Índia: Amritapuri e a Santa dos Abraços

Antes de encontrar o noivo Indiano (risos), temos ainda muito o que percorrer pela Índia. Ao deixar Allepey fomos de barco até a cidade de Amritapuri, no Estado de Querala onde situa-se um renomado Ashram de uma líder Espiritual conhecida como Sri Mata Amritanandamayi Devi ou simplesmente “Amma”. Essa líder espiritual é conhecida como a Santa dos Abraços.

A história de veneração por essa mulher começou quando ela tinha apenas 9 anos de idade. Ela ia recolher os restos de comida (lavagem) para alimentar os animais e nessas andanças, observava o quanto as pessoas eram miseráveis e o quão pobre era sua cidade; dessa forma de uma maneira espontânea começou a abraçar sua gente para dar conforto e carinho. Com o tempo, começaram a chamar-la de Amma (mãe) e ela passou a chamar-los de filhos.

Quando uma criança chora por algum motivo, vai direto ao colinho da mãe que normalmente consola com um abraço. Com esses abraços, Amma planta sementinhas de bondades nos corações.

O barco nos deixou bem de frente para o Ashram… ali só tínhamos que atravessar uma ponte e já estávamos dentro do complexo de muitos edifícios, todos pintados de uma cor salmão. Ao chegar fomos recebidas por um voluntário Americano, que recolheu nossos passaportes e logo nos presenteou com os horários de funcionamento e atividades do Ashram.

Nos sentíamos embarcando num navio… ali passaríamos alguns dias confinadas, não sabíamos como seria e o que esperar daquela  experiência. Fomos direcionadas ao nosso quarto, que em princípio passaríamos três dias, que acabaram virando cinco…

Acomodamos as mochilas no quarto e logo fomos fazer o “tour” pelo Ashram. Uma senhora canadense nos levou para conhecer o complexo e explicou como era o seu funcionamento, os horários de atividades, refeições, voluntariados, meditações etc. Era muita informação para apenas uma hora de tour. Essa senhora nos dizia que ela participava do Ashram há quase 15 anos e tinha comprado um dos quartos do edifício.

No local existem 6 edifícios, cada um com 17 andares e em cada andar havia uma média de 20 quartos com um pequeno banheiro e uma pia como se fosse uma cozinha (uma espécie de pensão). Esses quartos eram vendidos entre 20 e 60 mil dólares. As pessoas que adquiriram eram todos estrangeiros, já não havia mais nenhum quarto para venda e se os proprietários não tivessem herdeiros, os quartos seriam entregues como uma forma de doação ao Ashram. Quando os proprietários não estão no apartamento, Amma tem todo o direito de sublocar os quartos podendo hospedar até 3 pessoas em cada quarto. A canadense não tem herdeiro, então quando morrer esse quarto fica para Amma e ela poderá vendê-lo novamente.

A maioria dos milhares de voluntários caminham em túnicas brancas. Eles vem de todas as partes do mundo, mas a grande maioria é de Americanos, Canadenses, Europeus e Russos.

Ao retornar para o nosso quarto, nos deparamos com uma senhora chamada Irina, uma russa que há 3 anos vive confinada no Ashram. Naquela noite compartilhamos muito com ela, somos curiosas e queríamos saber os motivos que a levaram a largar tudo e viver naquele lugar.

Irina é uma mulher elegante, trabalhava como jornalista para uma empresa inglesa renomada, viajava muito e fazia coberturas periódicas em muitos países. Depois de trabalhar e viajar muito, vendeu suas coisas na Rússia e mudou-se para o Egito, onde se casou e viveu durante 5 anos. Aos poucos fomos conhecendo Irina e o que levou-a a mudar de vida. Antes, com o salário que tinha, poderia comprar um carro por mês, gastava com roupas de renomados estilistas, uma vida totalmente distinta da qual tem agora. Dorme num colchão duro no chão, num quarto muito simples, com imagens da Guru Amma por todas as paredes e compartilhando o quarto com visitantes a maior parte do tempo.

Acompanhamos um pouquinho a rotina daqueles voluntários e de Irina. O dia começa às cinco da manhã, sem comer nada ia meditar durante uma hora e meia em grupo. Após isso, o café da manhã era servido e cada um pratica a atividade que deseja chamada seva e um voluntariado. A vida no Ashram é muito “independente”, os voluntários e visitantes são obrigados a contribuirem com trabalhos. É possível trabalhar na cozinha, lavar pratos, roupas ou cuidar da limpeza, por exemplo. Todo o trabalho se resume em sevas, um serviço sem lucros, que consiste em cozinhar, em vendas de acessórios religiosos, artigos da organização, além das atividades pagas de yoga, meditação, consultas ayuvérdicas, astrologia védica, são muitas as opções para arrecadar fundos e sustentar esse grande projeto.

São mais de 50 centros espalhados em todo o mundo, e a sede em Amritapuri conta com mais de 3.000 residentes.

Os horários das refeições são únicos e às terças e quintas-feiras Amma dá o prashed, que significa dar comida aos residentes. Ela mesma serve os pratos, como uma mãe. No resto do dia canta os bhajans, canções devotas que expressam amor tocados com instrumentos tradicionais. Em outros dias, quando Amma se encontra no Ashram, ela faz meditações guiadas na praia.

Amma conta com orfanatos, associações, hospitais, universidades e viaja ao redor do mundo hospedando os encontros místicos, uma Guru do século XXI. Ela sempre é convidada para diversos fóruns mundiais, já recebeu prêmios por seu destacado papel como líder espiritual e humana. Para ela, suas práticas não tem a ver com a religião, mas com o Amor.

Nossa experiência não foi como esperávamos. No início fomos bem acolhidas, mas ao vivenciar a vida naquele Ashram sentíamos que as pessoas não eram felizes. Não sorriam, não havia nada de hospitalidade e gentilezas. O único sorriso que vimos foi no rosto de um senhor indiano bem idoso que vendia água de coco. Os voluntários eram bem estressados e de mau humor intenso.

Nesse primeiro dia fomos convidadas a receber o darsha (o abraço de Amma) assim que num local onde fazem o culto com vários telões e um palco onde Amma passa o tempo sentada abraçando seus seguidores acompanhada de música tradicional. Foram quase duas horas sentadas passando de cadeira em cadeira até chegar ao palco onde a Guru fica sentada envolta num Sari branco abracando as pessoas por quase um minuto.

Os voluntários vão direcionando até a Amma, e para receber o abraço deve-se ajoelhar, em seguida te dão um empurrãozinho para o abraço. Amma, uma senhora robusta, baixinha que te envolve em seus braços por alguns minutos, fala no seu ouvido algumas palavras e de tanto abraçar, para os mais sensíveis, é possível sentir a energia que ela tem. Logo ela te empurra e os voluntários te seguram até você sair caminhando novamente e é possível ficar sentada ao redor da Guru meditando. Naquele momento sentíamos que havia muita adoração e muitos egos naquele lugar, como era nosso primeiro dia, era difícil julgar.

No segundo dia, pela manhã, acordamos cedinho, fizemos a meditação e tomamos o café da manhã. Era um bandejão com arroz e vegetais mistos mergulhado no molho curry, acompanhado de chai. E em seguida passa uma pessoa com uma plaquinha no refeitório pedindo voluntários para a seva. Naquele dia dedicamos duas horas de voluntariado para lavar pratos, juntamente com uma americana, uma colombiana e uma alemã. Conversamos bem pouquinho com elas, já que eram todas muito sérias, de poucas palavras e nada gentis, naquele local que mais parecia um hospício do que um Ashram. Aquelas mulheres frequentavam o Ashram há mais de oito anos, geralmente passavam de três a seis meses por ano.

Sempre que voltávamos ao quarto, estava Irina e conversávamos um pouquinho mais para poder conhecer e saber mais sobre o lugar. Antes de vir pra cá, ela havia vivido durante 5 anos no Ashram do Osho. Uma experiência bem diferente. Pareceu que havia gostado mais de Osho e quando se lembrava que já vivia ali naquele quartinho há três anos… às vezes perguntava a si mesma o que faria da vida, mas segundo ela sua guru Amma dizia que ela não podia sair de lá e que deveria passar mais tempo naquele monastério.

Durante aquela noite, estávamos dormindo, e de repente me levanto com uma barata caminhando pertinho do meu colchão e vinha em minha direção. Não tenho frescuras, mas quando o assunto é barata, é outro nível, o descontrole é grande. Levantei tão rápido, e fiquei pisando no colchão da Gi, saltando de um lado para o outro. Junto a isso meus gritos, Gi acordou assustada, sem entender o que acontecia e logo Irina se levantou também. Eram duas baratas, então o escândalo era em dobro! Irina também tinha medo de barata, restou para a Gi tomar o chinelo e ir à luta! (risos).

Na manhã seguinte, Irina ainda com aquela cena na cabeça, pensava que aquilo era uma mensagem vinda de sua guru Amma. Para nós, era uma questão de limpeza. O quarto era mal cuidado, haviam prateleiras e armários cheios de sujeira.

Naquele dia Gi se livrou de fazer a seva e no final fui convocada a ajudar na limpeza dos andares do edifício. Para cada voluntário, quatro andares. Dessa vez fui a intérprete para duas senhoras Argentinas que acabavam de chegar naquele local. A voluntária que nos ensinou onde recolher o material, buscar água e dizer o que deveríamos fazer era uma mulher bem estressada, sem paciência alguma. Jogou um balde pelo corredor afora, depois nos pediu desculpas, pois estava estressada devido ao aniversário de Amma que era naquela semana e estavam sobre carregados. Nada justifica a impaciência e a falta de educação, não éramos dali, estávamos apenas como visitantes e fomos convocadas a nos voluntariar.

Diante disso tudo, não me contive e falei que ela deveria ter mais educação e paciência ao ensinar as pessoas, e que não era nosso problema se ela estava estressada. Deveria saber se controlar, ter compaixão e ser mais gentil para com o próximo. Daquele momento em diante, o que eu queria era ir embora. Tudo pareceu muito artificial e uma modinha que as pessoas seguem de ir pra Índia atrás de guru espiritual.

Por falar em limpeza, o conceito de limpeza para os Indianos e, inclusive para os voluntários, é bem diferente do nosso conceito de limpeza. Varrem a sujeira para debaixo do tapete e depois passam um esfregão molhado pelo corredor. Eu tive que deixar minha seva pela metade, depois de limpar o terceiro andar, e me deparar com a sujeira que jogam dos quartos para os corredores do edifício. Sacos de lixo molhadas misturadas com os sapatos que sempre deixam pra fora dos quartos (aqui na Índia é falta de educação entrar nas casas e estabelecimentos calçados) e com algumas baratas para completar o cenário! (risos).

Os 5 dias que ficamos pareceram 5 meses. Não víamos a hora de ir embora, mas tivemos que esperar já que não havia trens para o nosso próximo destino. Enquanto esperávamos os dias para seguri viagem, assistíamos as preparações de celebração do aniversário de Amma. Todos trabalhavam muito para decorar e deixar tudo perfeito, já que iriam receber autoridades como o presidente e o ministro da Índia, além de convidados especias e milhares de seguidores nacionais e internacionais.

Finalmente havia chegado o momento de sair daquele local, nos despedimos de Irina com um abraço e dissemos que ela era uma mulher super forte e corajosa e que as decisões de sua vida tinham que partir dela mesma e não de uma Guru. Acostumada, ela parecia com medo de tomar decisões por conta própria e assim os anos vão passando e ela vai ficando, em busca de respostas para sua vida através das meditações. Naquela manhã, o local se transformou num formigueiro, pois era o dia do aniversário da Guru. Pessoas de todas as partes vinham para a comemoração e nós estávamos felizes de simplesmente não estar mais naquele local, que horas antes parecia um hospício e em outras, um circo.

Seguimos numa viagem de trem por 42 horas de trilhos com uma pausa em Mumbai e mais 15 horas de viagem até chegar ao tão esperado norte da Índia, matéria da próxima semana.

Autor

Graziella Marasea Cebollero

Viaja o mundo a trabalho e com isso reúne diversas histórias e fotos que irá compartilhar com a gente.

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