Índia: Jodhpur – a Cidade Azul

Sentimos um alívio muito grande depois de nossa experiência no Ashram. A Índia é repleta de Gurus, Ashram e turistas que passam alguns meses nessa terra mística em busca de iluminação e respostas. É um pouco de modismo também, que vem desde os anos 70. Muitos Gurus são charlatões e envolvidos em corrupção e outros crimes. Por isso, escolher um Ashram é uma tarefa mais difícil do que parece, mas não impossível. Antes de ir para um, o melhor a se fazer é pesquisar muito, o que não foi o nosso caso… fomos por recomendações de outros viajantes.

Deixamos as paisagens do Estado de Querala e embarcamos numa viagem de 42 horas de trem. Não queríamos nem imaginar como seria essa viagem de dois dias até chegar no nosso próximo destino. A viagem não é só o destino, por isso começamos a desfrutar do caminho. Os olhos na janela para assistir o contraste das paisagens, como se estivesse dentro de um filme, do verde das palmeiras radiantes, ao tom de verde mais escuros.

A paisagem mudava continuamente hora após hora. Terras férteis, montanhosas, áridas e secas, passamos por arrozais e plantações de algodão. Observamos todo o movimento que havia no campo, as mulheres e crianças trabalhando no plantio e colheita, um trabalho ainda muito manual, dificilmente se vê maquinários. De qualquer forma é o suficiente para o abastecimento interno e, inclusive exportação.

No trem compartilhamos os assentos com pessoas locais, que nos contavam sobre sua cultura, hábitos, seus deuses e crenças; os Indianos são receptivos e muitos dos quais viajavam no mesmo vagão eram pessoas simples e de grande coração. Falavam com orgulho da Índia e de sua cultura; adoram compartilhar momentos, aliás isso tem sido a parte mais linda da viagem.

Durante o percurso o trem parava nas estações, onde subiam e desciam passageiros, e  também vendedores e pedintes; na manhã seguinte, antes de chegar ao nosso destino, o trem fez uma parada de alguns minutos e ali na janela apareceu uma senhora bem velhinha, com traços marcantes, cabelos compridos e presos. Vestia um sari encardido, mas percebia-se que a cor original era branco. Ela fazia gestos de quem pedia comida, Gi que estava mais próxima a ela ofereceu o que estávamos comendo, e tentou conversar com ela, mas a comunicação era difícil. Como muitos, a senhora não falava inglês, mas ao dar atenção a senhora tocou sua mão e começou a chorar. Com gestos de agradecimentos ao céus, tocou as mãos e o rosto de Gi (como se estivesse tocando uma imagem sagrada). Não entendemos o que estava acontecendo. As mulheres sentadas ao nosso lado se emocionaram ao ver a cena e todas juntas nos emocionamos, foi um momento inesquecível, mesmo sem palavras.

Pedi, então, para as mulheres ao meu lado no trem que explicassem o que a senhora havia falado. Ela nos explicou que mulheres da religião Hinduístas, quando tornam-se viúvas, são consideradas pela crença um mau agouro e até malditas, em muitos casos são simplesmente despejadas na rua pela própria família. Com a morte do marido, elas passam a vestir branco (a cor de luto na Índia). A feminilidade da mulher passa a ser anulada, muitas tem a cabeça raspada e já não participam mais de festas e de nenhum convívio social, perdendo até o status social.

Quando alguém conversa com elas (mulheres viúvas) se surpreendem, pois dificilmente alguém iria tocá-las ou dar-lhes atenção. A viúva nos dizia que tinha quatro filhos, que um até era doutor… fazia gestos como se estivesse amamentando uma criança e logo dizia para não ter filhos. Com essa crença tão presente em sua vida, realmente era melhor estar sozinha (mas a cultura em que estão inseridas é tão patriarcal que dificilmente permitiria uma mulher ser solteira e independente).

O trem tinha que seguir seu curso e aquela senhora viúva nos deixou com o coração partido. Com os olhos cheios de lágrimas, olhávamos umas às outras e o silêncio tomou conta daquele pedacinho do vagão…

Nosso trem nos levaria de volta a Mumbai, onde faríamos uma conexão e seguiríamos mais 15 horas de viagem até a cidade de Jodhpur no estado do Rajastao, localizado na parte Noroeste, o maior Estado da Índia em extensão territorial, faz fronteira com o Paquistão.

Jodhpur é a segunda maior cidade do estado, situada no deserto de Thar, a cidade é um dos destinos turísticos conhecida por seus palácios, fortes e templos. Ela é conhecida como Cidade Azul, cor das casas localizadas abaixo do forte. A princípio as casas pintadas de azul eram de Brahmanes (sacerdotes, membros da casta mais alta, e historicamente sempre gozaram de uma posição social privilegiada). Logo as cores das casa azuis foram adotadas por outras castas que diziam que a cor azul ajudava a espantar os mosquitos, atualmente as casas seguem sendo pintadas de cor azul por motivos turísticos.

Perder-se pelas ruelas de Jodhpur, caminhar e observar as casinhas azuis, o cotidiano das pessoas varrendo o chão, mulheres estendendo seus saris coloridos nos terraços e janelas. Crianças brincando enquanto as vacas caminham pelas ruelas tranquilamente entre pessoas e bicicletas, os homens abrindo suas vendinhas, muitos cozinhando nos seus carrinhos de comida e devotos indo aos templos.

A cidade é rodeada por um mercado medieval conhecido como Sardar Market onde é possível ver as pessoas fazendo trabalhos artesanais, vendendo pratas, roupas, vegetais, especiarias, oferendas e a vida praticamente acontece na rua, num ritmo totalmente diferente do que vivemos no Ocidente.

Acordamos cedo com os sinos dos templos que tocam as cinco da manhã. Muitas pessoas iam fazer as poojas ou pujas (ritual religioso), mas é necessário fazer a higiene pessoal, vestir-se bem e estar em jejum. As vozes também saiam dos minaretes das mesquitas, tomando conta de toda a cidade ressonando em forma de eco por todas as partes. Ao entardecer o ritual era o mesmo. Os cânticos que saiam das mesquitas envolviam toda Jodhpur num lindo entardecer.

A cidade esta rodeada por um forte situado numa colina a 125 metros sobre a cidade, uma das fortalezas mais majestosas de toda Índia, chamada Mehrangarh. O nome vem do sânscrito Mihir (sol ou divindade solar) e Garh (forte) traduzindo: Forte do Sol.

Construído no ano de 1459 pelo reinado de Rao Jodha, fundador da cidade de Jodhpur, está rodeado por paredes imponentes e grossas. Dentro existem muitos pátios, possui também um museu com uma rica coleção de armas e até canhões originais, trajes, obras de artes como pinturas e esculturas, instrumentos musicais e uma coleção de turbantes.

Dentro daquele patrimônio era possível ver a decoração dos quartos que datam daquele período. Apesar da construção ser do ano de 1459 , partes da fortaleza datam da época de 1638. Essa fortaleza protege alguns dos palácios mais bonitos e históricos do Rajastão.

Existem 7 portas de entradas para essa local, cada uma construída para celebrar uma vitória. A última delas chamada Loha Pol, construída como acesso principal do forte na qual ainda conserva as marcas das mãos das mulheres que através de uma prática Sati ou Suttee eram queimadas na fogueira, junto ao marido falecido.

Antes de serem jogadas na fogueira junto ao corpo do marido, deixavam a marca de suas mãos no muro de acesso ao forte. A última prática Sati naquele forte foi no ano de 1843, onde uma média de 25 mulheres, esposas do Maraja Man Singh foram queimadas numa pira funerária. Atualmente essa prática é estritamente proibida pelas leis do estado Indiano. O Sati era uma prática que supostamente deveria ser voluntária, mas sabe-se que muitas mulheres foram forçadas a esse tipo de suicídio. Apesar da proibição, ainda hoje há relatos dessa prática, principalmente nos vilarejos mais rurais e afastados onde a alfabetização é menor e a devoção é maior. Uma das possíveis razões para o Sati forçado seria para impedir que a herança do marido ficasse com a esposa.

E assim começou nossas andanças pelo Estado do Rajastão, embarque nessa aventura!

Autor

Graziella Marasea Cebollero

Viaja o mundo a trabalho e com isso reúne diversas histórias e fotos que irá compartilhar com a gente.

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