A hora e a vez das crianças

Leia a quinta crônica da jornalista e escritora, Matilde Leone.

Ano novo? O que há de novo? Já se passaram quase quinze dias depois do estouro do champagne e o que estou vendo não me lembra nada aquela musiquinha “Feliz Ano Novo… que tudo se realize…”. O ano velho não foi embora porque ele não tem para aonde ir. Ele se prolonga, se estende nos rompantes absurdos das falas dele (vocês sabem quem), nas calçadas sujas, nas mãos estendidas dos pedintes, no preço do combustível, nas centenas de voos cancelados, nos feminicídios, nas quadrilhas do PIX, nos desabrigados das enchentes ou no olhar perdido de quem tomou duas doses de vacina e se encontrou com o vírus na troca de presentes, no abraço de reencontro na noite feliz, no ano que vai nascer ou na barraca da praia comendo tapioca com água de coco.

Ah, mas para quem tomou as duas doses, o perigo é menor, os sintomas são mais fracos, não há risco de internação. Será que nossa vida será assim para sempre? O vírus vai mesmo fazer parte de nosso cotidiano?  A cada momento uma nova notícia. Está certo que existe muito pra se descobrir sobre o assunto, e a culpa não é da ciência, pois os incansáveis cientistas também se deparam com um desconhecido camaleônico, um osso duro de roer e não estou aqui pra falar disso. É que às vezes – como também sou humana –  começo a me perder nesse Grand Kanion e não vou direto ao assunto.

E o assunto são as crianças. Pra quê vacinar as crianças, pergunta, com cara de quem acabou de acordar do sonho de ser general de cinco estrelas, aquele ser que deve ter a carteira de vacinação em dia trancada no cofre!? E nesse vai e vem de impropérios e de ameaças a quem deveria ser parabenizado, os pais esperam que as sórdidas questões políticas sejam vencidas de dez a zero pela razão e pela responsabilidade em favor da vida. Vai dar certo. Apesar dele.

 

PS: Já vi esse filme antes, o do ameaçador.

Matilde Leone

Maria Matilde Leone é jornalista e escritora, formada pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, SP, em 1985. Trabalhou em diversos veículos de imprensa como redatora e editora, tais como jornais, revistas e de televisão como EPTV, afiliada da Rede Globo. Foi docente de jornalismo na UNICOC em Ribeirão Preto e na Unifran, na cidade de Franca. É autora de Sombras da Repressão, o Outono de Maurina Borges, publicado pela Editora Vozes; A Caixinha do Nada, editora Coruja, Theatro Pedro II – 80 anos, editora Vide. Editora e revisora de várias publicações.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: