A simples troca de cartas consegue envolver gerações

O Projeto “Cartas para o passado”, que envolve a troca de correspondências entre os estudantes do Ensino Fundamental e o grupo de alunos de alfabetização da Terceira Idade tem ganhado uma grande repercussão

As tradicionais cartas manuscritas ficaram de lado com o advento da tecnologia, isso porque as pessoas estão cada vez mais em busca da rapidez. Tudo se transformou em digital, ninguém mais fica ansioso para receber a visita do carteiro que sempre levou as cartas de amor aos apaixonados, as cartas de familiares distantes que as esperavam para “matar” a saudade, entre tantos outros motivos alegres e até mesmo tristes. Quantas pessoas até o ano 2000 não recebeu uma carta de amor? Essa nova geração pouco sabe o que é isso e muitos não sabem nem mesmo como se deve endereçar uma carta simples.

“Atualmente as pessoas estão bem mais ligadas a tecnologia, crianças, na maioria das vezes nem sabem como se deve escrever uma carta manuscrita, ou então endereça-la. Me lembro que muitos guardavam até os envelopes das cartas que recebiam, isso fazia com que lembrassem daquele momento único. Atualmente é tudo mais ‘mecanizado’, envia-se algo, por e-mail ou alguma rede social, e espera-se receber resposta em poucos minutos”, comenta a professora de alfabetização do Centro de Referência do Idoso (CRI) de Cravinhos, Maria José Muraqui (Zeza).

Imaginem um jovem de apenas oito anos, que está sendo alfabetizado, aprender a escrever uma carta, e depois se corresponder com uma pessoa, bem mais velha, mas que ele não tem nem ideia de como é fisicamente, e muito menos o que faz no dia a dia, mas que pode ter muito em comum com ele, pois ela também está sendo alfabetizada.

Foi pensando nisso que criou-se o Projeto “Cartas para o passado”, que nesse ano completou a sua 3ª edição (2015, 2016 e 2018) e envolve a troca de correspondências entre os estudantes do Ensino Fundamental, nesse ano da escola municipal “João Nogueira” e o grupo de alunos de alfabetização da Terceira Idade de Cravinhos, com a finalidade de melhorar o índice de desempenho dos alunos desenvolvendo as habilidades de leitura e produção de texto.

“Queremos propiciar o desenvolvimento de ações de interação a partir da correspondência escrita, assim proporcionando aos alunos observarem, perceberem, refletirem e estabelecerem laços afetivos através do uso da linguagem, ampliando, assim, sua visão de mundo”, relata a professora do projeto “Manifestações Artísticas” da escola João Nogueira, Viviane Nunes.

Inicialmente as professoras até pensaram em colocar as cartas nos Correios, entretanto acreditaram que para que eles pudessem trocar as correspondências de forma mais ágil, deviam elas serem os “carteiros” do projeto.

“Quando os idosos receberam as cartas foi muita emoção, porque tinham perguntas simples, mas muito sinceras de jovens que estavam se interessando pelo projeto. Fizemos a leitura das cartas juntos e cada um foi sendo orientado a responder”, afirma Zeza.

Pelo lado dos estudantes as cartas foram recebidas com surpresa, uma vez que muitos acharam que não era possível começar a conversar com uma pessoa mais velha, e ainda que estava sendo alfabetizada naquele momento.

“Os estudantes acharam que isso não era verdade, porque muitos não tem essa visão da realidade, que lá atrás esses idosos não tiveram possibilidade de estudar. Mas explicando e mostrando a importância da Educação em qualquer momento da vida, todos começaram a fazer diversas perguntas para as cartas que enviavam para os idosos”, comenta Viviane Nunes.

As professoras decidiram, portanto que as crianças e os idosos precisavam se conhecer pessoalmente, por isso marcaram uma grande festa que foi realizada na sexta-feira (09/11), no Centro de Referência do Idoso, em que os dois grupos se encontraram e tiveram que adivinhar com quem estavam se correspondendo.

“Existem momentos únicos e emocionantes na vida e esse foi um dos nossos, porque a satisfação de um tentando adivinhar quem era o seu ‘amigo secreto’ foi demais. Também quando se descobriram, se apresentaram, conversaram e muitos até trocaram telefones, então temos a certeza que essa amizade transcenderá os muros das duas escolas”, diz a professora Zeza.

No final os idosos foram presenteados com uma decoração de Natal, e as crianças receberam balas e doces. Os adolescentes ainda fizeram homenagens para os idosos, através de poemas que depois foram entregues a eles. E ainda todos puderam assistir diversas apresentações musicais e artísticas realizadas pelos estudantes da escola municipal “João Nogueira” e APAE de Cravinhos.

Kennedy Oliveira

É formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelas Faculdades COC (atualmente Estácio). É pós-graduado em Comunicação: linguagens midiáticas, pelo Centro Universitário Barão de Mauá.

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