Pra que música?

A música está presente na nossa vida diária de maneira intensa, constante e muitas vezes nem temos plena consciência dela

A música está no rádio, nos shows, nos bares e restaurantes, nos programas de TV, nos filmes, festas, eventos, nas propagandas, nos jogos eletrônicos e celulares, enfim, a música está presente na vida de todo ser humano no dia a dia, quer nos demos conta disso ou não.

O fato é que é quase impossível datar quando teve início a existência da música enquanto linguagem expressa através de melodia, harmonia, ritmo e timbre, tal como a conhecemos hoje.

Numa conversa sobre música fui indagado pela pessoa com quem dialogava com as seguintes perguntas: “Quando surgiu a música?” e “Quem inventou a música?”. Essas são questões para as quais é quase impossível obter uma resposta de forma precisa, mas sem dúvida são questionamentos que trazem uma interessante reflexão.

As primeiras manifestações musicais são pré-históricas. Algumas fontes falam em manifestações musicais do homem pré-histórico de mais de 40.000 anos atrás, imitando sons da natureza através da percussão corporal, batidas com bastões, com a voz e gritos e do surgimento dos primeiros instrumentos musicais, tais como, xilofones, tambores e flautas entre 40.000 anos atrás e 9.000 a.C., Ou seja, o homem usa a linguagem dos sons desde seu remoto passado.

A palavra “música” é de origem grega, “musiké téchne” que significa “a arte das musas”, e uma das definições mais comuns de música é “a arte de combinar sons e silêncios de forma organizada”.

O sistema de notação musical que deu origem a escrita musical chamada “partitura” e a nomeação das notas (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) como conhecemos hoje, tem origem no século 1 d.C. e teve forte contribuição dos trabalhos do monge beneditino Guido d’Arezzo.

A partir daí, mas na verdade desde sempre, a música não parou de evoluir, de se transformar e de alimentar a alma humana na busca de expressão, de novas estéticas, de significados e sensações.

Uma coisa é certa, a música é a linguagem dos sons, e da mesma forma que não podemos dizer que alguém inventou os sons, ninguém inventou a música.

O homem apenas organizou os sons de uma forma que lhe fosse agradável, que lhe trouxesse significado e causasse sensações, e até hoje, tenta controlar os sons através de técnicas, métodos e estudos, criando essa forma de arte tão inseparável do homem moderno.

Mas porque precisamos da música? Para que ela serve?

Para tentar responder essa questão lembro-me do discurso do escritor Rubem Alves na minha formatura no curso de Música Popular da Unicamp, onde ele provocou todos os presentes falando da “inutilidade” da música e das artes em geral. Isso mesmo, ele falou de forma bem clara e sem pudores que “a música é inútil!”. Uma fala no mínimo surpreendente, já que era para um grupo de formandos de um curso de música. Mas no decorrer de seu discurso tudo foi fazendo sentido.

Ele dizia que num mundo onde quase todas as coisas precisam ter uma função prática, servir para algo, ter uma utilidade, assim como um copo serve pra beber água, um lápis para escrever, um carro para nos transportar e assim por diante poderíamos citar uma lista infinita de coisas e suas utilidades; nesse mundo prático e das utilidades, a música pertence à uma outra categoria de coisa, ela não tem utilidade prática no mundo. E é esse exatamente o ponto que a torna tão fascinante e intrigante.

A música, em sua inutilidade nos revela o desconhecido e nos leva ao lúdico, ao sonho, a um mundo um pouco à parte do mundo real às vezes tão duro e sem graça.  A música é útil à alma. É pura fruição. “Perder” um tempo ouvindo música nos faz sentir a vida, nos leva a outros mundos e nos ajuda a encontrar a si próprio. Na verdade, com a música o tempo para e o que passa a existir é o tempo da própria música, uma outra dimensão de tempo, talvez eterna.

Criar novas sensações, emoções e experiências estéticas e a partir delas abrir novas perspectivas, alimentar a alma, fazer surgir coragem, ânimo, alegria, harmonia e paz. Essa busca, acredito, sempre foi e deva continuar sendo a grande busca do músico e do verdadeiro artista, pois essa é também a busca de todo ouvinte de música e de todo ser humano.

Voltarei a falar desse assunto e de como a experiência musical influencia e é influenciada por aspectos sociais, culturais, históricos, religiosos e políticos.

Até lá, espero que todos desfrutem de maravilhosas experiências musicais.

Luciano Duarte

Luciano Duarte é músico, graduado em Música Popular pela Unicamp. Morou e atuou na Europa por três anos. É professor de música e atualmente trabalha como guitarrista de orquestras em navios de cruzeiros tocando com músicos do mundo todo, tendo passado por quase 30 países até o momento.

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