Índia: Agra, Taj Mahal, Orchha e o terceiro gênero

Deixamos o Estado do Rajastão, a sensação era de ter encerrado o capítulo de um livro de contos, no qual fizemos uma viagem com várias aventuras por terras de reis, marajás, passando por cidades com seus majestosos fortes, palácios, um passado rico, turbulento, romântico e de cultura vibrante.

Agra

Começamos aqui um outro capítulo, viajamos até o Estado de Uttar Pradesh, o Estado mais populoso do mundo com mais de 200 milhões de habitantes, também o mais sagrado e místico da Índia. Se esse Estado fosse um país seria o quinto mais populoso do mundo.

Em Uttar Pradesh se localiza a cidade de Agra, situada às margens do rio Yamuna, um destino para contemplar mais um pouco o encanto e história desse país. Ali está o majestoso monumento, convertido no maior orgulho da cidade, o Taj Mahal, um símbolo da rica história da Índia.

Agra foi capital do Império Mongol, a cidade foi fundada entre 1501 e 1504 por Sikandar Lodi, um sultão de Delhi que a converteu em capital.

Para chegar até esse destino utilizamos ônibus, após muitas horas de estrada chegamos ao destino. Ao desembarcar, nos deparamos com uma uma cidade bem suja, barulhenta, nada encantadora. Muita pobreza e o céu acinzentado de tanta poluição.

Um complexo de edifícios construídos entre 1632 e 1653 por um imperador muçulmano Shah Jahan como mausoléu para sua esposa favorita, Mumtaz Mahal que faleceu durante o parto. O edifício combina uma arquitetura Mongol, com elementos da arquitetura Islâmica, Persa e Indiana. São 17 hectares de construção, incluindo uma grande mesquita, casa de convidados e jardins. É considerado uma jóia da arte Muçulmana na Índia.

Foram duas décadas de construção. O Imperador escolheu os melhores construtores, pedreiros, artesãos, bem como as melhores jóias e pedras preciosas como o lapislazuli, malaquitas, turquesas, coralinas. Tudo parecia ser pouco para o lugar de repouso de sua amada.

Para a construção desse monumento foram necessários cerca de 20.000 homens e mais de 1.000 elefantes e uma vez finalizado o trabalho segundo a lenda, mandaram cortar as mãos dos arquitetos e artesãos para que nunca pudessem desenhar e reproduzir uma obra igual em nenhum outro lugar.

A melhor maneira de descrever aquele monumento seria dizer que é uma poesia escrita em forma de arquitetura, em mármore branco, uma obra sublime que só uma alma apaixonada seria capaz de oferecer ao mundo.

Ali admiramos a silhueta do impressionante mausoléu, sua simetria, e como se uma chave dourada abrisse caminho ao templo de mármore, entre flores de lotus que flutuam sobre suas águas. Passear pelos jardins simétricos, coloridos, é algo atraente que te leva a querer tocar com suas próprias mãos as parades de mármore para descobrir que não é um sonho!

Viver na mochila cansa, havíamos feito uma viagem longa para chegar em Agra, não tivemos tempo suficiente para descansar e no dia seguinte às 5 da manhã já estávamos de pé para ir ao encontro da tão esperada parte dessa viagem. O melhor horário para visitá-lo é bem cedinho, quando ainda não há muitos turistas e é um dos melhores momentos para sonhar acordada vendo o sol banhar com seus raios aquele monumento construído em forma de poesia, fruto de uma bela história de amor!

Orchha

Três noites foram o suficientes para estar em Agra, e seguimos em direção a Orchha, uma cidade que não fazia parte do nosso roteiro, mas ao conhecer outros viajantes, nos recomendaram passar por ela.

Se trata de um pequeno vilarejo medieval, no Estado de Madhya Pradesh, localizado no coração da Índia. A cidade está localizada ao lado do rio Betwa, escondida entre florestas e bosques, uma cidade fortificada e de muitos castelos. Foi fundada em 1501 por um chefe da dinastia Bundela.

Orchha tem 10.000 habitantes, é um lugar tranquilo, parecia ter parado no tempo. Essa cidade é um destino turístico dos indianos, raramente víamos turistas por lá.

Os monumentos se encontram um pouco abandonados, mas isso é o que dá um toque especial à cidade, a qual parece ter sido recém descoberta.

Andando pelas ruas, as pessoas nos saudavam e sorriam, sem ter aquela sensação de todo o tempo quererem te vender algo. Foi um momento de tranquilidade e também integração com as pessoas que ali vivem. Além de visitar seus castelos e palácios, como o Jehangir Mahal, Raj Mahal passávamos o tempo observando e conversando com as pessoas. No templo chamado Ram Raja, víamos como eles mantém a crença e a religião tão viva e presente em suas vidas.

Hijra – terceiro gênero

Do lado de fora do templo, enquanto havia o ritual no interior, também tinha um grupo de pessoas e Sadhus (monges andarilhos) que sempre estavam sentados ali tocando seus típicos instrumentos e logo as mulheres chegavam para dançar, e todos se aglomeravam para assistir.

Naquela noite nos sentamos com aquelas pessoas, nos deram instrumentos de percussão para tocar com eles. A minha companheira de viagem, Gi, se colocou a dançar também. Não entendíamos muito o que celebravam, mas nos deixamos levar pela magia das pessoas e do lugar. No final nos demos conta de que as mulheres dançarinas, na verdade eram transgêneros. Já havíamos visto algumas nos trens, que sempre passavam vestidas em seus saris, em silêncio, batiam palma como forma de mendigar dinheiro.

Elogiamos como dançavam e, em seguida, fomos convidadas a ir em sua casa, assim que começou nossa aventura. Rosnie, assim se chamava, nos levou em sua Scooter, éramos três numa moto. Nossas vidas estavam em suas mãos…

Chegamos em sua casa, num povoado próximo e ela nos apresentou os vizinhos. Rosnie que vivia num quartinho, bem simples, nos convidou a entrar e tudo o que tinha era uma cama de madeira sem colchão. Num cantinho havia também um armário para guardar alimentos e utensílios de cozinha e no chão um fogãozinho à gas e jarros pra armazenar água.

Pediu para que nos sentássemos em sua cama, mas queríamos sentar no chão como ela. Forrou o chão com um carpete e ali passamos algumas horas conversando.

Rosnie, aos 20 anos de idade, teve que sair de casa por ter assumido ser Hijra (membro de um terceiro sexo) aqui as pessoas dizem que são “no boy, no girl but third gender” (nem menino ou menina, mas terceiro gênero). No entando, era casada e tinha dois filhos quando tomou essa decisão. Nos dizia que ao assumir-se como Hijra  teve que deixar a casa, a família e os filhos. Não é fácil ser transexual nesse país, muitos não podem trabalhar, restando ganham a vida dançando e/ou se prostituindo.

Os Hijras na antiguidade formavam um papel importante na vida cotidiana da Índia. Desfrutavam de um reconhecimento social ao longo da história, até mesmo durante a época do Império Mongol elas exerciam papéis de cuidadoras dos filhos de Imperadores, mas com a chegada do Império Britânico e suas estritas normas morais, os Hijras foram condenados e excluídos da sociedade.

Sem embargo, sua influência nas classes populares seguem sendo evidentes até hoje, creem que os Hijras possuem o poder de abençoar ou amaldiçoar as pessoas, impedindo até a fertilidade. Geralmente elas são requeridas para bailar em celebraçoes de nascimentos e casamenos e até para celebrar uma inauguração ou livrar pessoas de maus olhados.

E em troca recebem oferendas. Todos tem um especial cuidado com isso, já que uma oferenda pode resultar numa maldição. Os poderes mágicos que tem esse terceiro gênero despertam temor ou admiração numa cultura tão supersticiosa que é a indiana.

Atualmente os Hijras se organizam em casas, são orientadas por uma Nayak (uma Hijra mais experiente ou mais idosa) que lhes protege e as representa. Elas tem aulas de canto, de dança e diversos rituais mágicos, também desfrutam do reconhecimento das pessoas do bairro.

Compartilhamos um bom par de horas com Rosnie, e com ela pudemos ter uma noção de como é ser um transexual na Índia. Ela é uma pessoa muito engraçada, simpática e cheia de energia. Ao terminamos o jantar, pedimos a ela para nos acompanhar até o lado de fora do templo para dançar. Ela nos levou de volta e um pequeno encontro entre Sadhus e Hijras se armou…

Antes das nove horas da noite já começou a dizer que tínhamos que ir embora. Nos acompanhou ao hostel e dizia para não estarmos mais na rua aquela hora. A vida noturna em alguns lugares da Índia termina muito cedo, por isso a partir daquele horário não se via mulheres pelas ruas, somente homens, mendigos e vacas esparramadas pelas calçadas.

Nosso próximo destino semana que vem é Khajuraho cidade dos templos Kamassutras e a cidade conhecida como a pequena Varanasi, Chitrakoot.

Graziella Marasea Cebollero

Viaja o mundo a trabalho e com isso reúne diversas histórias e fotos que irá compartilhar com a gente.

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