Índia: Aurangabad – conhecendo as Grutas de Ajanta e Ellora

Depois da nossa visita e experiências pelas ruas de Mumbai, decidimos seguir viagem para conhecer as Grutas de Ajanta e Ellora, uma viagem em trem que durou quase 10 horas. Foi nossa primeira vez em um trem numa distância tão longa pela Índia. Nossa viagem foi durante a noite, mas tivemos que esperar algumas horas na Estação de trem Old Victoria Station.

A quantidade de gente aguardando trens, esperando pessoas ou ainda mendigando e que vivem ali é impressionante. Por sorte conseguimos um lugarzinho para sentar, mas o desconforto, simplesmente ser mulher, naquelas horas era grande. A Índia é um pais machista, como você já sabe. Ficamos sentadas observando o que ocorria ao redor e era revoltante. Os homens olhavam fixamente ao ponto de nos  sentirmos incomodadas. Não bastasse isso, alguns se sentavam ao lado e continuavam com o olhar fixo. Apesar de estarmos bem cobertas de roupas, justamente para não passar por situações incômodas, os olhares fixos eram constantes.

Estávamos sentadas e separadas pelos apoiadores de braços das cadeiras e a toda hora sentava um sujeito tentando encostar a mão ou o braço em alguma parte do corpo. Por isso minha amiga e eu ficamos nos cuidando e vigiando, uma a outra. Ao caminhar é sempre a mesma coisa, passam rentes para esbarrarem por partes do corpo de mulheres que caminham sozinhas. Nessas horas vamos bem equipadas com as mochilas e quando algum sujeito passa rente nos movemos de um lado para outro dando mochiladas!

Durante a viagem, minha companheira foi tocada e com o nervo a flor da pele seguiu o indivíduo gritando em seu ouvido. Ela o enfrentou colocando a mão na cara e o sujeito seguiu caminhando como um cachorro com os rabos entre as pernas. As pessoas assistiam a cena, mas no final era como se não fosse nada.

Depois de algumas horas de espera na estação, a natureza chamou e tive que passar pelo banheiro. Os banheiros públicos na Índia sempre tem que pagar um valor na entrada. O banheiro era basicamente um buraco no chão, sem papel higiênico, apenas um balde e uma canequinha. Manutenção e limpeza são palavras que nunca foram mencionadas próximo ao local. Me deparei com mulheres escondidas em seus saris descalças, limpando-se com toalhinhas. O cheiro de esgoto naquele local era terrível, o chão era um aguaceiro, onde as ratazanas corriam e compartilhavam espaço com baratas! Ao entrar não tive como esconder minha cara de nojo e saí correndo! Cheguei branca onde estava minha companheira sentada e perguntou se havia acontecido alguma coisa… Comecei a rir e a chorar ao mesmo tempo, ao ponto uma senhora, que vive na estação, perguntar se eu estava bem, e queria saber o motivo do choro.

Nosso trem já estava na plataforma e ao embarcar fomos passando pelos vagões, em cada compartimento haviam um pouco de tudo, homens carregando caixas e mais caixas de isopores abastecidos com peixes. Esses trens também são utilizados para transportes de mercadorias. Ao entrar no nosso vagão já transformamos os acentos em um leito. A viagem é longa e já estávamos esgotadas de todas aquelas peripécias na estação.

No trem noturno os vagões são mistos, por isso durante toda a viagem íamos nos vigiando. Ao amanhecer já notávamos uma paisagem completamente diferente da que havíamos visto até então. O cenário era de campos, rios e muitas plantações, uma área bem verdinha, completamente diferente do stress de Mumbai.

Ao chegarmos na estacao de trem da cidade de Aurangabad, esperamos até o dia clarear num lady rest room (sala de espera para mulheres). Ali nos deparamos com muitas meninas que esperavam por um trem para irem ao colégio, algumas vestidas em saris outras vestidas de uniforme esportivo, pois teriam uma competição naquela manhã. Ao sentarmos elas se aproximaram e queriam conversar… todas curiosas para saber de onde eramos, pediam selfies e nos ofereciam algo para comer. Nos mostravam fotos e tinham curiosidades em saber um pouquinho do nosso país e da nossa vida, foram um par de horinhas com aquelas meninas que no final nos ensinavam uma outra cara da Índia.

Aurangabad foi a cidade base para visitar as grutas de Ajanta e Ellora, localizada no interior do estado de Maharashtra com uma população de 1.5 milhões de habitantes. Seu nome significa: a morada do rei, um local onde a maioria da população são de mulçumanos. Não havia muito o que visitar ali, apenas caminhar pela rua principal e ver como as pessoas trabalham, e muito. Faça chuva ou faça sol, a maioria vive do comércio de frutas, verduras, comida de rua, da indústria de turismo e hotelaria. O comércio vai até tarde da noite e logo cedo já estão com suas barraquinhas e lojas abertas.

Para chegar às grutas utilizamos o ônibus local. Os locais não ficam muito perto aqui, é um país bem extenso. Durante o caminho uma senhora sentou-se ao meu lado, não podíamos nos comunicar, apenas com gestos. Ela abriu um pacotinho de guloseimas indiana e compartilhou. Foi um momento de grande alegria.

Grutas de Ajanta

Ao chegar nas grutas de Ajanta, um local verdinho entre montanhas, encontramos a paz! Ajanta é um conjunto de cavernas com esculturas e pinturas rupestres budistas que remontam o século II A.C. Representam um testemunho da história religiosa do budismo, durante o período de 700 anos, atualmente um dos destinos turísticos da Índia.

gruta ajanta india

As grutas foram talhadas nas colinas por trabalhadores, que meticulosamente foram cinzelando a rocha e os artesãos esculpiram fantásticas obras de arte não só na rocha vulcânica, mas também nas paredes e tetos. Observando as grutas, vê-se uma série de colunas ostentando gravuras talhadas no granito, indicando a entrada para os templos budistas e os mosteiros. É impressionante como aqueles artistas desconhecidos tinham toda aquela habilidade e entendimento de perspectiva e profundidade.

Diria que ali naquelas ruínas havia encontrado a tal “espiritualidade” que todos buscam na Índia, um lugar magnífico entre montanhas rochosas e o verdinho da natureza, um lugar tranquilo longe de toda a bagunça e agitação das grandes cidades. Foi ali o único lugar em que houve o silêncio. Sentadas e apreciando o lugar conhecemos uma outra senhora.

Ela nos olhava e queria conversar, mas não falava inglês, apenas fazia gestos, nos tocava o rosto e pediu para tocar os cabelos… não entendíamos muito o porquê, então ela pediu para sentar entre suas pernas e começou a fazer um penteado como o dela em nossa cabeça. Logo chegou uma turista Indiana que viu a dificuldade de comunicação e veio ajudar. Ela traduzia o que a senhora queria nos dizer. Assim pudemos saber que a senhora habita nas montanhas, já foi casada e nos mostrou que quando as mulheres Hinduístas são casadas levam uma manchinha vermelha entre a testa e o cabelo e um colar de ouro com um pingente. Às vezes utilizam anéis nos pés.

Ao terminar nossa conversa, achamos que ela queria uma gorjeta e fomos tirando umas moedinhas da carteira. Ela disse que não aceitaria nada e que apenas queria alguém para conversar. Cada dia é uma lição, conhecendo pessoas distintas, as que fazem algo de coração ou por simples interesse.

Cavernas de Ellora

No dia seguinte fizemos uma outra visita as Cavernas de Ellora, conjunto arquitetônico formado por 34 grutas talhadas nas colinas de Charanandri. Divididas da seguinte forma: 12 grutas Budistas, 17 Hinduístas e 5 Jainistas. Ali era possível através das esculturas vivenciar um pouco da trajetória religiosa, dos costumes, trajes das pessoas naquela antiga Índia. Os templos e monastérios foram construídos nos séculos V e X, muito próximos um dos outros, demonstrando que ali predominava uma harmonia religiosa durante aquele período da história da Índia. É simplesmente incrível poder viajar pela história como se estivesse numa nave do tempo.

Autor

Graziella Marasea Cebollero

Viaja o mundo a trabalho e com isso reúne diversas histórias e fotos que irá compartilhar com a gente.

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