O piso molhado

E nessa sexta-feira temos a sétima história da Coluna “Preces de Esperança”. Vale a pena conferir!

Era uma segunda-feira, 19 de julho de 2021.

Padre Josirlei acordou angustiado, ansioso, preocupado, com questões pessoais pra resolver. Entretanto, ciente de que as pessoas ao seu redor não poderiam assumir suas angústias, exteriorizou seus sentimentos através do sorriso e das brincadeiras com os amigos da casa paroquial.

Era dia de ir para Hospital São Francisco. Lá chegando, deixou o carro no estacionamento e, na calçada, viu um homem – de cabeça baixa, jogando água no piso. Um homem, até então desconhecido, que transformaria seu dia e renderia uma bonita história.

Antônio é seu nome.

Ao aproximar-se dele, padre Josirlei profere um bom-dia entusiasmado e afetuoso.

E o homem, levantando sua cabeça, responde:

– Bom dia!

– Tudo bem? – pergunta o padre.

– Ah, doutor! Não está tudo bem, não.

– Não… Eu não sou médico!

– Mas você está usando jaleco… – hesita o senhor.

– Não… Mas nem todos os que usam jaleco são médicos.

– O que você faz, então?

– Eu sou Capelão!

– Capelão? O que faz um Capelão? O que você é especificamente? – investiga Seu Antônio.

– Eu sou padre!

Seu Antônio parou, olhou e começou a chorar incessantemente.

– Moço, o que acontece? – indaga o padre.

– Ah, eu achei que fosse o doutor pra tirar minhas dúvidas.

– Se eu puder ajudar e estiver ao meu alcance, eu posso te ajudar. – ofereceu-se o padre

– Mas o senhor é padre…

– Pode falar o que sente. Eu posso te ouvir. – diz o Capelão, consolando-o.

E o homem relatou:

– Eu acabei de perder minha esposa há uma semana. E é tão triste perder alguém que se ama. Foi muito difícil, padre. Agora ficaram meus enteados e eu. Trato-os como meus filhos. Eu assumi a paternidade. E uma de minhas filhas está grávida de gêmeas. São duas meninas. Minha mulher pediu que eu cuidasse deles caso acontecesse alguma coisa. Que eu fosse a figura do pai pra eles. Tenho tantos conflitos dentro de mim…

– O que seu coração diz? – perguntou o padre.

– Eu amo todos eles, padre!

– Então, faça o q seu coração diz!

– Ela tinha 41 anos. Foi enterrada como paciente vítima de Covid-19. Teve duas paradas cardíacas. Por que não me avisaram sobre o estado dela? Cheguei ao hospital, poucas horas depois ela estava morta. Alguma coisa errada tinha… Eu não consigo entender tudo isso. Por que tudo isso aconteceu? Por que é tudo tão difícil? – diz o homem, aflito.

– O senhor quer falar mais sobre isso ou compartilhar experiências? Cada um tem suas dores…

– Pode compartilhar, padre!

E o padre prossegue:

– Pois é… Eu também perdi minha mãe. Naquele momento, me vi perdido entre tantos porquês. Vai fazer um ano que a perdi, mas em meio a tantos porquês, podemos experimentar um como e um para quê. Essa ideia reflete um pensamento de um psiquiatra chamado Viktor Frankl. Eu tenho escolhas importantes pra assumir e responder diante do sofrimento que estou passando…

O homem ouviu, em silêncio, quando o padre viu e fotografou a placa: “Cuidado – piso molhado”.

– Sabe, Seu Antônio, quando eu estava no túmulo da minha mãe, eu estava pensando e “brigando” com Deus. Eu perguntava: por que, Deus? Por quê? Aí me veio uma passagem bíblica, quando Marta e Maria, aos prantos, questionam Jesus sobre a morte de Lázaro, seu irmão, dizendo: “Se o senhor estivesse aqui, o meu irmão não teria morrido!”… Minha mãe não teria morrido, sua esposa não teria morrido… 

E continua, enquanto Seu Antônio ouve, atento:

– Mas não se esqueça: Jesus chorou a morte de Lázaro. Tenho certeza de que chorou a morte da minha mãe e chora pela morte de sua esposa, assim como chora por todas as suas angústias. Calma, meu filho! Você não está sozinho. Nunca esteve. Fique em paz… Se o piso está molhado, acalme seu coração, é o próprio Jesus que vem enxugar as suas lágrimas.

Esse encontro foi pura providência divina, graças derramadas sobre aquele piso que sustentava as lágrimas de Seu Antonio, por onde Padre Josirlei frequentemente passa e que, naquele dia, pôde partilhar também sua dor, garantindo através de suas palavras que todo aquele que vive e crê em Jesus jamais está só, jamais morrerá.

Capelão Pe. Josirlei e Lucimara Souza

Recortes da realidade que suscitam esperança, fé e amor. Experiências vividas pelo Capelão Pe. Josirlei, traduzidas por Lucimara Souza.

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