Sonhos incendiados

O nome da Creche era “Gente Inocente”.

Sim! Ela acolhia, educava, dava carinho, atenção e amor a tanta gente inocente, no período em que papais e mamães ganhavam a vida para ajudar em seu sustento. Crianças. Inocentes. Mineirinhos e mineirinhas que, no último dia 5, já celebravam, junto dos coleguinhas e das tias da creche, o tão aguardado Dia das Crianças.

Entretanto, um dos tios da creche, o vigia de nome Damião, a pessoa que deveria ter a única preocupação de “guardar” aquele espaço tão importante para a comunidade, para os professores e demais funcionários que tiravam dali seu ganha-pão, foi até lá e, num momento de insanidade, jogou álcool nas crianças, na sala de aula, no próprio corpo, e ateou fogo em seguida. Não é possível imaginar o que se passava pela mente desta pessoa nos segundos em que teve esta atitude monstruosa.

Muitos se feriram. Uns com mais, outros com menos gravidade, mas todos ficaram com o coração machucado, gritando de dor, inclusive nós, que acompanhamos a tragédia pelos meios de comunicação.

Oh, Damião, como é que, aos 4 anos, Juan Pablo, Juan Miguel, Ana Clara, Luiz Davi e Renan Nicolas se defenderiam de você e de sua má intenção?

Tiveram a vida ceifada ali, sem chances de nada. Por que isso, Damião? Que covardia, hein, cara? Quanta falta de humanidade! Premeditar um crime desses contra pessoas tão pequenas, tão inocentes, tão frágeis… Você ter tirado sua própria vida não ameniza a angústia de nenhum brasileiro, não.

Os pais certamente deixaram seus pequenos lá na creche pela manhã e jamais pensariam que o “mais tarde a/o mamãe/papai te pega” se transformaria, em poucas horas, em um adeus sem direito a um último beijinho, um cheirinho ou um carinho no rostinho ainda perfeito, sem as marcas indeléveis daquele fogo criminoso. Como é que ficam as demais cabecinhas, agora traumatizadas por assistirem, sem entender, a uma cena como aquela? Caso sobrevivam (médicos já alertaram que há muitos riscos de morte), o que pensarão os demais aluninhos, agora obrigados a crescerem com as cicatrizes desta história tão triste?

Uma das professoras também perdeu a vida na tragédia. Metas e sonhos de imprimir valores naqueles inocentes, que são nosso futuro, foram brutalmente incinerados. Que tristeza termos que assistir a tudo isso resignados… O que fazer nesta hora senão rezar?

O dia das crianças e o dia dos professores que se aproximam não terão o mesmo sentido em Janaúba, no Norte de Minas Gerais. Este ano, não haverá brinquedos, cores, sorrisos ou maçãs capazes de apagarem tamanha dor. A cidade está em luto. O Brasil está em luto. A notícia ganhou o mundo. Junto dos que sofrem, estão nossos corações, dilacerados e clamando por misericórdia, orando para que estas famílias destruídas encontrem em Deus o conforto neste momento em que um misto de revolta, aflição, saudade, tiram sua paz.

Meu desejo, leitores, era de, no dia de hoje, escrever um texto falando das crianças, da alegria das crianças, de seu mundo fantástico, de sua inocência, suas brincadeiras. Pensei em um texto leve, cheio de graça e amor. Queria falar de alegria, não de tristeza. Queria falar de vida, não de morte. Queria falar do ser humano que enxerga nas crianças o futuro, não do ser humano que, deixando de acreditar, amar e ser, incendiou futuros e transformou sonhos em cinzas…

Autor

Lucimara Souza

Formada em Letras, Pedagogia e especialista em Comunicação: linguagens midiáticas, atualmente professora. Aprecia a escrita permeada pela criatividade, humor e certa dose de sarcasmo.

Um comentário em “Sonhos incendiados

  • 6 de outubro de 2017 em 20:27
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    Parabéns pela sensibilidade Lu.

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