Uso de testosterona sem necessidade pode causar problemas cardíacos e infertilidade

Banalização do hormônio para fins estéticos cresce impulsionada pelas redes sociais e já é tratada como questão de saúde pública.

A busca pelo chamado “corpo perfeito” e por resultados rápidos na academia tem levado cada vez mais homens ao uso de testosterona e anabolizantes sem indicação médica. O fenômeno, impulsionado pelas redes sociais e pela cultura da performance física, preocupa especialistas por expor pessoas a riscos que vão muito além da estética.

O debate ganhou visibilidade recentemente após relatos públicos de artistas como Eduardo Costa e Gusttavo Lima sobre a interrupção do uso de hormônios após impactos na saúde. Para médicos, os casos ajudam a chamar atenção para um problema que vem crescendo silenciosamente.

Segundo posicionamento da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos, ganho de desempenho esportivo ou antienvelhecimento não possui respaldo científico e deve ser considerado um importante problema de saúde pública. Estimativas internacionais apontam que cerca de 3,3% da população mundial já utilizou essas substâncias, percentual que pode chegar a 18,4% entre praticantes de atividades esportivas recreativas.

Além disso, a dependência pode atingir até 57,1% dos usuários, enquanto estudos citados pela entidade indicam que pessoas que utilizam anabolizantes apresentam taxa de mortalidade até três vezes maior do que a população geral.

Para o urologista, uro-oncologista e cirurgião robótico Luís César Zaccaro, a banalização da testosterona tem contribuído para uma falsa percepção de segurança.

“A testosterona virou quase um produto de lifestyle, e isso é preocupante. Existe hoje uma banalização muito grande do uso hormonal, principalmente impulsionada pelas redes sociais e pela busca de resultado rápido, estético ou de performance. O problema é que testosterona não é suplemento. É hormônio. E hormônio mexe com o corpo inteiro”, afirma.

Segundo ele, o uso sem indicação e sem acompanhamento adequado pode provocar consequências graves.

“Quando usada sem indicação médica, a testosterona pode aumentar o risco cardiovascular, favorecer trombose, elevar o hematócrito, causar alterações hepáticas, acne, alterações de humor e impactar diretamente a fertilidade e a função hormonal natural do homem”, explica.

Dr. Luís César Zaccaro é urologista, uro-oncologista e cirurgião robótico
Foto: Divulgação/Fabio Di Felippo

Reposição hormonal tem indicação específica

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) esclarece que a terapia de reposição hormonal possui indicação para homens diagnosticados com Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM), condição caracterizada pela redução dos níveis de testosterona acompanhada de sintomas clínicos específicos.

A deficiência hormonal pode atingir entre 15% e 20% dos homens acima dos 50 anos, embora a queda da produção de testosterona possa começar a partir dos 40 anos. Entre os sintomas estão redução do desejo sexual, dificuldade de ereção, perda de massa muscular, aumento da gordura corporal, fadiga, irritabilidade e diminuição da capacidade de concentração.

O diagnóstico exige avaliação médica e confirmação laboratorial. A reposição é considerada um ato médico e deve ser realizada apenas após investigação adequada, respeitando contraindicações e monitoramento periódico.

“Nem todo homem cansado ou com queda de libido precisa de testosterona. Muitas vezes o problema está relacionado a sono inadequado, obesidade, sedentarismo, estresse ou ansiedade. Tratar tudo como testosterona baixa é um erro que estamos vendo com frequência cada vez maior”, alerta Zaccaro.

 

Fertilidade também pode ser comprometida

Um dos efeitos menos conhecidos do uso indiscriminado de testosterona é o impacto sobre a fertilidade masculina. De acordo com a SBEM, o abuso prévio de anabolizantes é atualmente a principal causa de hipogonadismo em homens jovens, sendo responsável por 43% dos casos.

“O que muita gente desconhece é que, quando o homem usa testosterona ou anabolizantes, o cérebro entende que o corpo já possui hormônio suficiente e reduz a produção natural pelos testículos. Isso pode levar à diminuição do volume testicular, queda importante da produção de espermatozoides e infertilidade”, explica o médico.

Segundo ele, é comum encontrar pacientes jovens que desejam ter filhos e descobrem alterações importantes na fertilidade após o uso prolongado dessas substâncias.

“Não é raro vermos homens chegando ao consultório com espermogramas bastante alterados por conta desse uso. E existe um paradoxo curioso: substâncias usadas para melhorar desempenho físico e sexual podem acabar causando perda de libido e até disfunção erétil depois de algum tempo”, comenta.

Uso de testosterona sem indicação e sem acompanhamento adequado pode provocar consequências graves
Foto: Divulgação

Problema vai além da estética

Além dos impactos hormonais e reprodutivos, o uso abusivo de testosterona e anabolizantes está associado a hipertensão, alterações do colesterol, aumento da coagulação sanguínea, arritmias, insuficiência cardíaca, hepatotoxicidade, distúrbios psiquiátricos, dependência química e morte súbita.

Para Zaccaro, o crescimento do problema exige uma discussão mais ampla.

“Hoje vemos adolescentes, homens jovens e até pessoas sem qualquer deficiência hormonal utilizando testosterona de maneira recreativa. Existe uma pressão estética muito forte e as redes sociais ajudam a vender a ideia de que existe uma solução simples e rápida para tudo. Mas estamos falando de aumento do risco cardiovascular, infertilidade, dependência hormonal e problemas psiquiátricos. Não é mais uma discussão estética. É uma discussão de saúde pública”, alerta.

O especialista destaca que hábitos saudáveis continuam sendo a principal estratégia para preservar a produção hormonal natural ao longo da vida.

“Alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos, controle do peso, sono adequado e acompanhamento médico permanecem como as medidas mais seguras para a manutenção da saúde masculina”, finaliza Zaccaro.

Da Redação

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