Porta da saída

Sim! É por algum motivo que pessoas entram em nossa vida.

Muito gostoso quando elas chegam de forma inesperada e pouco a pouco tomam conta da aconchegante sala de estar de nossa vida.

Constantemente faço convites para que novas pessoas tomem um café comigo e saboreiem o melhor biscoito. Algumas chegam educadamente, sentam-se e ali ficam. Preferem não ter o trabalho de ir e voltar. Simplesmente permanecem. Não se preocupam com o tempo ou se o café não está na temperatura ideal. Detalhes são só isso, meros detalhes.

Outras ficam inquietas, perturbadas. Basta uma sentada para um bate-papo para eu perceber quão desconfortáveis se sentem no meu ambiente. Talvez por ser pequeno, singelo demais e sem luxo. Quiçá por eu servir a bebida mais simples, ainda que na melhor xícara pintada a mão. A prosa não flui. O enfadonho monólogo é essencialmente evitável.

Elas reparam na cortina, na cor da xícara. Reclamam do café. O biscoito não é o importado da melhor marca, tampouco do sabor que elas esperavam. O sofá causa dores lombares e o espaço não tem ventilação nem ar condicionado. Por fim, queixam-se da textura do tapete. É o gancho que queriam para ministrar uma palestra sobre as novas tendências de tapetes do mercado internacional. Isso quando não se esquecem do horário enquanto criticam comportamentos alheios ou se autoveneram.

Nessa hora, meu silêncio se cala. Ele se põe a refletir. Minha alma não se alegra, minha boca não esboça nem o mais tímido dos sorrisos.

O estar nessa sala se torna dispensável para elas e para mim. Os balões coloridos que enfeitam o ambiente parecem murchar. Meu coração se esquiva a cada palavra proferida. Não há partilha. São ideias e ideais díspares. Rouba-se o tempo. Eu já tenho vontade de fugir dali.

É quando percebo o motivo de elas me visitarem.

Todo mundo deveria ter a oportunidade de conhecer pessoas assim. Simplesmente pra ter o prazer de dispensá-las mesmo antes de elas terminarem o último assunto.

Eu gostaria, sim, de chamar a isso de amizade, só que meu coração não deixa.

Minha sala jamais será acolhedora quando os visitantes não chegarem dispostos a emprestar seu estimado tempo e estiverem propostos a respeitar, a sentar no chão, a chorar ou rir comigo. Ainda que a pauta do dia não seja a mais agradável, tem que haver cumplicidade. Tem que ter o amor humano. O sentimento que não afasta.

É válida a experiência de caminhar pela sala de estar de nossa vida e encontrar por lá pessoas que até então não conhecíamos. E é sábio aquele que tem a sensibilidade de perceber quando algumas delas estão incomodadas e desconfortáveis no ambiente especialmente preparado para recebê-las. É o momento de abrir a porta da saída e desejar que elas não voltem.

Lucimara Souza

Formada em Letras, Pedagogia e especialista em Comunicação: linguagens midiáticas, atualmente professora. Aprecia a escrita permeada pela criatividade, humor e certa dose de sarcasmo.

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