Entre câmeras, flashes e afetos

Conheça a história de Ana Carolina, 19 anos, que enfrentou um câncer agressivo e teve seu sonho realizado: fazer um ensaio fotográfico com a família.

Aos 19 anos, Ana Carolina enfrentava um câncer agressivo. Em meio ao tratamento, ela mesma reconheceu que havia deixado de sonhar, de ter vontades. A rotina pesada, as conversas constantes com profissionais da saúde e o desgaste emocional fizeram com que ela se sentisse profundamente triste e cansada, não apenas do tratamento, mas de tudo o que envolvia a doença.

Aquela mulher ainda menina lidava com perdas muito significativas, como a vida social interrompida, sonhos pausados, vaidades deixadas para trás, o medo de se apresentar às pessoas como alguém doente. Era como se a própria juventude fugisse dela.

Era uma adolescente de muita fé, que fazia parte da comunidade Batista da Lagoinha e tinha na família seu maior apoio: a mãe, Deise, e os irmãos Luís Guilherme, Ana Rafaela e João Guilherme.

Padre Josirlei acompanhou, durante o trabalho da Capelania, parte da batalha de Ana. Ele a conheceu na oncologia do Hospital das Clínicas. Quando seu quadro se agravou e ela se tornou refratária à diálise, o cansaço era evidente; o organismo não correspondia ao tratamento como deveria.

Foi nesse momento que a equipe multiprofissional o procurou. A terapeuta e a psicóloga, junto com os demais profissionais, pediram que ele a visitasse. Mas ele não foi lá para falar de religião, e sim sobre o sentido da vida.

Ele buscou, então, entender o que ainda fazia sentido para Ana, o que ainda despertava algum significado dentro dela. E foi assim que a conversa tomou um novo rumo.

Durante o diálogo, também acompanhado pela médica, a jovem manifestou o desejo de posar para fotos, embora não quisesse que ninguém a visse fragilizada pela doença. Padre Jô pôde falar com satisfação de seu gosto pela fotografia e de seu hobby de fotografar.

Sensibilizados, a médica e o Capelão trocaram mensagens e organizaram um dia para que fosse fotografada com a família, como desejava. Articularam a participação da família, contataram uma maquiadora – Carol Mendes, uma profissional para ajudá-lo a fotografar – Ana Leonel, e seu marido – Alessandro Vieira, responsável pelo making off. Ela ganhou ainda um vestido da Farm e usou acessórios levados pela maquiadora.

No dia das fotos, mesmo indisposta, enfrentando intensas dores, que exigiam o uso de morfina, foi levada de cadeira de rodas ao estúdio improvisado na oncologia e vivenciou uma transformação marcante. Sua dor, que não era apenas física, mas também emocional, não foi ignorada, foi ressignificada.

Ao buscar sentido espiritual em meio ao sofrimento, ela conseguiu se reconectar com a própria essência. Mesmo sonolenta, ao se ver arrumada, maquiada e preparada para o ensaio, reconheceu sua beleza e passou a expressar alegria e vontade de estar ali, vivendo aquele momento de forma intensa, sorrindo e entregue.

Foto: Divulgação

– Eu sou linda! – exclamou, sorrindo.

Ana foi fotografada junto da família como sonhou e viveu o dia mais feliz de sua vida. A equipe multiprofissional da oncologia, muito humanizada, acompanhou emocionada o lindo ensaio pleno de significados.

Ao se despedir dela, o padre a viu tirando selfie, algo que ela não fazia desde o início da enfermidade. Estava feliz, realizada e grata por tudo aquilo que estava acontecendo.

Após esse dia, teve uma melhora considerável em seu quadro, especialmente em relação às dores e à disposição. Entretanto, em um curto espaço de tempo, precisou voltar para o hospital devido à evolução da doença, vindo a fazer, dias depois, a sua passagem para a eternidade.

Ana foi muito amada e muito querida. Como relatou sua mãe, “aquele ensaio trouxe dignidade para ela”. Ao olhar as fotos, a família enxerga uma forma de manter viva sua presença, como se ela ainda estivesse ali.

Foto: Divulgação

Sua história e sua memória nos recordam que, mesmo diante da dor, a vida ainda pode florescer em pequenos gestos de sentido e amor. São os cuidados de Deus…

E que bom que existem profissionais com um olhar tão humano, como a equipe do HC. Mais do que cuidar de um corpo, eles acolhem histórias, respeitam sentimentos e transformam momentos difíceis em gestos de dignidade e afeto.

@lucimaras_souza | @josirleipasi

Lucimara Souza

Formada em Letras, Pedagogia e especialista em Comunicação: linguagens midiáticas, atualmente professora. Aprecia a escrita permeada pela criatividade, humor e certa dose de sarcasmo.

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