Entre tantas coisas

Desde muito cedo aprendi a usar corretamente a língua portuguesa. Confesso que, para minha cabeça, as coisas mais complicadas eram as conjugações verbais, as concordâncias e as regências. Hoje, já sem medo, domino-as bem.

Revelo que o que ainda me intriga e ora me assusta é a bendita – ou maldita – palavra coisa. Análise etimológica e pesquisas a dicionários nunca foram esclarecedoras para mim. Persisto incansavelmente na busca pelo entendimento do indiscriminado uso da referida coisa. É muita coisa que se diz. É muita coisa que se ouve.

É muita coisa que se escreve. É muita coisa que se lê. É muita coisa… São muitas coisas!

As duas sílabas aí parecem traduzir o que as pessoas gostariam de falar ou escrever naquele minuto em que falta a palavra certa. É por meio da coisa que tentam concluir a ideia ou o pensamento. Por fim, entretanto, coisa nenhuma é dita.

Afinal, o que é coisa? Pobreza vocabular? Tudo? Ou nada? Sei lá que coisa é essa!

Coisa já esteve no cinema como título de filme – uma das coisas mais assustadoras que já vi. Na literatura, as coisas uniram-se às palavras formando o ensaio de arqueologia das ciências humanas “As palavras e as coisas”, do filósofo Foucault. A música popular brasileira trouxe a coisa em sucessos eternizados: a coisa mais linda, mais cheia de graça que desfilava por Ipanema encantando Jobim e Vinícius, e a banda de Buarque que passaria cantando coisas de amor.

Várias coisas foram e são sucesso no rádio e na TV. São coisas que carimbaram o passado e estão aí presentes.

As Igrejas ressaltam que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e alertam sobre os males que o coisa-ruim pode trazer a nossa vida. O coisa-do-outro-mundo constantemente faz besteira e o coisa-à-toa não ajuda em coisa alguma.

Há quem tenha feito uma declaração de amor recitando “você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida!”. Coisa meiga, não?! E excêntrica também.

Ah, e os que vivem de coisa errada? Coisa feia, não?

É… A coisa está cada vez mais preta na política nacional.

Dizer coisa é genérico demais, convenhamos. Contudo, quem nunca coisou alguma coisa um dia? Ou por falha da memória de alguém, foi chamado de coisinha ou coisinho? São coisas da vida. Coisa é tão versátil quanto a famosa carta curinga do baralho. A cada combinação, um valor. Ela agrega acepções díspares de região para região. É uma coisa muito engraçada. Fazer coisa, por exemplo, pode se referir a uma linda noite de amor. Coisa boa, não?! Da mesma forma que, simplesmente, a coisa, tautologicamente descrevendo, denomina alguma coisa, algum ser real, aparente ou inanimado, um mistério, um assunto ou uma coisa qualquer; tudo depende do contexto em que se está. Coisa curiosa e real.

Coisa ainda exprime estado emocional e sensações mais adversas. Que coisa!!!

E quando não se tem controle para usar a tal palavrinha, sempre se arranja um lugarzinho pra encaixá-la. É daí que surge a coisa em uma classe de palavras aqui, outra ali e por aí vai.

Coisa vira verbo, substantivo, adjetivo e até advérbio.

Gramaticalmente, o substantivo coisa é feminino, mas dá pra flexioná-lo em gênero – quando tenho o coisa ou a coisa, até o coiso -, em número – quando as coisas são muitas -, ou em grau, quando pretendo dizer que coisíssima nenhuma se compara a essas coisinhas da língua portuguesa.

Li bastantes coisas sobre a palavra coisa para escrever essas coisas que você tem o prazer de apreciar. Uma coisinha aqui, outra coisinha ali. Várias coisas que resultaram num amontoado de coisas.

Coisamente… A coisa coisa muita coisa…

É coisa demais pra cabeça! Uma coisarada que, particularmente, ainda tenho que aprender a distinguir. Afinal, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, completamente diferentes.

Que coisa louca!

Não falei ainda nem metade das coisas possíveis de serem ditas através da palavra coisa, e, você aí, há de concordar comigo que é por essas e por outras coisitas mais que nossa língua é tão rica. Português é outra coisa. É ou não é?

Tem muita coisa bacana, mas… Ufa! Falar, ler e ouvir o tempo todo sobre a mesma coisa cansa… Coisa chata!

Eu paro por aqui. Entre tantas e outras coisas, tenho ainda mil e uma coisas para fazer. Dentre elas, contar quantas vezes a coisa apareceu por aqui.

Quer me ajudar? É esse o espírito da coisa…

Autor

Lucimara Souza

Formada em Letras, Pedagogia e especialista em Comunicação: linguagens midiáticas, atualmente professora. Aprecia a escrita permeada pela criatividade, humor e certa dose de sarcasmo.

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