Vô João

Quando eu era criança, ele já tinha cara de avô. Era velho e careca. As pessoas o chamavam de João Messias, como se fosse um profeta. Para mim, era apenas o vô João. Um homem simples, caipira da gema, desses que andam com chapéu de palha e fazem do tempo um amigo para recordar o que de bom aconteceu pela vida. E é deste tempo, aprendido com ele, que me faço parceira para lembrar dos momentos de infância. Pelo menos uma vez por mês, minha família visitava os parentes em Novo Horizonte.

Nós ficávamos hospedados em uma das minhas tias, já que meu avô, depois de viúvo, foi morar em um hotel modesto no centro da cidade.

Eu achava engraçado ele não ter casa. Apesar da insistência dos cinco filhos, o vô João se negava a morar com qualquer um deles. Era à tardinha que meu pai me levava para encontrá-lo.

Íamos apenas eu e ele à praça da fonte luminosa. Quando escurecia, as luzes da fonte eram acesas e a água jorrava da boca de uma sereia. Aos poucos, o lugar ganhava vida. Músicas românticas eram ouvidas pelos alto-falantes. Nos bancos, casais namoravam, e pela praça, pessoas faziam o “footing”. Meu avô me dava moedas para eu jogar na fonte e fazer pedidos. Mas o que eu mais gostava mesmo era de ouvir os versinhos que ele fazia. Tinham vários. Me lembro de dois. “Comparo a minha vida à vida de um passarinho, pulando de galho em galho, mas sempre alegrezinho”. O outro, um verdadeiro estudo da árvore genealógica: “Meu pai era mineiro, minha mãe era baiana, pra não misturar raças casei com uma italiana”. E que italiana! Não cheguei a conhecer a minha avó, mas contam que era uma dessas baixinhas bravas, que nenhum dos filhos se arriscava contrariar.

Acordava ainda de madrugada para dar conta do serviço da casa. Quase que encontrava com o meu avô chegando das noitadas. Dizem que ele era boêmio quando jovem. Dizem também que um dia minha avó recebeu a visita de um senhor acompanhado da filha. Queria saber se ali morava o João Messias. O homem exigia que ele honrasse a promessa de casar-se com a filha. Na situação que parecia sem saída, meu avô sentenciou:  – Eu já sou casado, mas tenho um pai viúvo que vai ficar feliz em casar com ela.

Dito e feito, de esposa a moça ganhou a condição de madrasta.

Meu avô sempre desconversou do assunto. Mas dizem as más (ou boas) línguas que a moça sempre o guardou no coração. Entendo perfeitamente. Meu vô João era mesmo um caso de amor.

Renata Canales

É jornalista, graduada em Comunicação Social pela Escola de Comunicações e Artes da USP, com habilitação em Rádio e Televisão, e habilitação em jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto. Além de ser Mestre em Filosofia da Educação pela Universidade Federal de São Carlos.

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