Vem brincar comigo!

E hoje temos a décima quarta história da Coluna “Preces de Esperança”. Vale a pena conferir!

Esta é a história do José. Ele tinha apenas 5 anos.

Era dia de semana quando o Padre Josirlei atendeu ao telefonema de uma enfermeira do HC Ribeirão, pedindo que ele fosse ao hospital.

Lá chegando, dirigiu-se à ala dedicada às crianças. Era ali, especificamente no 7° andar, que essas vidas ainda tão pequenas, e acometidas pelo câncer, recebiam o tratamento. E foi em um quarto de uma dessas crianças, bem no fim do corredor, que o padre passaria por uma experiência muito, muito significativa.

Ao adentrar o quarto, deparou-se com uma cena: um ambiente com pouca luz, um leito cercado por uma médica, um psicólogo, uma enfermeira e um casal. O paciente era um garoto chamado José, de apenas 5 anos. Devido ao estágio avançado da doença, seu semblante apresentava-se abatido, e sua barriga saliente.

Olhar para aquela criança em sua enfermidade, fez padre Josirlei refletir por uns instantes: cuidar de um paciente idoso em terminalidade é cuidar de alguém que viveu bastante e de forma intensa sua vida, e que, de certa maneira, já estaria preparado para o encontro definitivo com o Pai. Mas… E assistir a uma criança passando por esse sofrimento? Saber que não lhe resta muito tempo de vida é presenciar a inversão da ordem natural da vida. É impactante…

Esta seria a primeira experiência, de fato, do padre com uma criança.

Ele, então, aproximou-se e juntou-se à equipe que acompanhava José naquele momento.

 

Foi quando a médica disse:

– José, o tio padre está aqui!

O garoto sorria.

– Conta pra ele quem está aqui! – ela sugeriu.

– Tio, o anjo! – respondeu o menino.

O padre ficou emocionado e um tanto quanto constrangido, pois tinha dificuldade de acreditar em anjos, mesmo tendo sido ordenado padre.

– E onde o anjo está? – perguntou a José.

E seus olhinhos acompanhavam a presença do anjo, que parecia brincar naquele quarto. Por vezes, ele levava as pequenas mãos ao rosto, cobrindo os olhos e protegendo-os da forte luz que o anjo refletia quando se aproximava mais dele.

Os pais choravam muito, assim como os profissionais.

– O que o anjo quer de você, José? – indagou o padre.

– Tio, ele quer que eu brinque com ele!

– E por que você não brinca?

Foto: Divulgação

Olhando para os pais, ele respondeu:

– Porque se eu brincar com ele, meu papai e minha mamãe vão ficar muito tristes comigo.

A justificativa do menino deixou o religioso profundamente comovido, causou-lhe compaixão. E, embora fosse difícil de assimilar ou aceitar, ele compreendeu. Chamou, então, os pais e os outros profissionais e disse-lhes, enquanto a enfermeira brincava com o menino:

– Mamãe, papai, vocês entendem o que o anjo está fazendo aqui e o porquê José não vai brincar com ele?

Reflexivos e atentos, ouviam o padre, que continuou:

– É porque se ele for brincar com o anjo, ele estará se despedindo de vocês. Se ele for, ele não volta. Sei que não é simples pra vocês, como pais, neste momento, permitir ao José aquilo que é importante e melhor para ele, mas que será intensamente doloroso para vocês. Entretanto, quando se sentirem bem e com o coração tranquilo, será o momento em que terão que consentir José brincar com o anjo.

Embora, comumente, o padre seja uma pessoa preparada para dar conforto espiritual, diante do sofrimento de uma família que vive a enfermidade de um familiar, foi muito doloroso pra ele ter esse diálogo e acolhê-los na dor de se permitirem viver uma promessa não realizada, a de não presenciarem a vida do próprio futuro idealizado em um filho tão amado.

Junto dos profissionais da saúde que ali estavam, ainda permaneceu no quarto por um tempo. Ninguém queria sair de perto de José, e cada vez que ele sentia a presença do anjo, convidando-o para brincar, todos pareciam tocados por uma luz que também invadia cada coração. E, enquanto estavam abalados, chorosos, José questionava:

– Por que estão chorando?

Foto: Divulgação

E como explicar àquele garotinho o motivo daquelas lágrimas? A médica, o psicólogo, a enfermeira e o padre experimentavam uma angústia perante o sofrimento dos pais, de ter que aceitar que seu filho, marco vivo da passagem deles pela vida, partisse com o anjo para a vida eterna, para, fisicamente, longe deles para sempre.

Muito enternecida, a mãe de José, ao lado do pai, tomada por uma coragem e sabedoria próprias de mãe, aproximou-se do leito e, afetuosamente, disse:

– É isso que o anjo quer, meu filho? Ele quer brincar com você?

– Sim, mamãe, mas eu não vou. Não vou deixar vocês tristes. – consolou o garoto.

E vendo os pais chorarem, José pedia:

– Mamãe, não chora!

Aquelas lágrimas, aquele amor que escorria pelos olhos daquela família, mais uma vez os encorajou, e a mãe de José dirigiu-lhe estas palavras:

– A mamãe vai ficar muito feliz se você for brincar com o anjo!

Em seguida, o pai beijou José. Ele, inocente, já em paz, sorria e olhava em direção ao anjo. Seu semblante já estava sereno. Era como se aguardasse a hora de o anjo tomá-lo pela mão para brincarem juntos. É quando reclama um pouco de dor, e a enfermeira aplica-lhe morfina.

Três dias depois, um número muito significativo especialmente dentro da espiritualidade, por representar a unidade divina – Pai, Filho, Espírito Santo -, José partiu, definitivamente, para brincar com o anjo.

Padre Josirlei, que na época ainda não era Capelão, partilhou esta história a partir desta experiência reveladora e profundamente enraizada em Deus, em que a iminente presença da morte de uma criança foi capaz de fazê-lo acreditar e, nunca mais duvidar, da presença de anjos em nosso meio.

A concretude da fé do pequeno José manifestada através de seu acreditar e de seu sentir impressionou os adultos que ali estavam. Ele partiu para os braços de Deus eternizando muito de si naqueles que ficaram. Sua suposta ingenuidade e sua pureza de espírito e de coração encorajaram aquela mãe que, mesmo esmagada pela dor, permanecia de pé, como fez Nossa Senhora aos pés da cruz de Seu filho.

Capelão Pe. Josirlei e Lucimara Souza

Recortes da realidade que suscitam esperança, fé e amor. Experiências vividas pelo Capelão Pe. Josirlei, traduzidas por Lucimara Souza.

One thought on “Vem brincar comigo!

  • 23 de novembro de 2021 em 17:39
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    Me emocionei aqui, Lu… Eu acredito em anjos!!! Parabéns pelo trabalho do Pe. Josirlei e a você pela narrativa emocionante! Nota MIL!!!

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