Diário de bordo: Sexualidade

Enquanto navego pelos Fiordes da Noruega, compartilho mais um pouquinho da vida a bordo, já que falamos de hierarquia e relacionamentos, então como são os relacionamentos a bordo?

Havia mencionado que nos primeiros dias, somos observados e assistidos por outros tripulantes, alguns curiosos, outros querendo colaborar, uns em busca de novas amizades e outros em busca de aventuras românticas.

Fresh Meat

Na verdade quando chega um tripulante novo a bordo é chamado de fresh meat (carne fresca). Menciono algumas palavrinhas em inglês, pois é o idioma oficial entre a tripulação (a maior parte do sexo masculino), assim temos que conviver com mentalidades e visões de mundo bem distintas. Cada um com uma cultura e maneiras de agir bem diferentes com relação as mulheres.

Ao embarcar são muitas as novidades, e a tripulação é tão hospitaleira que às vezes um “Bom dia!”, acompanhado de um sorriso pode ser interpretado com outras intenções, dependendo as vivência e a nacionalidade dos tripulantes.

Como marinheira de primeira viagem, não sabia nada disso. Tanto é, que nas primeiras semanas a bordo, recebi convites de Oficiais da Ponte de Comando para tomar café. Outro tripulante que havia conhecido no dia anterior, chegou com chocolates. Alguns convidam para ir ao Crew Bar (bar de tripulantes). Eu pensava: como as pessoas são receptivas!

Minha companheira de trabalho explicou que eu deveria ter cuidado, pois não podia confiar muito nesses comportamentos que sempre são seguidos de outras intenções. Então tinha que me adaptar a essa realidade, um pouco incômoda, que no final temos de ser mais seletivas e saber impor até mesmo na hora de cumprimentar.

E por sorte, passada as primeiras semanas, já não éramos mais alvo dos “tubarões” a bordo, porque outras “carnes frescas” chegaram. O mesmo vai se repetindo a cada dia de embarque, já que a rotação de tripulantes é muito grande. A vantagem disso é de que logo somos esquecidas, o que traz um certo alívio.

Amor a bordo

Isso não significa que relacionamentos sérios a bordo não existam, aliás tem muitos tripulantes que se conhecem a bordo, casam e seguem trabalhando juntos no mesmo navio ou desembarcam para constituir uma família em terra. Diria que os relacionamentos são tão intensos que dentro de pouco tempo é como se você conhecesse a pessoa há anos.

Daria para escrever um livro com todas as histórias de amor que acompanhei aqui. Algumas com final feliz, que atravessaram oceanos e continentes. Outras com final trágico e, ainda aquelas que duram “até que os barcos nos separem”. (risos)

Sexualidade liberta

A vida no navio também pode ser um “escape” para aqueles que não assumem sua sexualidade em terra, devido a motivos religiosos e/ou culturais. É o caso de uma boa parte da tripulação Hindu Mulçumana e masculina, que são obrigados a casarem-se e são matrimônios arranjados pela família em terra.

A bordo vivem a dualidade, de um lado mantendo a tradição da cultura, cumprindo com o papel do casamento arranjado, sustentando a esposa e filhos conforme a tradição, e do outro vivem no navio relacionamentos com pessoas do mesmo sexo. Mesmo sendo muito cautelosos, tarefa quase impossível morando num “vilarejo que desliza pelo mar”, as fofocas muitas vezes vazam por todo o barco. Mesmo assim, tentam manter as aparências, o que não deve ser nada fácil para eles, pois ao não poder assumir-se em seus países, levam anos e mais anos de vida a bordo.

Também é muito comum o tripulante casado e com filhos em terra, viver dois relacionamentos: um a bordo e outro fora do navio. Geralmente trazem esposas para passar algumas semanas ou até um mês, mesmo estando num relacionamento com outra pessoa a bordo. Isso é o mais comum e normal que existe aqui. O interessante é o código de ética utilizado pelos próprios tripulantes nessa hora, pois todos somos cúmplices, solidários e compreensíveis. (Não temos a TV Globo para assistir o drama de amor e traição das novelas, mas vivemos o drama da novela aqui e a bordo).

E você deve estar pensando, mas são só os homens que fazem isso?

Sim em 90% dos casos de trazer a família a bordo, tendo outro relacionamento aqui dentro.

Mas e as tripulantes?

As tripulantes a bordo levam uma vida mais independente, dificilmente estariam embarcadas se tivessem marido em terra, e o máximo que cometemos é pequenas traições de vez em quando! (risos)

Autor

Graziella Marasea Cebollero

Viaja o mundo a trabalho e com isso reúne diversas histórias e fotos que irá compartilhar com a gente.

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