Dependência de substâncias psicoativas

As substâncias psicoativas*, drogas, sempre estiverem presentes na história da humanidade e na relação homem-mundo, buscando formas de alterar o funcionamento do sistema nervoso central. Desde sempre elas estão na sociedade, de diversos tipos e formas, havendo alterações diante a sua aceitabilidade e visibilidade, mas porque será que uma pessoa recorre ao uso de tais substâncias que são nocivas a seu corpo, podem causar dependência e colocar em risco tantas coisas em sua vida?

O Ministério da Saúde passou a considerar como problema de saúde pública o uso de álcool e outras drogas, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) explica que a manifestação de uso recorrente, independente dos problemas relacionados ao uso da substância, no conjunto de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos, caracterizam o transtorno de uso de substâncias psicoativas.

Segundo o CID 10, podemos classificar usuários em quatro categorias:

  1. Experimentador: Primeiro contato com a substância, na qual geralmente acontece em uso social e se descobre o que ela faz dentro de seu corpo. Usa-se por curiosidade, influência ou quaisquer outros motivos, mas geralmente não se ultrapassa da primeira experiência;
  2. Ocasional: Há o uso da substância em momentos específicos e ocasionais, com quantidade moderada e não se sente falta da substância. Geralmente é utilizada para interação social, festas, entre outros.
  3. Habitual: Usa-se com frequência, e sua regularidade e controle são o limite para a dependência.
  4. Dependente: Necessidade e falta de controle para uso, “vivendo” para consumo da substância e pelo uso desta, não ponderando risco, perdas e prejuízos.

A OMS ainda recomenda a seguinte classificação para pessoas que utilizam substância psicoativas:

  • Não usuário: Nunca fez uso de uma substância X;
  • Usuário Leve: utilizou a substância, mas no último mês não se teve consumo diário ou semanal;
  • Usuário Moderado: Utilizou a substância semanalmente, mas não diariamente no último mês.
  • Usuário pesado: Utilizou a substancia todo dia do último mês.

De qualquer forma, e independente das classificações acima, uso da droga tem efeitos distintos em cada organismo. Não são todas pessoas que experimentam psicotrópicos que se tornam dependentes. Há de se ter um fator maior, um significado pessoal atribuído ao uso da droga e seus efeitos. Quais espaços os efeitos preenchem, a ausência do que o uso lhe traz, o porque isto é importante.

Há estudos que dão como principal motivo de início ao uso de substância, e tornar-se dependente, são familiares. Em famílias que não possuem uma estrutura bem estabelecida, há dificuldades em relação aos papeis de cada integrante, brigas frequentes e outras questões relacionadas ao mal relacionamento familiar, pode-se desencadear um caminho para dependência química, porém nada é determinando ou determinante, pois cada um reage de uma forma diante a uma problemática.

Além da possibilidade colocada acima, é necessário lembrar que, em nosso mundo, a palavra que se faz valer para qualquer relação e interação, é a de “sedução”. Nossas relações de baseiam em interesses, trocas e no que é mais ”seduzente” a cada um. Para alguns basta-se a interação social e relações afetivas estabelecidas positivamente (amorosa/familiar/social/amizades/etc), para outros a relação dinheiro (empoderamento econômico), outros juntar-se a causas e viver por elas, e outros ao uso de substancia (que lhe seduzem e lhe traz bem estar).

Cada indivíduo possui uma história única, todos são singulares e o uso da droga pode ou não ser um aporte a vida. Cada um enfrenta o dia-a-dia de formas distintas, uns são mais práticos, outros mais emotivos, outros mais incisivos, outros deixam pra lá, alguns usam alguma atividade, enfim… Cada um vive, encara e experiência a vivencia de forma distinta.

Mesmo compreendendo o indivíduo diante sua completude e complexidade, considerando os aspectos genéticos, sociais, culturais, biológicos, psicológicos, vivências, a dependência química é um fenômeno complexo sem determinante pré-estabelecido.

A cada dia estamos mais distantes. Relações de troca afetivas são raras, e se resumem a pequenos espaços e momentos do dia. É mais fácil falar do que pensar, é mais cômodo executar do que refletir, pode ser doloroso permitir-se e não ter-se nada em troca. É “melhor” não correr o risco do que receber um “não”, e quando se utiliza-se de qualquer substância, independente de como consegui-la, ao consumi-la, não se terá um “não” como possiblidade de resposta, apenas a sensação.

Desta forma, a droga pode acabar sendo vista pelo usuário como aposta de resolução de seus problemas e/ou uma questão mais difícil e dolorosa, como um escape. Pode ser a forma mais cômoda de interação, busca do prazer e realização própria. Talvez ainda é vista como o único sentido atribuído, como a forma de auto aceitação, ou qualquer outra coisa que necessite de reflexões, analises, energia interna e compreensão. Uma fuga, independentemente de qual seja ela.

*Substâncias psicoativas:  qualquer tipo de substâncias que alteram o estado mental de uma pessoa por afetar a maneira como o cérebro e o sistema nervoso funcionam.

Autor

Yasmin Paciulo Capato

Yasmin Paciulo Capato é Psicóloga (CRP: 06 / 136448) clínica e atende as especialidade de Psicoterapia, Orientação Vocacional e Psicodiagnóstico na Clínica Vitalli.

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