“O primeiro Santo da Igreja foi um prisioneiro”: Padre Rafael fala sobre fé, perdão e missão na Pastoral Carcerária
Para o padre Rafael Ribeiro, levar fé e esperança aos presídios é mostrar que a salvação é para todos.
Natural de Guará, onde recebeu os primeiros sacramentos, o padre Rafael Carlos dos Santos Ribeiro mudou-se ainda na infância para Ribeirão Preto, após seu pai ser aprovado em concurso público dos Correios. Desde cedo alimentava o desejo de ser sacerdote e contou com a orientação do Pe. Querino, da Paróquia São Judas Tadeu, que o acompanhou no discernimento vocacional. Em 2010, participou de seu primeiro encontro vocacional e, no ano seguinte, ingressou no Seminário São José (Propedêutico). Seguiu a formação no Seminário Maria Imaculada, em Brodowski, até ser ordenado diácono em 31 de maio de 2019 e sacerdote em 9 de dezembro do mesmo ano.
“Sempre tive o desejo de ser padre. Sendo assim, externei este desejo para o Pe. Querino, padre da paróquia São Judas Tadeu em Ribeirão Preto. Ele me acompanhou e me orientou ajudando no discernimento vocacional”, conta.

Foto: Arquivo Pessoal
Hoje pároco da Paróquia Nossa Senhora do Jubileu – Mãe da Divina Graça, em Ribeirão Preto, tem dedicado parte essencial de seu ministério à Pastoral Carcerária, atuando também como coordenador e capelão arquidiocesano, acompanhando de perto a realidade de oito unidades prisionais da região, que reúnem mais de 8,7 mil detentos.
Durante o tempo de seminário, mais precisamente em 2013, Pe. Rafael conheceu o Pe. João Ripoli, que já atuava no cárcere e testemunhava a alegria de estar junto aos detentos. A convivência com ele foi decisiva. “No primeiro ano da teologia, tínhamos de escolher uma pastoral arquidiocesana. Isso faz parte do plano formativo. Falei, então, com o Pe. Pitico, reitor do seminário, e demonstrei o desejo de fazer parte da pastoral carcerária. Desde então, nunca mais saí”, relembra.
Ao falar sobre sua missão junto às pessoas privadas de liberdade, ele recorda a passagem bíblica de São Lucas (23,43), quando Jesus, na cruz, promete ao ladrão arrependido, São Dimas, que ainda naquele dia estaria com Ele no paraíso. Para o Pe. Rafael, essa é a prova de que a salvação é oferecida a todos, sem exceção. “O primeiro santo da Igreja foi um prisioneiro”, destaca.
Nesse sentido, ele afirma que sua missão no cárcere é justamente anunciar o Evangelho aos detentos, levando-lhes a certeza de que Jesus veio para todos.
“Minha missão no cárcere é levar o Evangelho para todas as pessoas privadas de liberdade, na certeza de que Jesus veio para todos”, afirma.

Hoje, como capelão, sua principal função é prestar assistência espiritual e ministrar os sacramentos. Afirma que ele e os agentes já celebraram batismos, primeira eucaristia, confissões e crisma dentro das unidades, e revela como é emocionante ver como a fé toca profundamente a vida deles.
A Pastoral Carcerária enfrenta hoje desafios significativos na arquidiocese, composta por oito unidades prisionais. A maioria delas opera acima da capacidade, exceto a penitenciária feminina, e, segundo dados recentes da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), a região abriga 8.751 detentos. O padre cita a escassez de agentes pastorais. As visitas acontecem pela manhã, durante a semana. Nem todos conseguem disponibilidade nesse horário, o que dificulta o acompanhamento. Mesmo assim, é possível criar em alguns raios, grupos de presos, que rezam o terço, se reúnem para fazer a leitura do evangelho, mantendo viva a chama da fé.
A realidade, segundo ele, exige também um olhar para além dos muros. Muitos egressos saem sem documentação ou apoio. “Existe ainda muito um preconceito. A frase que mais ouvimos é: ‘Saiu da cadeia, não presta’. Mas todos têm direito de recomeçar. Na nossa arquidiocese, a ONG Franz de Kastro ajuda os egressos a organizar papéis, conseguir emprego e se reinserir na sociedade. Isso é fundamental”, destaca.

Foto: Arquivo Pessoal
Pe. Rafael acredita que superar o preconceito contra pessoas privadas de liberdade exige olhar para a humanidade de cada indivíduo, reconhecendo que todos cometem erros. Ele lembra a passagem bíblica da mulher pega em adultério (João 8,3-11) e lembra que muitas infrações cotidianas poderiam gerar julgamentos semelhantes. Segundo ele, é preciso agir com misericórdia e compaixão, considerando o contexto social que muitas vezes leva à criminalidade, e buscar sempre resgatar a dignidade da pessoa humana.
Ao longo de sua missão, o sacerdote acompanhou histórias que considera verdadeiros testemunhos de santidade. Uma delas é a de um padre da arquidiocese, Pe. Gisberto, que perdoou o assassino de seu próprio pai. Outra, de uma mulher que decidiu visitar e adotar como filho o homem responsável pela morte do seu. “Sempre que recordo dessas histórias, me emociono. São exemplos de perdão que só a fé torna possíveis”, reflete.
Para ele, a presença da Igreja nos presídios tem impacto direto no comportamento e na esperança dos detentos, pois eles anseiam pela visita religiosa. Querem aprender a rezar o terço, pedem para confessar, perguntam quando será a próxima missa. A fé faz diferença concreta: muda atitudes, dá força para recomeçar. Os diretores de penitenciárias também confirmam esse efeito, e afirmam que, quando há assistência religiosa, os presos se transformam, ficam mais serenos, mais esperançosos, o que demonstra a fé como uma chave de transformação.

Foto: Arquivo Pessoal
Padre Rafael destaca, ainda, que há muitos mitos em torno da realidade carcerária. Um dos mais comuns, segundo ele, é a ideia de que pessoas com ensino superior ficam em celas separadas. Na prática, os detentos são divididos de acordo com o tipo de crime, ou seja, pelo artigo em que estão respondendo. Ele cita como exemplo a Penitenciária de Serra Azul II, localizada no território da Arquidiocese, destinada exclusivamente a presos condenados por crimes ligados a questões morais, como pedofilia, estupro, descumprimento de pensão alimentícia e casos relacionados à Lei Maria da Penha.
Hoje a arquidiocese integra o projeto “CAPACITA em Rede”, juntamente com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que tem por objetivo a qualificação profissional para o mercado de trabalho. Em Ribeirão Preto, através da Pastoral Carcerária, existe uma parceria com um grupo de apoio que dá formação para os presos na penitenciária masculina de Ribeirão Preto. Hoje já foi implantada uma horta para o próprio sustento deles, uma iniciativa que deve ser levada também para a unidade feminina.
Quanto a iniciativas de formação para agentes de pastoral, o padre destaca que existe uma formação permanente para os agentes da Pastoral Carcerária. Os encontros acontecem toda última quinta-feira do mês e são voltados à capacitação dos voluntários, com subsídios específicos da pastoral. Além disso existe a preocupação em manter unidade com as coordenações nacional e estadual, garantindo constante atualização para que os agentes possam atuar com preparo e eficácia junto à pastoral.

Foto: Arquivo Pessoal
Quando perguntado sobre mudanças necessárias no sistema prisional, Pe. Rafael ressalta: “Sou contra o sistema prisional e defendo um mundo sem cárcere. Precisamos cuidar da pessoa antes que ela se torne um ‘criminoso’, e isso é possível por meio da educação. Também é necessário tratar as fragilidades individuais. Se alguém tem problemas com drogas, não basta jogá-lo na cadeia e esquecê-lo lá; é preciso encaminhá-lo para casas de recuperação. Se a pessoa bebeu e agrediu alguém, é necessário buscar tratamento para o alcoolismo. Se enfrenta dificuldades psíquicas ou psiquiátricas, o governo deve oferecer cuidados adequados. Dentro da penitenciária não existe estrutura para uma verdadeira mudança de vida. A transformação depende do esforço de cada um, mas a Pastoral Carcerária está presente para evangelizar e ajudar a resgatar a dignidade desses irmãos privados de liberdade”.
Ele reconhece que a reinserção de egressos na sociedade é um grande desafio, mas lembra que já existem iniciativas positivas, como uma empresa de Ribeirão Preto que emprega exclusivamente ex-detentos. Para ele, se houvesse mais apoio e incentivos do governo a empresas públicas e privadas, a geração de empregos seria um caminho concreto para a verdadeira reintegração social daqueles que deixam o cárcere.
Padre Rafael é grato pela ajuda que recebe do arcebispo Dom Moacir Silva, sempre atuante e presente no apoio à Pastoral Carcerária, visitando as penitenciárias, celebrando missas, atendendo confissões e incentivando o trabalho de evangelização e a missão junto às pessoas privadas de liberdade.

Foto: Arquivo Pessoal
Inspirado pelo Papa Francisco, que já celebrou missas em presídios e anunciou a abertura de uma Porta Santa no cárcere durante o Jubileu de 2025, o padre deixa uma palavra final para detentos, famílias e comunidade cristã: “Que essa população nunca perca a esperança. Em meio a tantas tristezas e lágrimas, precisamos acreditar na justiça e no perdão. A Pastoral Carcerária está aqui para ajudar e caminhar junto. O primeiro santo da Igreja foi um prisioneiro, São Dimas, que do alto da cruz recebeu a promessa de estar no paraíso com Cristo. Que ele rogue por todos nós.”

