O melhor doce de leite

Quando eu era criança, entre as muitas casas em que morei, todas elas me deixaram alguma lembrança que, vez ou outra, retornam em flashes, em qualquer momento. O arquivo da memória é um HD potente que carregamos para todos os lados sem auxílio de mouses ou Wi-fi. Um simples objeto ou uma palavra ouvida aciona o file imediatamente e a história vem inteira, trazendo personagens e sentimentos.

Hoje estou com uma casa na lembrança. Ficava na Rua Padre Feijó, na Vila Tibério. Era pequena, com uma varandinha singela e o quintal com algumas plantas e, penso, não tenho certeza, alguns pés de frutas, talvez de limão. A alguns metros de lá, ficava o Lar Santana, um casarão imponente; sabia que lá viviam crianças órfãs, mas só depois de algum tempo eu fiquei sabendo o que significava órfãs. O casarão me fascinava, sempre tive vontade de entrar e conhecer as crianças. Isso nunca aconteceu.

Do interior de minha casa, lembro pouco. Mas, um fato para mim era interessante. Minha mãe juntava os restos de comida para um homem, acho que um sitiante, que criava porcos. Ele passava todos os dias com uma carroça e levava, não só da minha casa, mas de outros vizinhos. Alimentava os porcos, mas retribuía. De vez em quando, nos presenteava com uma caixinha com doces que a mulher dele fazia. Eu gostava de ficar na varandinha vendo as pessoas passar ou de brincar no minúsculo jardim que, na verdade nem era um jardim: dois pés de roseirinhas e algumas plantas rasteiras, mas para mim, era um pequeno paraíso. Sempre que o dono dos porcos chegava com a caixinha de doce, eu estava lá para receber. Era goiabada, doce de abóbora, de mamão e de leite em pedaços.

Eu sentava na varandinha e comia com a gulodice própria das crianças. Eram maravilhosos, mas o top de linha era o doce de leite, macio, clarinho, sem grumos, os pedacinhos derretiam no céu da boca. Talvez eu já tenha comido outros melhores, os argentinos, que, sem trocadilho, são um deleite, os de Minas e outros de marcas famosas, mas em minha memória, aquele era o doce de leite mais gostoso do mundo. Eu era feliz naquela casa.

Matilde Leone

Matilde Leone é jornalista e escritora, autora de A Caixinha do Nada, seleção de contos e crônicas; Sombras da Repressão - O Outono de Maurina Borges, pela Editora Vozes; participação em Os Desbravadores (personalidades que fizeram a história do interior paulista) - biografia de Flávio Uchoa pela Editora Palavra Mágica; Erótica - Coletânea de Contos escritos por mulheres, da Editora Brasiliense, 20 Ficções de Amor, da Editora Coruja; Theatro Pedro II, da VIDE Editoral. Trabalha como revisora e editora de textos, além de criação de projetos editoriais para jornais e revistas.

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