O brincar: Ser criança

A vida atual, aquela famosa “correria do dia a dia” implica em vários comportamentos, tanto adultos, quanto infantis, vivendo em função do relógio para cumprir toda a agenda.

A cada dia temos menos tempo para dedicar a nós, a família, ao cuidado, ao lazer, sendo sempre cheios de tarefas e obrigações, e com as crianças as coisas não são tão diferentes. Geralmente, passa-se o dia todo da escola, ou grande parte dele, com a agenda se dividindo em atividades escolares, extracurriculares e deveres escolares.

O ser criança e o brincar, muitas vezes é deixado um tanto de lado, fica pra segundo plano, apenas em momento de lazer, com preocupações recaindo apenas em saber se há estudo durante o dia e o tempo que se ficam em casa, ou se as tarefas foram realizadas e cumpridas, tendo “mini humanos” com seus deveres e obrigações.

Será que nós, adultos, temos respeitado a criança tal como ela deveria ser? Lembramos sobre a importância da brincadeira, como algo construtivo? Temos dedicado um tempo a interagir, brincar e com elas?  É brincando que elas se mobilizam, criam e ampliam habilidades cognitivas, motoras, sociais e afetivas, mas talvez tenhamos esquecido isto, e reduzimos as brincadeiras a atividades de lazer, relacionando apenas a brinquedos e eletrônicos.

O brincar faz parte de ser criança, é através dele que a criança será criança. A forma de se expressar, entender o mundo e a cultura, desenvolver capacidades, imaginação e reflexão se dão através da brincadeira. É com ela que se aprende, se significam as vivencias e desenvolve-se.

Os primeiros meses de vida do bebê já são permeados por várias tentativas de ver e sentir tudo a sua volta, descobrindo cada pequena coisa. Descobre-se a mão, e tudo a envolve, e assim por diante. O processo do desenvolvimento cognitivo se dá  através dos esquemas sensório-motores que ele vai encontrando e experimentando, descobrindo e assimilando cada nova sensação.

Através deste processo de exploração, brincadeiras, as crianças percebem esquemas corporais, lateralidade, percepções e potencialidades, sendo que a partir deles, haverá o treinamento de movimentos motores, promoção de independência maturidade e novas vivencias e situações. Além da aprendizagem, é pelo meio do brincar que a criança irá expressar seus desejos, saberes, fazeres e também suas fantasias, expressando seus sentimentos e aprendendo com eles.

Winnicott (1975) “a brincadeira é universal e é própria da saúde: o brincar facilita o crescer, logo a saúde”.

Através de jogos as crianças vivenciam a solidariedade, alegria, derrotas, justiça, co-construção de regras e responsabilidades, negociam, fazem escolhas, opinam, aprendem as diferenças e a convier com elas, desenvolvendo-se politicamente, eticamente, moralmente e afetivamente.

Jogos de ganhar ou perder, a criança aprende a trabalhar sua resistência à frustração e também a pensar no outro, nos sentimos que envolvem ganhar e perder pra si, e para o colega. O brincar permite aprender a compartilhar, cooperar, comunicar, relacionar-se, ceder e expressar-se, desenvolvendo noção de respeito por si e pelo outro, bem como a cumplicidade. Trabalha-se a auto imagem, a autoestima, lidando com medos, angustias e agressividade, canalizando-as e buscando resiliência.

Com o faz de conta, há a experiência de vários papeis sociais, e compreende-se o papel do adulto, comportando e sentindo-se como ele, estruturando-se para a entrada neste mundo. Com o faz de conta ela procura conhecer a si mesma e o mundo, podendo simular situações, conflitos e dificuldades em sua vida familiar e social, expressando seus medos, aflições e todas emoções envolvidas em cada situação.

Vigotski: “ao brincar, a criança está acima da própria idade, acima de seu comportamento diário, maior do que é na realidade”.

Os eletrônicos estão em todas as coisas, em todos os lugares e momentos, porém eles não são a única forma de brincar, brincadeiras e jogos. É necessário reduzir o tempo com jogos eletrônicos e ampliar o tempo para jogos de tabuleiros, o imaginar, e brinquedos em si, tendo tempo no dia a dia para o brincar espontâneo e não estruturado e também tempo para o brincar com jogos educativos e construtivos.

As brincadeiras e jogos devem propiciar prazer ao brincar, dar divertimento, despertar curiosidade, interesse, concentração, raciocínio, estimular a atenção e concentração e raciocínio, bem como o envolvimento total da criança com a atividade em si, estimulando o desenvolvimento cognitivo e psicomotor.

A conscientização de que o brincar é uma das formas mais eficientes da criança conhecer a si mesmo, os outros, a cultura e o meio é a ideia fundamental, cabendo aos pais ou responsáveis prepararem espaços ideais para as brincadeiras e jogos, selecionarem brinquedos para a idade correta que estimulem aprendizado e conhecimento com contextos a serem explorados. Um brinquedo não precisa ter valor material, mas sim meios que permitam a exploração de diferentes linguagens e formas.

Dedicar momentos para interação e participação nas brincadeiras e jogos enrijecem e estimulam a imaginação das crianças, ajudando na compreensão de coisas ainda não compreensíveis, despertando ideias, descobrindo soluções e descobrindo o mundo em sua volta.

O brincar deve ser levado para o âmbito escolar também, trazendo brincadeiras e jogos que estimulem o conhecimento e o aprendizado, não apenas o utilizando na parte de lazer e recreação. Há diversas formas de se aprender brincando, tornando o processo de ensino aprendizagem mais leve, interativo e fácil de compreender.

Alguns déficits atuais podem estar relacionados a falta de exercícios e treinamentos de desenvolvimento de habilidades, sejam motoras ou psíquicas. Crianças que não brincam, não interagem, não são estimuladas, tendem a serem mais acomodadas e tem mais dificuldades em tarefas básicas e diárias se comparadas as que brincam, possuem estímulos e possuem um conhecimento em jogos, brincadeiras e faz de conta.

Substituir o presente material pela atenção, o mandar para” lugar X” pelo brincar em si, mudar aquela saidinha pro shopping para ida ao parque algumas vezes, a compra do brinquedo caríssimo por matérias para construção e desenvolvimento, podem estimular muito mais a interação, desenvolvimento e crescimento da criança. Tudo tem-de-ser ponderado, não precisamos voltar há 40 anos, mas também não precisamos deixar que o dinheiro e a tecnologia dominem tudo.

Os benefícios do brincar são inesgotáveis e importantíssimos para o crescimento das mais diversas habilidades para a criança, para ela ser criança, oferecendo espaços de descontração, interações, relações e descobertas permitindo aprendizado e o amplo desenvolvimento físico-motor, intelectual, afetivo-social, social e pessoal.

Brinque, permita, deixe ser criança, seja criança também.

Yasmin Paciulo Capato

Yasmin Paciulo Capato é Psicóloga (CRP: 06 / 136448) clínica e atende as especialidade de Psicoterapia, Orientação Vocacional e Psicodiagnóstico na Clínica Vitalli.

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