O Homem, O Tempo ou a falta de…

A falta de tempo que nos consome na atualidade é absurda.

Ele, o tempo, em vez de auxiliar, virou um vilão, verdadeiro opressor.

Tempo é tudo o que se vive, o que está em cada um, e, incongruentemente, tudo o que nunca se tem.

Não há tempo mais para nada. E bem hoje, quando é tudo mais acessível?!

Já não se gere mais esse tempo como outrora. Tudo é “pra ontem”.

Como assim, pra ontem? Eu estou vivendo hoje, oras. Ontem ficou no passado. A ocasião própria pra qualquer ação minha é agora e não ontem. Confuso isso.

Ontem… Ontem… Ontem não tinha nem internet, não tinha celular, não se via tanta gente motorizada, e, pelo que eu me lembre, nem GPS existia.

Espere aí! Hoje tem tudo isso e não se tem tempo? Os tempos mudaram tanto assim ou o ser humano que interpreta o tempo foi quem mudou?

Sou mais a segunda opção.

Na época de meus avós, de meus pais, eles mandavam cartas. Era prática comum. Eu ainda experimentei essa gostosa sensação de escrever, ir ao correio, postar e depois receber a resposta. Tive dois amigos com quem pude compartilhar desse romantismo. Rascunhar, passar a limpo, escolher o papel, comprar o selo… Um tempo preciosíssimo.

O homem tem tudo nas mãos, tudo para facilitar sua vida. O tempo? Cada vez mais escasso. Economia de tempo? Tem gerado apenas vida cada vez mais saturada, superficial e vazia.

Hoje, entretanto, só consegui manter a tradição de enviar um ou outro cartão de natal. Os e-mails, os torpedos, as mensagens instantâneas continuam ano após ano tentando mostrar sua eficiente praticidade. Todavia, ainda não abro mão de desenhar minhas letras carregadas de bons sentimentos.

Em outros tempos, também, quando morria um parente, o familiar ficava sabendo do passamento depois de uma ou duas semanas, e olhe lá. Era uma dificuldade até localizá-lo. Hoje, se o mesmo familiar estiver fora do país, em poucas horas ele chega pelo menos para o sepultamento. Meios de contato são muitos, no entanto, o sinal do celular é péssimo – a torre é nova -, a internet é lenta – demora um minuto pra abrir -, e ir ao correio pra enviar um telegrama fica fora de cogitação. Não há tempo.

As pessoas sofrem. E sofrem muito mais.

Uma fase além da pós-modernidade nos acometeu. Já é possível até mesmo acender uma vela virtual em gratidão a uma graça alcançada. Quem não tem tempo para o laborioso ofício de acender aquela vela de parafina, é só dar um clique na capela virtual e escolher a vela virtual de preferência. O fiel não precisa perder tempo para esperar a antiga vela queimar, não carece que fique velando sua chama para evitar o contato com a cortina e o risco de botar fogo na casa. O fósforo foi substituído pela password. Muito simples, não é?! Parece piada, no entanto, vale a fé.

Ah, e os amores? Amores duram uma estação. Casamentos duradouros são caretas e sexo é competição de quem pode mais. Aquele refinamento poético de romances românticos se perdeu por aí, no tempo.

O Homem, O Tempo ou a falta de…

Sabe… Percebo que jeitos de sentir o mundo se modernizaram. Acompanharam e continuam na corrida frenética para alcançar evoluções, contudo, mesmo assim, se assistem a adultos e crianças deprimidos, incapazes de esperar pelo tempo das coisas; imediatistas. Paciência deixou de ser virtude para ser defeito.

O homem tem tudo nas mãos, tudo para facilitar sua vida. O tempo? Cada vez mais escasso. Economia de tempo? Tem gerado apenas vida cada vez mais saturada, superficial e vazia.

Existe uma tendência de ansiedade nas pessoas, um medo louco de perderem tempo e não darem conta de fazer o que acham que são obrigadas a fazer, do jeito que uma cultura imbecil impôs que fosse feito.

A pressa neste contexto é vital. Aonde se quer chegar só Deus sabe.

É… a mudança parece antropológica mesmo.

Aquele que ainda aprecia algo bonito do passado ou continua se encantando com o romantismo de gestos simples é o deslocado. Assim se sente.

O tempo presente acaba sempre comprometido e prejudicado porque não é vivido. A sensação de perda e de vazio é estável. Vive-se muito o tempo que talvez nem alcancemos.

E a consciência que nos falta é a de que somos mais felizes quando perdemos a noção desse tempo, seja qual for a ocasião.

Lucimara Souza

Formada em Letras, Pedagogia e especialista em Comunicação: linguagens midiáticas, atualmente professora. Aprecia a escrita permeada pela criatividade, humor e certa dose de sarcasmo.

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