‘O NAPEC é a realização de um sonho, de um projeto de vida que cultivo há muitos anos’

Tarsila Olivito é coordenadora do NAPEC de Cravinhos, professora, neuropsicológa e tem se dedicado a trabalhar e desenvolver pessoas com deficiência.

Hoje (01/06) retornamos com nossas entrevistas e apresentamos a 29ª história da nossa série de reportagens “Personagens de Cravinhos”. O projeto consiste em mostrar, um pouco das pessoas que levam o nome da cidade por todos os cantos do mundo, bem como se destacam no próprio município, com seus empreendimentos, talento, simplicidade e carisma.

E dessa vez vamos contar a história da professora, neuropsicóloga e, atualmente, coordenadora do NAPEC (Núcleo de Atendimento Pedagógico Especializado de Cravinhos), Tarsila de Oliveira Olivito, que foi Conselheira Tutelar de Cravinhos (2011), durante um ano, mas depois foi qualificada como psicóloga escolar da cidade de Altinópolis (SP). Em 2005 voltou a Cravinhos e passou a atuar como psicóloga no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social).

Tarsila Olivito há 14 anos está à frente do NAPEC em Cravinhos e tem se destacado em seu trabalho
Foto: Arquivo Pessoal

“Em 2006 acabei passando no concurso da Prefeitura Municipal de Cravinhos, como professora e passei a dar aulas, já em 2007 fui convidada a fazer parte da equipe do NAPEC, onde atuo até hoje como coordenadora”, explica Tarsila Olivito.

Sempre muito dedicada ao trabalho com pessoas com deficiência, ela foi se especializando e atualmente coordena um núcleo especializado na área, que atende mais de 120 crianças e adolescentes na cidade de Cravinhos. E nessa semana Tarsila recebeu a nossa reportagem para uma conversa bem descontraída, em que contou um pouco de como é o NAPEC, como o município de Cravinhos tem lidado com a inclusão, a expectativa quanto a Educação e muito mais. Acompanhe!

NAPEC está em uma nova sede, bem mais ampla e com possibilidade de mais atendimentos
Foto: Arquivo Pessoal

InterTV Web – De onde veio o interesse por trabalhar com alunos com algum tipo de deficiência?

Tarsila Olivito – Acredito que em nossa trajetória profissional muitas vezes somos escolhidos, falo isso porque minha primeira experiência profissional foi como psicóloga escolar em uma escola do município de Altinópolis (SP). Na escola onde trabalhava tinham duas classes especiais, uma de Deficiência Auditiva (DI) e outra de Deficiência Mental (DM), nomenclaturas usadas na época, e onde tive que iniciar o acompanhamento destes alunos, como de outros com transtornos de aprendizagem, e desde então passei a me dedicar a este público e me especializar na área e a cada dia mais me apaixono por este trabalho.

InterTV Web – Você é a favor ou contra a inclusão de estudantes com algum tipo de deficiência em salas de “aulas normais”?

Tarsila Olivito – A Educação Inclusiva surgiu há muitos anos e vem crescendo no mundo inteiro, com base no pressuposto de que toda criança tem direito à educação de qualidade e de que, portanto, os sistemas educacionais têm que mudar para poder responder as suas necessidades, defendo a ideia de que todas as crianças são especiais e, por isso mesmo, devem receber o que a escola tem de melhor, em outras palavras todas as escolas devem ser “especiais”. Como crianças, todas têm direito de acesso à educação de qualidade e de conviver com outras crianças de seu bairro, de seu convívio social, seus pais e familiares e todas, sem distinção, merecem nossa atenção, cuidado e aperfeiçoamento.

InterTV Web – Para você o que significa uma inclusão efetiva?

Tarsila Olivito – Para o sucesso da inclusão escolar e para que esta inclusão seja efetiva, precisamos entender que não é uma responsabilidade unicamente dos professores e sim há todo um contexto envolvendo diversos aspectos imprescindíveis; subsídios governamentais, arquitetura escolar, corpo discente, comunidade escolar e a pessoa com deficiência que será incluída, sendo que todos estes aspectos precisam ser trabalhados, concretizados em suas peculiaridades específicas, concluindo ações para atender o público-alvo da Educação Especial (pessoas com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e com altas habilidades/superdotação), reestruturando, causando diversas mudanças necessárias para a efetiva inclusão escolar, mas precisamos do envolvimento de todos aqueles que de alguma forma estarão fazendo parte direta ou indiretamente deste processo inclusivo, é necessário que aconteça o engajamento e o apoio desta causa para que este aluno não esteja unicamente com sua matrícula garantida e que seja realmente incluído, inserido no contexto escolar, com o devido respeito a sua integralidade humana.

“É preciso que todos nós tenhamos atitudes mais coerentes e bem mais respeitosas com o outro”
Foto: Arquivo Pessoal

InterTV Web – Ainda existe muito preconceito com crianças que tenham algum tipo de transtorno?

Tarsila Olivito – Esta é uma pergunta difícil de se responder, “o preconceito está nos olhos de quem vê, ou melhor de quem tem uma visão deturpada a respeito das pessoas e de suas singularidades”. Acredito que está mais no olhar do adulto do que de uma criança, por isso educar para a diversidade é tão importante nos tempos atuais, tanto em casa, quanto na escola.

Em boa parte, isso depende muito de nós mesmos, de nossa postura, enquanto pais e educadores, porque as crianças, como sabemos, captam os sentidos de nossas ações e até das nossas intenções mais obscuras.

É preciso que todos nós tenhamos atitudes mais coerentes e bem mais respeitosas com o outro. A começar, com nossos filhos que tem de saber que o mundo não gira ao redor de seus desejos, de sua família, de seu tempo. Ensinar que as diferenças não são defeitos, mas podem significar complementariedade. É passar adiante a ideia de que não há melhor maneira de derrubar nossos preconceitos do que a convivência com o outro. Mesmo com todos os conflitos, dúvidas e questionamentos que surjam no meio do caminho, isso nos faz seres mais humanos, mais tolerantes e por fim mais inclusivos.

InterTV Web – Os profissionais da área de Educação estão preparados para atender com qualidade qualquer aluno?

Tarsila Olivito – Nós professores já compreendemos a necessidade da inclusão e a mudança na prática pedagógica, mas a dificuldade está em como fazer:

No processo de formação do professores e de capacitações;

No currículo;

Na adaptação de materiais para os alunos;

No sistema de avaliação;

No papel do aluno;

Ressignificar práticas pedagógicas;

No uso das tecnologias dentro da sala de aula;

Na redução de alunos por turmas;

Trabalho colaborativo.

É necessário também deixar de ser a personagem principal da sala de aula, passar a falar menos e a ouvir mais. Deixar também de ser aquela que ensinava para ser aquela que pesquisa e que, junto com os alunos, busca as informações para serem transformadas em conhecimento.

Os resultados que podem ser obtidos em um curto espaço de tempo nos dá a certeza de que, em nossa vida profissional, é um caminho sem volta e que não há mais espaço para as antigas práticas pedagógicas, é preciso buscar o novo e investirmos em um trabalho colaborativo.

É urgente implantar a cultura de trabalho colaborativo na escola entre os professores, defendo a importância da atuação colaborativa do professor regente e do professor de AEE (Atendimento Educacional Especializado), favorecendo uma prática pedagógica mais inclusiva e que alcance a todos os alunos.

 

InterTV Web – Você é coordenadora do NAPEC há muito tempo. Como você vê a evolução desse equipamento de Educação?

Tarsila Olivito – O NAPEC (Núcleo de Atendimento Pedagógico Especializado de Cravinhos) existe há 14 anos, nasci e cresci com ele, como profissional e ser humano, portanto, estou atuando neste equipamento desde que a Secretaria Municipal da Educação de Cravinhos passou a ter uma visão mais ampla com a Educação Inclusiva e para com os alunos público-alvo da Educação Especial.

No início nascemos pequenininhos e ocupávamos uma sala da EMEB. “Maria Virgínia Matarazzo Ippólito” e éramos em poucos profissionais e fazíamos um trabalho itinerante nas escolas. Com o passar do tempo, fomos crescendo e com todo o apoio da Secretaria Municipal da Educação e da Prefeitura de Cravinhos, ganhamos uma sede, ampliação do quadro de profissionais e fomos ganhando mais relevância frente ao trabalho com este público no nosso município.

O NAPEC tem por objetivo identificar, através de um processo de avaliação das habilidades intelectuais, as adaptativas, as afetivo-emocionais, físicas/de saúde e as condições ambientais, para determinar o nível e a intensidade dos apoios a que fazem jus os alunos que se encontram com dificuldades de aprendizagem, para prosseguirem com sucesso seu processo educativo. Atualmente é responsável pela avaliação neuropsicológica e pelo encaminhamento dos alunos ao atendimento nas áreas da Psicopedagogia, Educação Física Adaptada, Atendimento Educacional Especializado – AEE (Educação Infantil) que acontecem no próprio Núcleo e na Sala de Atendimento Educacional Especializado – AEE, das escolas municipais, assim como o acompanhamento aos professores especializados que atuam neste ambiente educacional diversificado e encaminhamentos à Rede Municipal de Saúde para avaliação Clínica. Também organizamos cursos de formação para professores e monitores da rede municipal de Educação.

Hoje contamos com uma sede ampla e com uma equipe composta de 14 profissionais, entre equipe de apoio e professores especialistas que atuam no próprio núcleo e nas escolas da rede municipal.

InterTV Web – O que o NAPEC significa para você?

Tarsila Olivito – O NAPEC é a realização de um sonho, de um projeto de vida que cultivo há muitos anos, a possibilidade de promover a inclusão de alunos com deficiência em salas de aula comuns, de ofertar novas possibilidades de aprendizagem e de termos um novo olhar a respeito da deficiência. De propiciar o convívio e o respeito as diferenças e de criar condições para a igualdade de oportunidades.

É minha segunda família, pois toda a nossa equipe compartilha dos mesmos ideais e juntos a Secretaria Municipal da Educação e a Prefeitura de Cravinhos, buscamos ofertar recursos para que estes alunos tenham acesso ao conhecimento de uma maneira diversificada e que venha de encontro com suas singularidades.

Alguns dos integrantes do NAPEC
Foto: Arquivo Pessoal

InterTV Web – Como tem sido feito o trabalho com as crianças que se utilizam do NAPEC, durante a pandemia?

Tarsila Olivito – Venho procurando atender e orientar pais que estão voltando a procurar o Núcleo para o atendimento presencial, que retornará de forma individualizada e respeitando todas as medidas de segurança e higienização, devido à pandemia do COVID -19, a partir do momento em que for possível.

Também ofereço auxílio e orientação aos professores de AEE e demais profissionais que trabalham no Núcleo de forma presencial, quando necessária e por meio de vídeo chamadas e orientações via WhatsApp; auxiliando os na busca ativa dos alunos; no auxílio aos atendimentos mais individualizados, na elaboração de material e no monitoramento das atividades realizadas pelos professores e através de suporte na página criada para o NAPEC, no Facebook.

No que diz respeito ao ensino remoto, os professores do Atendimento Educacional Especializado – AEE, em exercício de sua função na rede municipal de ensino estão fornecendo apoio aos pais e alunos atendidos por meio de grupos criados via WhatsApp onde são postados vídeos (alguns do youtube, outros elaborados pelos professores do AEE e outros criados pelas professoras da Brinquedoteca, num projeto de parceria com o NAPEC), histórias e blocos de atividades que foram elaboradas pelos professores especialistas e impressas pela Secretaria Municipal da Educação e entregues aos pais para realização das atividades juntamente com seus filhos. Em casos mais específicos, estão fornecendo material adaptado e atendimento mais individualizado via WhatsApp e orientações mais específicas para pais e professores que tem solicitado auxílio para acompanhamento de alunos com maior limitação cognitiva.

O professor de Educação Física Adaptada criou um grupo via WhatsApp com os pais dos alunos atendidos e tem prestado assistência aos alunos por meio do post de atividades, vídeos e orientações específicas quanto a saúde física e mental.

Semana dos Direitos da Pessoa com Deficiência
Foto: Arquivo Pessoal/Tirada antes da Pandemia de Covid-19

InterTV Web – Você acha que os pais e familiares das pessoas com algum tipo de deficiência também precisam ser capacitados?

Tarsila Olivito – Receber o diagnóstico de uma deficiência a respeito de um filho, seja adquirido na concepção da gravidez, pelo parto ou devido algum eventual acidente é uma missão penosa que recai principalmente aos cuidados da família. A pessoa com deficiência possui necessidades especiais que precisam ser sanadas, e tais necessidades muitas vezes influenciam a dinâmica da rotina familiar, das relações familiares, a estrutura física e material do ambiente. Há a necessidade de que a família seja capacitada, acolhida por toda equipe multidisciplinar que a acompanha, bem como pela escola e por sua comunidade, para que esteja envolvida no processo de educação, habilitação, reabilitação da pessoa com deficiência. Conforme a criança começa a se desenvolver surge a esperança, o interesse pela criança, em especial se houver apoio da família, da escola e de seus amigos. Muitas surpresas e inseguranças acontecem em relação aos novos problemas que possam surgir, por isto é necessário compreender que os pais precisam receber apoio constante do mundo a sua volta.

Os familiares necessitam de informações claras e precisas sobre a deficiência e suas necessidades, potencialidades e limitações, devem ser incentivados sobre seu relevante papel para o desenvolvimento e reabilitação da pessoa com deficiência. Também precisam lidar com a ansiedade que surge sobre o desempenho e desenvolvimento da criança. Outro aspecto importante é ter consciência que a criança com deficiência possui necessidades especiais que necessitam muitas vezes de modificações ambientais, necessidade maior de controle constante, observações e orientações, assim como também, colocar limites, chamar atenção, preocupar-se com seu futuro como qualquer outra criança sem deficiência.

InterTV Web – O que Cravinhos significa para você?

Tarsila Olivito – É a cidade onde nasci, cresci, amadureci, onde vivo com minha família, onde cultivei meus melhores amigos e maiores sonhos. Cidade que ajudou a me transformar em tudo que sou hoje, que me acolheu, que acreditou em mim e em todo o meu potencial, por tudo isso, sou muito grata e tenho orgulho de ser cravinhense.

 

InterTV Web – Suas considerações finais.

Tarsila Olivito – Aprender a viver em um ambiente de diversidade é um dos principais desafios do mundo atual e, portanto, da Educação.

Ao longo da vida escolar, os alunos se deparam com todo tipo de diferença: de gênero, raça, valores, religião, expressão da sexualidade, ritmos de aprendizagem, configurações familiares, deficiências etc. Diante dessa realidade, nós, devemos ensinar o discurso da tolerância e do respeito. 

Para aceitarmos a diversidade é preciso sentir e experimentar o outro, deixando que ele nos afete emocionalmente. Acredito que o contato afetivo é o único capaz de transformar a qualidade das relações humanas. O que me encanta no outro? O que me incomoda?

Devemos aprender a aceitar as pessoas como elas são. Não deixe que o preconceito mine você. Não julgue uma pessoa sem realmente conhecê-la. Você deveria acolher e respeitar todas as pessoas.

Quando entendermos o princípio da diferença, automaticamente começamos a pensar e a promover a inclusão, ou seja, reconhecer a ideia de que todos somos seres diferentes e únicos e que por isso, temos necessidades específicas, que devem ser aceitas, valorizadas e respeitadas.

Kennedy Oliveira

É formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pelas Faculdades COC (atualmente Estácio). É pós-graduado em Comunicação: linguagens midiáticas, pelo Centro Universitário Barão de Mauá.

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