Luto

LUTO.

Hoje já não sei se LUTO é verbo ou sentimento.

Eu luto, sim. Todos os dias. Durmo tarde, acordo cedo, não falto ao trabalho, tento fazer da melhor forma possível aquilo que me é proposto. Tenho muitas falhas, mas arrisco sempre.

Às vezes perco o sono. Preparo aulas aos finais de semana e privo-me de sair em algumas ocasiões por estar cansada. Afinal, ser dona de casa também faz parte da minha luta diária.

LUTO porque sou professora. Luto pra tentar transmitir algo bom para meus alunos. Aluno nota 10 é excelente, mas ser humano nota 10 tem um valor incalculável. Faço questão de falar isso todo início de ano letivo e, claro, relembrar ao longo dos bimestres.

Estou em LUTO também porque sou professora. Em luto, triste, porque pertenço a uma das classes trabalhadoras mais desrespeitadas dos últimos tempos. Cansada de ver tanta desvalorização.

Calma, gente, não gosto de escrever lamentos. É só uma reflexão.

Diariamente, maior que o desrespeito por parte de alguns alunos é o desrespeito por parte daqueles que, por descuido, se tornaram pais. Pais que não conseguem enxergar que são incapazes de encarar os próprios filhos, que os tratam como seres humanos perfeitos, que têm a escola e os professores como seus rivais. São totalmente permissivos e, na tentativa de prepararem seus filhos para a vida, mimam sem amor. Contraditório? Não! Mimar sem amor é satisfazer todas as vontades ainda que os filhos estejam errados, simplesmente por tentarem suprir a falta de atenção ou qualquer outra obrigação de pais.

Estes, quando são chamados à escola para um diálogo, apresentam-se com um saco de pedras nas mãos. Afinal, eles e seus filhos só têm direitos. Chegam e já atiram a primeira. Atacam sem ouvir professor, coordenador, diretor. Lançam outras pedras aos montes. Não aceitam escutar que seus filhos são malcriados, desrespeitosos, mal-educados, agressivos, não-sociáveis. Não recebem com humildade a orientação de que seus filhos precisam estudar mais, evitar o uso de celular, fazer tarefa, respeitar colegas e educadores. Recusam-se a admitir que o problema não é a escola, o professor ou o colega.

A escola é que teria que auxiliar a família, não o contrário, concordam? Escola, por exemplo, pode ter 1000 alunos. Família tem 4 ou 5 membros. E por que é que esses genitores não dão conta desses filhos? Tem alguma coisa errada aí, não tem?  Por cima, tem uma pequena diferença de, pelo menos, 995 pessoas.

Inúmeras reportagens alertam que a escola pública vai mal. Esses pais aí citados são os primeiros a compartilharem em redes sociais estas notícias, mesmo tendo filhos nas escolas públicas. Sabem por quê? Deve ser porque seus filhos não sabem ler e não fazem continhas de adição e subtração por culpa dos professores, acusados por eles de mal formados.

Não, não, queridos! A culpa não é nossa, não. Seus filhos não leem ou não fazem operações matemáticas básicas porque, desde pequenos, eles têm que se virar sozinhos. Vocês não sentam com eles com um livro, não estimulam, não dão continuidade ao que eles aprendem na escola. Vocês não têm interesse em participar das reuniões de pais. Vocês preferem fazer o papel de pais legais dando a eles um celular que nem nós, professores, conseguimos ter. Aí, pra escola eles vão só em busca do carinho que faltou em casa. Portanto, digo, com convicção, que mal formados são vocês, que precisam dos professores pra fazer seus papéis. Mal formados são vocês que não compram nem lápis ou caderno para seu filho. Mal formados são vocês que esperam que a prefeitura, o estado deem tudo para vocês. Mal formados são vocês que deixam seus filhos faltarem à escola porque ele passou a noite na internet ou foi pra baladinha teen sem ter horário pra voltar. Mal formados são vocês que não ensinam seus filhos valores como respeito, consideração e verdade. Ah, como ensinariam esses valores se nem vocês os conhecem? Estamos querendo demais, eu sei.

Manter a fé e a esperança na humanidade não está fácil. Como seria bom poder mover a vontade alheia…

Estou em LUTO porque professor diariamente tem sido humilhado, julgado, atacado e acusado injustamente. E sabe o que é curioso? Os pais que nos tratam mal não são os pais dos bons alunos, não. Estes são nossos aliados. É por eles que fazemos um esforço pra enxergar uma luz no fim do túnel. É por eles que muitos deixam suas casas e passam o dia dentro da escola e dedicam a alma pela educação.

Os que nos decepcionam e entristecem são os que têm os filhos sem limites e sem frustrações. Os bebês. Os príncipes e princesas déspotas.

Que Deus permita que a vida ofereça pelo menos uma parte do amor que destinamos aos seus filhos, “queridos” pais.

Estamos cansados de sofrer calados, de nos desdobrar em vários pra dar conta de burocracia, conteúdo, casa, filhos e educação dos seus filhos. Revistam suas caras de vergonha, coloquem a mão na consciência e saibam dar valor a quem realmente se preocupa com eles. Ajudem-nos a fazer com que nosso sentimento de LUTO se torne só um verbo.

 

Autor

Lucimara Souza

Formada em Letras, Pedagogia e especialista em Comunicação: linguagens midiáticas, atualmente professora. Aprecia a escrita permeada pela criatividade, humor e certa dose de sarcasmo.

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