Diário de bordo: Hierarquia e relacionamento

Os primeiros dias a bordo são estranhos. Os outros tripulantes olhavam para aquela pessoa recém chegada. Alguns com curiosidade, outros buscando amizades e novos relacionamentos. Também têm aqueles que gostam de ajudar, colaborar, desejar boas vindas a bordo e fazer com que você se sinta acolhido. Com o tempo comecei a entender que aquelas pessoas que jamais havia visto na vida fariam parte da minha “família” a bordo, ou melhor, da minha casa fora de casa.

Familiarizar-se com o navio, trabalho, tripulação (são quase 95 diferentes nacionalidades a bordo), itinerários, culturas, idiomas, adaptar-se a esse estilo de vida, leva algumas semanas, e não há outra opção. Ou você se adaptada ou desembarca.

Aqui a tripulação vive num ritmo frenético, enquanto você esta “completamente boiando”, acostumando-se com o balanço do mar, digerindo todas as informações e tentando adaptar-se a bordo. É uma grande lição a ser aprendida em tão pouco tempo.

Essa intensidade e esse estilo de vida no mar não se comparam com o ritmo dos que vivem uma vida “normal” em terra, (sim a maioria dos tripulantes acham que as pessoas que vivem em terra têm uma vida “normal”, não quer dizer que somos “loucos”) às vezes é difícil explicar como é a vida no mar.

Trancafiados na maior parte do tempo num hotel flutuante, sem muitas notíciais do mundo. Os dias da semana não existem no calendário, são apenas nomes de portos que contam. A noite não tem ruídos de carros, ruas iluminadas, cheirinho de árvores ou mesmo luzes dos edifícios. Aqui tem a escuridão do horizonte, a lua que ilumina o mar, ondas e vento. Nem sempre os dias são nos portos, também há muita navegação.

Os tripulantes levam uma vida de muitas horas de trabalho. Dependendo o departamento chegam a fazer 14 horas num dia, sem nenhum “dia livre”. Ah! Quando ouço essa expressão: “dia livre”, parece um sonho distante. Poderia ser uma folga, sábado, domingo ou feriado, mas isso não existe a bordo. Aqui temos “horas livres”, que pode ser um intervalo de uma ou duas horas, ou um pouquinho mais, tudo depende das escalas do barco nos portos e também em qual departamento trabalha.

Assim como na terra onde existem as classes sociais, num navio existem as hierarquias onde são bem explícitas, marcadas nos uniformes por “raias”, no qual cada chefe de departamento leva uma quantidade de listras. Desde o capitão, engenheiros, gerentes ou assistentes da área de hotelaria, cada um tem uma raia. Esses são chamados de oficiais, o que significa que quanto mais raias tem, mais privilégios terão a bordo, como é o caso do capitão que sempre leva quatro raias no uniforme.

Os tripulantes sem raias, são chamados de Crew, não tem direito a nenhum tipo de privilégio a bordo, somente acesso ao refeitório (Crew Mess), ao bar (Crew Bar), academia, e a área de tripulação (Crew Area). Não são permitidos nas áreas dos passageiros, somente se for a trabalho. Depois temos o Staff, que são os membros das lojas, spa, recreação, cassino, fotografia e músicos. Estes também não tem nenhuma raia, mas tem alguns privilégios.

Para ser oficial é necessário ter, no mínimo, uma raia. O Staff membro da tripulação tem mais direitos que um Crew e podem utilizar as áreas de passageiros. Tem um restaurante para eles (Staff Mess), mas são restritos a áreas de oficiais. Tudo isso varia de companhias de cruzeiros, mas o que sempre encontramos a bordo serão: Oficias, Staff e Crew.

Curiosidade: no navio existem três restaurantes para a tripulação. A refeição e o layout dos restaurantes são diferentes entre si; no Officer Mess para os oficiais: Capitão, Oficiais de Nagevacao, Engenheiros, Chefes e Assistentes de Hotelaria, Médicos, Enfermeiros, Técnicos, Chefe de Seguranca. O outro chamado Staff Mess para: Equipe de Entretenimento, Músicos, Bailarinos, Assistente de Vendas, Fotógrafos, Cassinos e toda a equipe do Spa (Manicure, Cabelereiros, Massagistas, Acupunturistas). O Crew Mess para: Camareiros, Garçons, Equipe de limpeza, Segurança, Manutenção, Cozinheiros etc. São muitos os departamentos existentes a bordo acho que não mencionei nem a metade deles.

Atualmente na minha “casa de lata” somos 1.200 tripulantes e 3.200 passageiros, uma pequena vila no mar, esse é o maior navio de todos os que já trabalhei. Diria que quanto maior o navio, mais impessoal é a vida a bordo. Nesse momento vou em navegação depois de 14 noites de cruzeiros em apenas 7 portos. Uma rota que intercala entre o calor do Mediterrâneo e o cinza do Mar do Norte.

Vamos em direção ao Home Port (Porto Casa/Base) na cidade de Southampton, Inglaterra. Cada navio tem um Home Port onde embarca e desembarcam passageiros e tripulantes. Assim, nesse dia podemos sair na nossa cidade “base” para resolver pendências, fazer compras de supermercado (mesmo não podendo cozinhar a bordo) risos, utilizar uma cafeteria para internet, diria que o Home Port  é o porto e a cidade onde os tripulantes são mais familiarizados e talvez tenha um pouco mais de tempo livre para sair do navio e fazer contato com os “ Marcianos da Terra”.

Autor

Graziella Marasea Cebollero

Viaja o mundo a trabalho e com isso reúne diversas histórias e fotos que irá compartilhar com a gente.

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