Aqui é Brasil!

Tudo bem que cada um tem seu gosto musical. Mas vamos combinar? O gosto pra música vai de mal a pior nesse nosso país. A música brasileira hoje é pobre, simplória, repetitiva, sem pé nem cabeça.

Em dezembro, Annita explodiu com um ritmo chamado “Vai Malandra” – título que já incomoda porque “Malandra” é vocativo e deveria vir depois de uma vírgula. Até hoje esta é a única frase que entendo da “música”. O tal de “tutudum, tutudum” e “an, an” o tempo inteiro viralizou, pois a cantora, no clipe, exibe o corpo sem retoques de edição, ressaltando suas imperfeições. O hit, gravado na favela do Vidigal no Rio de Janeiro, agitou a internet, ficando em primeiro lugar nos trending topics mundiais do Twitter e quebrando o YouTube, com aproximadamente meio milhão de visualizações em menos de 20 minutos após o lançamento.

Os “críticos musicais” mais renomados [risos] classificaram a “canção” como um “grito de libertação da favela”, como o novo grito de “independência ou morte” e ainda como “a carta de alforria de um povo rejeitado e oprimido pela classe privilegiada e opressora”. Vocês não ficaram emocionados? [risos]. Quase chorei!

Bom… Vamos ver se 24 anos mais tarde (lá por 2042) a funkeira ainda estará sendo interpretada como a Cássia Eller é até hoje em sua poética de 1994: “Eu só peço a Deus / Um pouco de MALANDRAGEM / Pois sou criança e não conheço a verdade / Eu sou poeta e não aprendi a amar”.

Meus amigos, se a sofrência, o sertanejo universitário e a desafinação de Pabllo Vittar estavam ruins, Jojo Toddynho (a funkeira irreverente e plus size), com sua arte “Que tiro foi esse”, e MC Diguinho, com seu talento literário expresso em “Só surubinha de leve” (quanta sutileza!), vieram para corroborar que absolutamente tudo pode piorar em um país que aplaude esse tipo de “cultura”. A primeira lançou um ritmo que também ganhou as redes sociais. Vídeos de pessoas caindo ao som da música, no trecho em que se escuta o barulho de um tiro, foram compartilhados por seus fãs e por artistas.

Entretanto, ao ser questionada sobre a incitação da violência, a cantora se defendeu, já que “tiro” teria, na música, uma conotação positiva, de incentivo a algo que se admira, como uma roupa, uma maquiagem, enfim…  Uma gíria estranha dentro de uma letra que, como todas as outras, é vazia, repetitiva e acompanha a aquela batida de sempre.

Quanto ao MC Diguinho… Que preguiça de falar de um cara asqueroso e machista, com um “projeto de música” intitulado “Só surubinha de leve”, em que deprecia as mulheres e faz referência ao estupro, com um palavreado vulgar, sugerindo que se alcoolize a mulher, se transe com ela e depois a abandone na rua…

https://www.youtube.com/watch?v=9yyca8vpItQ

Um real atentado ao bom senso, que esteve entre as músicas mais tocadas, causando grande revolta na internet, com muitas denúncias e pedidos para que fosse retirada de serviços de streaming. Agora eu pergunto: como é que deixaram aquilo entrar na internet?

Essas infestações culturais chamadas de músicas quase sempre trazem referências sexualizadas das mulheres, apoiam violência, banalizam o sexo… Isso tem jogado por terra qualquer definição cultural de música brasileira.

E fazem sucesso por quê? Porque têm o público que as consome, que aprecia as letras óbvias, apelativas e repletas de erros de português. Porque a grande massa acha que dá trabalho pensar. Porque crianças se remexem sensualizando enquanto os pais filmam e postam nas redes sociais. Porque mulheres se iludem com a batida e dançam, ainda que sejam reduzidas a objetos sexuais e sejam chamadas de cachorras, piranhas, malandras, potrancas e por aí vai… Simplesmente porque aqui é Brasil.

E a música brasileira, minha gente, vive o ápice de sua decadência…

Lucimara Souza

Formada em Letras, Pedagogia e especialista em Comunicação: linguagens midiáticas, atualmente professora. Aprecia a escrita permeada pela criatividade, humor e certa dose de sarcasmo.

Um comentário em “Aqui é Brasil!

  • 19 de janeiro de 2018 em 17:28
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    Ah, música! Quando carregada de energia, ela deve balsamizar o coração! Quanto ao gosto, depende da sintonia! Músicas que acalentam o coração trazem paz ao espírito!
    A linda música como poesia ultrapassa os tempos, concretizando sempre no âmago das almas, sem alarde, levando-as rumo à felicidade eterna!
    Por que não ouvir, “Romance de Amor” com as mãos divinas de Dilermando Reis? Por que não ouvir “Sonata ao Luar” de Ludwig Van Beethoven? Que tal, “Sonho de Amor”, de Liszt? Músicas assim seguem ao evo estelar!
    Quanto à mídia, é corriqueira! Quando não resolvem seus interesses financeiros, procuram sempre criar outra “moda” para enriquecer os bolsos dos poderosos, faz parte do sistema Capitalista!

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