entusiasmos e cantando suas músicas. Alguns deles buscaram, inclusive, seus filhos para participarem do momento com Patati Patatá.

Patati e Patatá atraíram a atenção de todos os que por eles passavam. Fotos, vídeos, risos e lágrimas de felicidade. Eles mexeram com o íntimo das pessoas que ali estavam, tocando seus corações da forma mais simples e mais doce. Nos quartos, as crianças queriam até pular da cama para tocá-los.

E finalmente entraram no quarto de Issac. Admirado, o menino os viu e sua primeira reação foi olhar para seu boneco “de mentira” e olhar para o boneco “de verdade”, como se os estivesse comparando. Issac ficou impressionado! Seduzido! Ele chorava e ria, ria e chorava, inquieto, erguia os braços… E, quando os bonecos se aproximaram dele, ele fitou seus brilhantes olhos neles e ficou deslumbrado, apaixonado, simplesmente amando a presença do Patati e do Patatá.

Emocionado, o padre pôde fazer até uma reflexão acerca da bonita cena: “é como se eu estivesse diante de Deus, olhando pra Ele, e fixasse os olhos, sem mudar o rumo da minha visão, de tão apaixonado que eu ficaria…”

Toda equipe ficou muito comovida. Ter recebido a atração no ambiente hospitalar emocionou a todos e causou-lhes uma satisfação muito grande, especialmente por terem proporcionado uma alegria tão grande na vida daquele garotinho.

Isaac ficou realmente muito feliz. Sua saturação inclusive apresentou melhora… Seu semblante denunciava sua satisfação. Sua aparência era de tranquilidade e felicidade.

Entretanto, exatamente 10 dias depois da alegria da visita da dupla Patati Patatá, já com a saúde física bastante debilitada, Isaac faleceu.

Ser sensível à necessidade individual de pacientes internados, mesmo diante da impossibilidade da cura, é ter um cuidado próprio de quem ama o próximo, é tornar seu tempo de vida mais feliz e significativo. Isso é a expressão do amor de Deus.

Foi o que o padre e a equipe de profissionais da saúde do HC fizeram: amaram incondicionalmente Isaac, tornando-lhe possível uma imensa alegria pelo pouco tempo de vida que ainda lhe restava…

E Padre Josirlei ficou conhecido por muito tempo como o padre do Patati Patatá. Experiência esta que, com certeza, o fortaleceu a seguir com a missão de ser a presença de Jesus Misericordioso junto dos irmãos que estão hospitalizados.

Capelão Pe. Josirlei e Lucimara Souza

Recortes da realidade que suscitam esperança, fé e amor. Experiências vividas pelo Capelão Pe. Josirlei, traduzidas por Lucimara Souza.

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