Vida a bordo

Hoje compartilho um pouquinho da minha bagagem, dessa vida que levo entre a terra e o oceano, graças a uma curiosidade, inquietação e o não contentamento de estar num só lugar. Acabei me encontrando nas aventuras da vida; sim troquei a rotina da vida em terra por uma aventura em alto mar. Nunca havia sonhado em trabalhar num navio de cruzeiros, até que um dia a vida me deu uma pausa e foram quatro meses de molho num inverno inglês, recuperando-me de um acidente e tentando decidir, qual seria a próxima aventura.

Naquele período havia recebido a visita de uma amiga, que perguntou o que faria depois de recuperar-me. Eu não tinha muita certeza do que queria, mas sabia que seria algo diferente; como trabalhar num lugar onde pudesse falar diferentes idiomas, viajando, vivendo de temporadas, essa era a minha vontade. Dei uma pesquisada na internet e encontrei um blog de uma tripulante onde vi alguns de seus comentários e fotos trabalhando num navio, me encantei pela ideia do mundo dos barcos.

Essa grande amiga do mundo, que quando soube da vontade de trabalhar num navio, se dispôs a ajudar-me na elaboração do currículo, como aplicar-me através das paginas de companhia de cruzeiros, comentou sobre os cursos que deveria ter e quais eram os departamentos existentes a bordo. De todos os departamentos da área da hotelaria o que mais me identifiquei foi o das excursões. Lembrando que há alguns anos não havia tantas informações disponíveis como temos hoje em dia sobre trabalho em cruzeiros.

Recebi um telefonema pedindo para embarcar-me dentro de 15 dias, foi um momento de alegria, choque, frio na barriga, expectativas, tudo estava caminhando para a nova aventura acontecer.

Eu estava chegando quase no ultimo mês da recuperação quando recebi um email confirmando uma entrevista por Skype. Fui informada que o processo poderia ser um pouco demorado o que também tardaria em embarcar-me; mas de repente na mesma semana recebi um telefonema pedindo para embarcar-me dentro de 15 dias, foi um momento de alegria, choque, frio na barriga, expectativas, tudo estava caminhando para a nova aventura acontecer.

Contando aqui parece que tudo foi fácil (risos). Mas aí veio a parte estressante. Para embarcar é necessário ter cursos de Sobrevivência, Controle de Multidão e exames médicos. Na Inglaterra não havia muitas opções onde encontrar o curso disponível. Além do mais o preço dos exames e dos cursos era excessivamente caro e a maioria já reservados. Foi uma loucura inscrever-me para as aulas, já que era começo da primavera na Europa, onde muitos fazem os cursos para trabalhar nas temporadas de Iates. Os poucos lugares onde ofereciam as aulas já não tinham datas disponíveis a não ser uma lista de espera e foi dando um desespero, pois era embarcar ou não embarcar.

Busquei cursos até fora da Inglaterra na Espanha e Portugal… mas sem chance. Eu já não tinha certeza se conseguiria realizar essa aventura. Logo veio a questão financeira, pois eram muitos gastos para embarcar, cursos, exames, passagens, teria que fazer quase um contrato só para ter o retorno do investimento. Mas eu queria aquela experiência, fosse o preço que fosse (risos).

Foi uma semana de tentativas e buscas até que finalmente houve uma desistência e consegui fazer o curso. Posso dizer que a aventura havia começado desde a hora de encontrar o local e fazer a reserva para o curso e exames médicos necessários.  Os exames poderiam ser feitos somente numa cidadezinha rural no interior da Inglaterra, nem no mapa havia o endereço. Depois de ter todos os papéis necessários e os certificados na mão, finalmente havia chegado a hora de embarcar nessa grande aventura pelo mar!

Para quem nunca havia sonhado com a vida a bordo, até na hora de preparar as malas foi um quebra-cabeça, seriam seis meses de contrato e a companhia enviou um email com uma lista do que e necessário levar a bordo, a única coisa que pediam eram: meias, sapatos brancos e pretos, camisa e camisetas brancas e calca social preta. Pra marinheiro de primeira viagem, lendo o email parecia que nem pijama poderia levar, andaria somente de uniforme e depois de roupas pretas e brancas (risos). (Numa próxima oportunidade escrevo sobre as malas, que hoje em dia passou a ser minha casa).

Não havia ninguém de conhecido, nem outros tripulantes embarcando juntos, o único que havia eram pessoas mareadas, carregando bolsinhas de vômitos e as ondas pulando na janela.

Com os voos na mão, hora de começar a concretizar a aventura. Primeiro trajeto foi de Londres a Madrid com uma parada de 2 dias para reencontrar minha amiga do mundo, que me esperava com um cartazinho e um pirata desenhado. Próximo voo de Madrid a Cancun, depois um ônibus de Cancun a Playa Del Carmen e um ferryboat de 2 horas a Ilha de Cozumel, México. Já era tarde da noite e dentro desse ferryboat foi onde o friozinho na barriga ficou ainda mais intenso. Não havia ninguém de conhecido, nem outros tripulantes embarcando juntos, o único que havia eram pessoas mareadas, carregando bolsinhas de vômitos e as ondas pulando na janela. Naquele momento eu já não sabia o que me esperava, era uma mistura de todos os sentimentos de novo, adrenalina, ansiedade, cansaço, alegria, saudades, dúvidas e vontade de chorar…

Durante a navegação eu me fixei olhando através da janela, observando as ondas saltando, pois elas passariam a fazer parte da minha história. Na escuridão da noite comecei a ver umas luzinhas amarelas, pareciam uma gigante árvore de Natal deitada no mar. Aquelas luzes amarelas foram ficando cada vez mais próximas e maiores até que elas se tornam muitas janelas e o reflexo delas no mar.

Ao desembarcar, fui caminhando deslumbrada em direção a minha primeira casa fora da terra, chamada Pacific Dream. Era impressionante vê-la toda iluminada, e como tamanha construção poderia flutuar!

Seguiremos nossa viagem através da minha bagagem na próxima semana.

Autor

Graziella Marasea Cebollero

Viaja o mundo a trabalho e com isso reúne diversas histórias e fotos que irá compartilhar com a gente.

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