Última Chamada: Orelhões são removidos das cidades
O ano de 2026 marca o fim de uma era no Brasil. Os orelhões, os famosos telefones públicos que chegaram a ser um símbolo nacional, começaram a ser retirados definitivamente das ruas de todo o Brasil.
Quem anda pelas cidades do Brasil e tem mais de 40 anos tem sentido a falta de um aparelho que foi a sensação por décadas em diversos locais públicos. Procurado por jovens, adultos e idosos para dar notícias, marcar reuniões e matar a saudade das pessoas, os telefones públicos, ou popularmente conhecidos por “orelhões”, começaram a ser removidos definitivamente em janeiro deste ano. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o objetivo é a retirada de 30 mil orelhões ainda esse ano em todo o território brasileiro.
“O processo ocorre após o encerramento dos contratos de concessão de telefonia fixa das cinco operadoras, desobrigando-as de manter essa infraestrutura nas ruas. A determinação é que o dinheiro gasto com os orelhões deve ser migrado para redes de internet e banda larga”, afirma comunicado divulgado pela Anatel.
Ainda segundo o texto: “cerca de 8 mil aparelhos continuarão funcionando temporariamente até o final de 2028 em municípios e localidades que ainda não possuem cobertura adequada de sinal de celular”.
O “orelhão” surgiu em 1971, através da criação da arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Inicialmente eles tinham outros nomes, como “Chu I” e “Tulipa”. E depois do Brasil as cabines telefônicas começaram a ser reproduzidas em outros países, como por exemplo, Angola, China, Moçambique e Peru.

Foto: Kennedy Oliveira
Dados da Anatel mostram que, em 2020, o Brasil ainda tinha cerca de 202 mil “orelhões” nas ruas.
No município de Cravinhos, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações, em janeiro de 2026 existiam 27 orelhões, todos da concessionária Telefonica, mas eles foram sendo retirados, inclusive dois icônicos que estavam na Praça Central da cidade e já faziam parte do ambiente do local.
“Realmente tínhamos dois orelhões aqui na Praça Central de Cravinhos e eles foram removidos, deixando um sentimento de nostalgia para quem conviveu muito tempo com esses aparelhos”, revela a dona de casa, Luiza Gonçalves, 69 anos.
Mesmo caminhando para o fim, o orelhão voltou a chamar atenção em 2026, porque está no cartaz do filme brasileiro “O Agente Secreto”, que ganhou Globo de Ouro e ainda disputou o Oscar.

Foto: Divulgação
Orelhão sai de cena, mas deixa expressão
Conforme comunicou a Anatel, até em 2028 não haverá nenhum orelhão nas cidades brasileiras, entretanto a expressão “caiu a ficha” ficará como o maior legado desses aparelhos que conectou diversas pessoas ao redor do mundo.
Foi através das fichas telefônicas que eram colocadas nos orelhões, que surgiu a expressão que atravessa gerações: “caiu a ficha”. Por analogia, o “cair da ficha” passou a representar o exato momento em que a informação se conecta na mente e a pessoa finalmente entende a realidade dos fatos.
Formato diferente
Além de diferente, o formato do orelhão tinha uma justificativa funcional: a qualidade acústica. O som entrava na cabine e era projetado para fora, diminuindo o ruído na ligação e protegia quem falava do barulho externo.

Foto: Kennedy Oliveira
Da ficha ao cartão telefônico
As fichas metálicas, eram as moedas da comunicação, e podiam ser compradas em bancas de jornal, padarias e farmácias. Muitas vinham embaladas em cartelas de papel, com valores que mudavam constantemente acompanhando a hiperinflação dos anos 1980 e início dos 1990.
Para fazer uma ligação, a pessoa colocava a ficha no aparelho e iniciava a chamada. Dependendo da duração da ligação e do sistema utilizado, era necessário colocar mais fichas. Por isso, era comum as pessoas carregarem algumas delas no bolso ou na carteira para garantir que conseguiriam completar a conversa.

Foto: Divulgação
Com o passar do tempo, o sistema de fichas começou a ser substituído por uma tecnologia mais prática: o cartão telefônico. Em vez de levar várias fichas, o usuário podia comprar um único cartão com determinado número de créditos e inseri-lo no orelhão.
Os cartões trouxeram mais praticidade e também ajudaram a modernizar os telefones públicos. Eles passaram a ser produzidos com diferentes valores, estampas e temas, tornando-se até mesmo objetos de coleção.

Foto: Divulgação
Assim, a história dos orelhões acompanhou as mudanças tecnológicas: das antigas fichas metálicas aos cartões telefônicos, que marcaram uma época e fizeram parte do cotidiano de milhões de brasileiros antes da popularização dos telefones celulares.

