Nós, calados

Leia a terceira crônica da jornalista e escritora, Matilde Leone.

O menino de cinco anos de idade, lá do Rio das Pedras, está internado em um hospital público do Rio de Janeiro, “referência para baleados”. Ele foi atingido durante um tiroteio entre a polícia e milicianos. A equipe médica já está habituada, mas não conformada, com esse tipo de atendimento. Especializada. Uma triste especialização em assinar atestados de óbito.

O menino, infelizmente, não será o último a ser baleado perto de casa, pois os assassinos andam à vontade pelas ruas desses redutos da pobreza e do descaso espalhados pelo Brasil; eles são donos da dignidade alheia, do gás, do faturamento dos pequenos comerciantes, da TV a cabo, das construções, das adolescentes que nem os pais podem proteger… donos da vida de quem se atreve a desobedecer. Que mundo é esse? Que país é esse, deitado em berço esplêndido? Que pátria gentil é essa, território demarcado pelas bancadas de homens de terno Armani e cabelos ridiculamente pintados, brigando pelas gordas fatias dos acordos políticos, filme que cansamos de ver há muitas décadas.

Foto: Divulgação

Nada é novidade mais para nós quando se trata de assassinatos, roubos, conchavos, fraudes, golpes, balas perdidas, crianças desaparecidas… Não é privilégio desse governo, sabemos muito bem, mas a novidade foi a entrada em cena de um homem que, eleito pelo povo para governar o país, não tem a menor noção da liturgia do seu cargo.

Presidentes costumam se solidarizar com o seu povo, mostrar empatia, sobrevoar áreas atingidas por desabamentos, enchentes – como cidades da Bahia sofrem com moradores perdendo o mínimo que têm; ser condolentes com as famílias que perdem seus entes queridos – como os mortos na pandemia da Covid-19; mesmo que seja somente para cumprir um gesto pró-forma, é o mínimo que se espera dele. Mas não é o caso. Enquanto o Brasil desmorona, ele (vocês sabem quem) passeia de lancha nas águas do litoral, dança funk, faz gracinha e ainda posta nas redes sociais. Meu Deus!!! Que deboche! E o que fazemos? Continuamos calados ou falando sobre nada.

Matilde Leone

Maria Matilde Leone é jornalista e escritora, formada pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, SP, em 1985. Trabalhou em diversos veículos de imprensa como redatora e editora, tais como jornais, revistas e de televisão como EPTV, afiliada da Rede Globo. Foi docente de jornalismo na UNICOC em Ribeirão Preto e na Unifran, na cidade de Franca. É autora de Sombras da Repressão, o Outono de Maurina Borges, publicado pela Editora Vozes; A Caixinha do Nada, editora Coruja, Theatro Pedro II – 80 anos, editora Vide. Editora e revisora de várias publicações.

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