Glúten se transforma em grande vilão da alimentação

A origem da doença celíaca é genética e entre os males pode causar diarreia, anemia, perda de peso, osteoporose, câncer e até déficit de crescimento em crianças. Muitas pessoas tem a doença e ainda não sabem

Nos últimos três anos uma nova doença tem chamado atenção de pesquisadores e da sociedade civil, trata-se da “doença celíaca”, que nada mais é do que uma reação exagerada do sistema imunológico ao glúten, proteína essa encontrada em diversos cereais.

“O glúten é uma proteína, encontrada no trigo, cevada, centeio, malte e aveia. Vale lembrar que a aveia não contém glúten, mas no Brasil ela é cultivada e processada nos mesmos locais de alimentos que contém glúten, por isso apresenta contaminação cruzada”, explica o médico pediatra, Dr. Rafael Luiz Bresolin.

A origem da doença é genética e entre os males pode causar diarreia, anemia, perda de peso, osteoporose, câncer e até déficit de crescimento em crianças. Mas não existe uma faixa etária para ela se manifestar, entretanto pode se tornar mais comum em crianças de 0 a 24 meses.

“Hoje o tratamento para doença celíaca é a retirada total de todos os alimentos que contém glúten para o resto da vida”, diz o médico pediatra Rafael Bresolin
“Hoje o tratamento para doença celíaca é a retirada total de todos os alimentos que contém glúten para o resto da vida”, diz o médico pediatra Rafael Bresolin

“A doença celíaca é uma enteropatia de mecanismo imunológico que afeta o intestino delgado e é desencadeada pela exposição ao glúten da dieta em indivíduos predispostos. Tanto a doença quanto os sintomas podem surgir em qualquer fase da vida”, revela Dr. Rafael Bresolin.

Ainda segundo Bresolin, o corpo de quem tem o problema não possui uma enzima responsável por quebrar o glúten. Como a proteína não é processada direito, o sistema imune reage ao acúmulo e ataca a mucosa do intestino delgado. Isso causa lesões e prejudica o funcionamento do órgão.

A farmacêutica Lariani Aparecida Delboni, 35 anos, descobriu há pouco tempo que o seu problema de enxaqueca estava relacionada a ingestão de glúten. Mas através de testes, pesquisa na internet e posterior consulta de um gastroenterologista, foi possível diagnosticar que ela seria uma pessoa sensível ao glúten.

“Um detalhe importante é que antes de parar de consumir glúten, o ideal é fazer os exames para a investigação da doença celíaca, como endoscopia e exames de sangue”, comenta a farmacêutica Lariani Delboni, que tirou o glúten de sua alimentação
“Um detalhe importante é que antes de parar de consumir glúten, o ideal é fazer os exames para a investigação da doença celíaca, como endoscopia e exames de sangue”, comenta a farmacêutica Lariani Delboni, que tirou o glúten de sua alimentação

“A princípio, resolvi fazer o teste de cortar o glúten para ver se ele interferia em minhas crises de enxaqueca. Tinha fortes dores, e pesquisando, encontrei relatos de pessoas que tiveram grande melhora após a exclusão. Resolvi então fazer o teste, pois eu não tinha nada a perder. Ao longo dos meses após a exclusão do glúten, percebi que as dores de cabeça tornaram-se mais espaçadas e menos intensas, minha imunidade melhorou consideravelmente e perdi peso, mesmo não diminuindo a ingestão de calorias. Nesse momento já fazia acompanhamento com gastroenterologista, que me diagnosticou Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca (SGNC), considerando a melhora de sintomas após a exclusão”, comenta Lariani Delboni.

O diagnóstico para que se possa saber se existe a Doença Celíaca é feito através de testes sorológicos específicos e biópsia intestinal. Porém crianças menores de dois anos que cumpram alguns critérios diagnósticos e que tenham melhora dos sintomas após a retirada do glúten podem ter a doença diagnosticada sem biópsia.

Depois de seis anos a descoberta da doença

A jornalista Rose Barone Gobel, 34 anos, descobriu que sua filha Júlia, 6 anos, é portadora da doença celíaca há dois anos. Mas desde bebê Júlia já apresentava alergias a diversos produtos e ambientes, inclusive ficando doente somente a uma ida até o shopping.

“Minha filha sempre foi muito alérgica desde bebê. Era uma criança agitada. Barriga inchada. Tinha muita rinite, sinusite. Não podia ir ao shopping que ficava doente. Utilizava antibiótico quase todos os meses. Aos três anos operou da adenoide e amígdala, mas as crises ainda assim eram constantes. Já tinha buscado ajuda no tratamento alopata, homeopatia e antroposofia, sem sucesso”, conta Rose Gobel.

A busca para amenizar e dar qualidade de vida para a pequena Júlia fez com que sua mãe procurasse médicos no Mato Grosso (onde reside com a família) e até em São Paulo, mas tudo sem sucesso. Então veio o conselho de uma amiga médica, que ela solicitasse ao pediatra que fizesse um exame de sangue completo, assim investigando a intolerância a lactose e glúten.

“Neste exame, não houve nada significativo em relação a lactose, mas sim ao glúten: 75% positivo. No entanto, o exame de sangue não fecha diagnóstico, por isso a pediatra a encaminhou para uma endoscopia com biopsia, confirmando assim a doença celíaca”, revela Rose.

A jornalista Rose Gobel descobriu a doença celíaca em sua filha, e viu uma oportunidade de negócios com a criação da Kuchen
A jornalista Rose Gobel descobriu a doença celíaca em sua filha, e viu uma oportunidade de negócios com a criação da Kuchen

Foi a partir daí que a jornalista começou a participar de grupos, workshops e até mesmo procurar a internet para se informar sobre a doença. Um estudo publicado na revista Science Translation indica que cerca de 1% da população ocidental tem intolerância ao glúten. No Brasil, segundo a Associação de Celíacos do Brasil (Acelbra), há um portador da doença celíaca para cada 600 habitantes, mas o número pode ser maior, já que o estudo levou em consideração somente os casos já diagnosticados.

“Participei de um workshop em Cuiabá com a palestrante Paula Martins, que tem a Página ‘Viver sem Trigo’. Eu era muito leiga no assunto e achava que glúten era somente trigo e que bastava tirar isso da alimentação, mas não vi que o universo é muito mais amplo. E a doença celíaca é muito séria e não deve ser vista como modismo com o intuito de emagrecer”, comenta a jornalista, que já não consumia glúten há quase dois anos.

Com a descoberta da doença celíaca toda a alimentação e restrição foi colocada na dieta da pequena Júlia, o que começou a ter um resultado satisfatório, e assim possibilitando com que ela passasse a ter qualidade de vida e não frequentasse rotineiramente os consultórios médicos.

Portadores da doença se escondem ou não sabem que a tem

Você já ouviu alguém falar que é portadora da doença celíaca? Até pela falta de informação e o nome não ser tão bonito assim, muitas das pessoas que são portadoras da doença se “escondem”, e apenas deixam de comer o glúten, dessa maneira a informação se torna escassa e as orientações mais ainda.

“No geral, as pessoas não costumam falar que tem a doença celíaca. Muitas me procuram e dividem suas histórias comigo, porque tomei a atitude de divulgar sobre o caso da minha filha e assim possibilitar a trocar de informações entre todos”, diz a jornalista Rose Gobel.

No mundo, estima-se que de 1% a 2% da população tenha doença celíaca, um percentual bem superior ao registrado na década de 1970, que ficava na casa de 0,03%. Entre os especialistas não existe um consenso sobre a causa desse aumento, mas entre as hipóteses levantadas estão fatores ambientais e variações na qualidade e no processamento dos cereais.

Segundo estudo da Escola Paulista de Medicina (Unifesp), nos EUA apenas 17% dos celíacos já foram diagnosticados, o que significa que, só nos Estados Unidos, 2,5 milhões de pessoas estão convivendo com a doença sem saber.

Alimentação sem glúten é opção de negócios

Os celíacos hoje já encontram diversos alimentos no mercado sem a presença de glúten, entretanto o valor ainda é bem elevado, e em muitos casos a textura e o sabor dos alimentos não são iguais ao que a maioria da população ingere em sua dieta diária.

Quando você se depara com um diagnóstico assim, descobre-se como o mercado é carente em produtos funcionais (livres de alergênicos). E restaurantes? Ninguém pensa em opções para celíacos ou intolerantes a lactose. Por isso mesmo a cada dia uma nova empresa de alimentação saudável vem surgindo no Brasil, e um desses casos é a jornalista Rose Gobel, que viu uma maneira de investimento, após descobrir a doença de sua filha.

Um estudo publicado na revista Science Translation indica que cerca de 1% da população ocidental tem intolerância ao glúten.
Um estudo publicado na revista Science Translation indica que cerca de 1% da população ocidental tem intolerância ao glúten.

“Depois que mudamos a dieta da Júlia vimos que realmente o valor dos produtos sem glúten é bem elevado. E o mais importante é que o sabor e a textura, em sua maioria, não são iguais ao que é ingerido no dia-a-dia, foi então que vi uma oportunidade de investimento que iniciou pensando em proporcionar uma alimentação mais saborosa para minha filha e familiares, mas que tem se expandido”, conta Rose.

A jornalista fundou a marca Kunchen (que é uma palavra alemã, mas significa bolo), e o objetivo é fazer produtos com matéria-prima de excelente qualidade, sem glúten, sem lactose e sem açúcar refinado, mas com sabor e textura.

“A alimentação também deve ser prazerosa e não apenas saudável. Por enquanto produzo somente bolos, mas descobri um mercado em potencial e muito receptivo para a proposta do Kuchen. No início, a ideia era atender celíacos e intolerantes a lactose, mas hoje atendo o público que não é alergênico, mas busca uma alimentação mais saudável. Acredito que a tendência é essa: alimentos saudáveis, mas sem deixar o sabor de lado”, afirma Rose Gobel.

Ainda segundo Gobel, ela trabalha apenas sob encomenda porque o sem glúten é um produto mais delicado e não usa conservantes. E quem quiser conhecer mais os sobre os produtos pode acessar a Página no Facebook Kuchen Cuiabá (www.facebook.com/kuchen.cuiaba/) ou no e-mail: kuchen.cuiaba@gmail.com

Atualmente, em torno de 55% dos consumidores celíacos gastam 30% ou mais do orçamento mensal no supermercado com produtos sem glúten. E este nicho de mercado vem ganhando novos adeptos a cada dia, pessoas que não têm a doença, mas sentem a influência negativa do glúten na sua saúde ou bem-estar.

Kennedy Oliveira

É formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelas Faculdades COC (atualmente Estácio). É pós-graduado em Comunicação: linguagens midiáticas, pelo Centro Universitário Barão de Mauá.

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