Amor paliativo: ‘Padre Jô’ leva conforto para doentes que estão em fase terminal

Padre Josirlei Aparecido da Silva, capelão da Arquidiocese de Ribeirão-Preto realiza trabalho no Hospital das Clínicas (HC).

Atuando na ala dos cuidados paliativos, ele procura deixar a morte menos dolorosa dando uma palavra amiga aos pacientes que já estão em estado terminal. Durante todos esses anos que está realizando o seu trabalho frente ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto tem colecionado emoções, alegrias, histórias e muita fé.

O jornalista Gustavo Simões pôde acompanhar esse trabalho e conversou com o padre Josirlei, que também utiliza muito as redes sociais para ficar perto dos fiéis e sempre passar mensagens positivas e motivacionais.

Desde 2009, o Padre Josirlei está atuando na área de cuidados paliativos do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto
Foto: Arquivo Pessoal

Cuidados Paliativos

Quando vim para Ribeirão-Preto para ser vice-Reitor, o Bispo, na época, Dom Arnaldo me disse: “você vai ser o capelão da unidade de emergência”. E eu fui. Tive apoio da assistente social, de uma enfermeira e de um médico. Eles foram fazendo eu entender o que estava fazendo ali. Com o tempo fui ficando apaixonado e não larguei mais. Fui imposto para esse trabalho e hoje faço isso com a maior alegria, identifiquei-me demais.

Nos cuidados paliativos, quem me convidou foi o Dr. Antônio Pazin Filho, que me entregou um texto nas mãos explicando o que era cuidados paliativos.

Li o texto e não entendi muita coisa, conversei com o Bispo e resolvi participar, porque o médico confiou em mim. Desde 2009, estou nos cuidados paliativos.

Primeira vez que chorou

Teve um caso em que entrei na CTI (Centro de Terapia Intensiva) e lembrei de uma passagem bíblica de Jesus na cruz, já no ápice, admitiu os pregos, pendurado e com febre vendo as pessoas ao seu redor e sabendo que iria morrer. De repente, ele grita: tenho sede. A paciente me disse: “tenho sede, eu tenho sede”. Sabemos que o paciente quando está nessa fase pode tudo o que deseja, só que ninguém oferecia água para ele, é uma coisa simples… Aí eu saí correndo e comecei a chorar. Imediatamente, liguei para uma enfermeira que é dos cuidados paliativos e disse: “olha vem aqui que tem uma situação que está me incomodando”.

Ela percebeu que eu estava chorando e me disse: “Padre, o senhor podia ter pegado a água também e só dar a sensação de água na boca dela”. Na hora, fiquei tão impactado que o raciocínio não vinha. Essa foi a primeira vez que eu chorei, e lembrando dessa passagem bíblica de Jesus na cruz, ele teve sede e nossos pacientes também têm, não somente sede de água mais também sede de tantas outras coisas.

Foto: Divulgação

Histórias marcantes

Conheci um menino chamado Isac, ele tinha um encurtamento e já faleceu. Quando o conheci, a perspectiva de vida dele era pouca. Chegando ao quarto, ele estava com um boneco do Patatá. Ele não conhecia o padre, só conhecia o Patatá. Ele tinha 6 anos.

Saindo dali, fui até o banco e conversei com minha gerente ela disse que tinha o telefone do produtor do Patati Patatá e me deu o número.

Eles vieram até o hospital e fizeram “uma bagunça” no bom sentido. Os médicos viraram crianças, o porteiro até dançava e pensei comigo “olha que engraçado como o desejo de um contagia muitas pessoas”. A partir daí conheci o Patati Patatá. Nesse dia eu virei fã deles, porque eu cresci com Balão Mágico, não com eles.

O Isac, quando os viu, chorava, balançava e não tinha um que não se emocionava no hospital. Foi aí que percebi que poderia fazer algo a mais pelos pacientes. Esses pedidos dos pacientes nascem de uma conversa. Eu ouço, se tiver ao meu alcance, eu faço, mas se não conseguir, não fico frustrado, porque nunca prometo nada.

Atuando na ala dos cuidados paliativos, Padre Jô, procura deixar a morte menos dolorosa dando uma palavra amiga aos pacientes
Foto: Gustavo Simões

Outras Religiões

Quando entrei no hospital sabia que teria que ser capelão e atender à comunidade católica. Mas eu era o único reconhecido pela unidade de emergência e tinha que abrir portas para outras crenças. Então os pacientes me falavam: “eu sou evangélico”. Então eu ligava para o pastor da igreja e dizia: “tem um irmão seu aqui”, e pedia que viesse até o hospital. Com isso, fomos criando parceiros e tendo parcerias, por isso não tenho dificuldade.

Tivemos um menino aqui que era da Congregação Cristã, então combinei de passar a madrugada com ele assistindo Netflix. Brinco que temos que olhar além do muro, pois existem tantas coisas bonitas. Se eu parar no muro penso que só minha igreja salva, quem salva é Deus, a minha igreja tem o intuito de ajudar.

Se Deus permitiu que existisse um luterano, presbiteriano, neopentecostal, Ele permitiu para que nós vivêssemos entre irmãos.

Nós aqui somos uma família e dentro do hospital nós não podemos doutrinar, a salvação se dá mediante ao amor de Cristo através de nós. Aqui criou-se uma rede, a relação minha com os pastores, com os espíritas e da coragem da psiquiatra Dra. Catalina Camas Cabrera, nós somos uma Liga da Justiça, uma rede de apoio espiritual dentro do Hospital das Clínicas.

*Matéria inicialmente publicada no “Jornal do Ônibus”, em 2019, com adaptações e atualizações realizadas em 2020.

Gustavo Simões

Estudante de Jornalismo

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