Diário de bordo – Primeiro dia

Se você não viu a primeira parte, clique aqui e leia.

Ao chegar na casa flutuante fui recebida por um responsável do Departamento de Tripulantes, ali mesmo na porta de entrada e saída chamada: (Gangway) recolhem os exames médicos para verificarem se estavam todos corretos. As malas são revistadas e passam por um scanner. Em seguida o responsável pelo departamento onde irá trabalhar estará presente para recebê-lo a bordo.

Geralmente no primeiro dia de embarque o tripulante não tem descanso, é colocar o uniforme e mãos à obra! O navio já estava praticamente em navegação quando cheguei ao Estoque ou (Store Room) para pegar o meu uniforme. Para chegar até esse local tinha que atravessar uma lavanderia. Esse departamento conhecido como (Laundry) tem enormes maquinas de lavar, secar e passadoras, o calor naquele andar era tão intenso que parecia uma sauna.

A maioria dos tripulantes que ali trabalhavam eram Filipinos, enquanto caminhava atravessando a lavanderia diziam: “Hello Madam…” todos muito bem humorados e alguns cantavam. (Diria que os dois grandes esportes nacionais dos Filipinos é o Karaokê e o Ping-Pong).

Fiquei observando o trabalho que faziam no meio daquelas máquinas, estendendo lençóis, toalhas e logo esticando nas passadoras. Os lençóis eram três vezes maiores que eles e de um branco intenso. O esforço que faziam era muito, mas todos com um sorriso no rosto.

Marinheira de primeira viagem, depois de um tempo a bordo foi subindo um calor pelo corpo, um mal estar, que ia acompanhando o balançar do navio. É como se eu estivesse de pé num berço que balança e o barulho do motor atravessando as ondas. Eu estava num andar abaixo do nível do mar, e para completar a cena logo começou uma sirene e uma porta amarela de ferro a fechar. São as portas de contenção de água, existem muitas dessas portas pelo navio que são automaticamente fechadas em caso de emergência e sempre quando o barco zarpa essas portas são mantidas fechadas até chegar em mar aberto.

Eu não via a hora do balanço parar (risos) e meu estômago até que se comportou bem, mas com toda a aventura eu havia esquecido fiquei praticamente o dia todo sem comer, e chegou uma hora que o estômago roncava e eu imaginava um jantarzinho (um arroz quentinho, com cheirinho de alho recém-saído da panela). Isso não existe num navio, as cozinhas são industriais e bem longe desse cheirinho.

Como já era um pouco tarde, o horário do jantar já havia passado, aqui existem horários para as refeições, se caso perdê-la pode ficar sem refeição. Naquele dia fizeram uma exceção.

Ao ter que retornar para o escritório me perdi pelo barco. Tive que sair perguntado como chegar até lá. A boa notícia é que pelo caminho fui conhecendo um pouquinho da tripulação, todos muito receptivos e quando olhavam já até sabiam que eu era a nova tripulante do departamento das excursões. Eu não entendia como já sabiam, (acontece que o navio é como uma pequena vila na água, e as notícias caminham pelos corredores…).

Finalmente cheguei ao escritório e conheci minhas companheiras de trabalho, fui muito bem recebida. Era uma equipe só de mulheres e muito divertida. No início a avalanche de informações é enorme, difícil absorver todas de uma vez. Após a reunião no escritório, o balanço do navio, depois de jantar, foi me dando um sono que os olhos até entortavam… juntando o cansaço da viagem, eu não via a hora de deitar numa cama e acordar no dia seguinte ao meio dia (risos).

Lembrando que acordar ao meio dia seria somente depois de 6 meses de contrato!

Fui levada para o meu quarto que seria temporário, o quarto era pequeno, e todos os movéis: escrivaninha, guarda-roupas e beliche era tudo de ferro acoplado às paredes. O banheiro era um pouquinho maior que o banheiro de um avião, janela no quarto não existia. Tudo o que eu queria era só uma cama pra descansar.

No meio da madrugada, me desperto com os movimentos do barco, não conseguia dormir, a porta do guarda roupa abria e fechava e as paredes estralavam. O som contínuo do motor, o barulho do mar e as paredes estralando. Achei aquilo tudo muito estranho, fui até o corredor e coloquei minha cabeça pra fora, pra ver se via alguém por lá. Queria saber se isso era normal, mas não havia nenhum tripulante por perto. Então voltei a deitar, peguei meu colete salvas vidas e deixei no pé da cama, rezando para o dia começar logo.

No diário da tripulante não tinha nada disso, somente fotos lindas, festas e lugares…

Eu não via a hora do dia amanhecer pra conversar com alguém e perguntar o que havia acontecido durante a noite. Logo cedo as companheiras de trabalho me ligaram e chamaram para irmos tomar café da manhã, (foi um alívio). Já caminhava uniformizada, e me lembro do corpo cansado de carregar as malas, de passar horas sentada num avião, da noite não dormida e toda a andança que fiz.  Aquele dia começaria o trabalho e tinha que estar totalmente disposta.

Autor

Graziella Marasea Cebollero

Viaja o mundo a trabalho e com isso reúne diversas histórias e fotos que irá compartilhar com a gente.

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